quarta-feira, 7 de abril de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Epílogo 9

obra de Naum Gabo



—E que sabes tu, aqui na maior, nesta linda casa? –ironizou Andrea.
— Gostas da minha casa? Eu, às vezes, sinto-me mal cá dentro...

Andrea sorriu. “Por que não se sente bem nesta casa? Se calhar, queria aqui sempre a Laura. A escolha é dele...” E repetiu o que Bernardo dissera antes:
— Triste, muito triste.
— O quê?
— O que acontecia comigo e com a Lorenza. Mas não havia saída.
— Não havia nenhuma possibilidade?
— Nenhuma.
— Nem quando ela foi ter contigo a Milão?
— Ainda menos. Dessa vez, deixei-a contrariado. E foi a última. Mas se interpretei os disparates como razões que deveriam afastar-me dela, foi porque queria ir embora, definitivamente.
—Definitivamente?
— Sim. E ela também. Compreendeu que não valia a pena teimar. Levantou-se, pegou na gabardina...
— A gabardina branca?
— Não, azul. Pegou na gabardina azul e disse-me: “Tenho de ir ter com o Mario.” Quem é o Mario?, perguntei-lhe. E ela respondeu: “É o amigo com quem vivo em Milão.” Deu-me um beijo e foi-se embora. À porta, ainda espreitou. Nunca mais a vi.
— Então ela é que se foi embora.
— Se achas isso.
— Porquê? Querias a glória de teres sido tu a correr com ela?
— Naquele momento talvez não quisesse nada. O que eu queria era vê-la pelas costas.
— E não tinhas ciúmes do Mário?
— Sei lá quem é o Mário! Se calhar, inventou-o!
— Não era o futuro marido?
— Nem isso. Ela casou com um Giuseppe.

Bernardo comentou:
— Não tinha muita imaginação.

— Ah!, isso não sei, só sei que foi embora e se pôs a espreitar ao pé da porta, a fingir que não era capaz de a abrir, à espera que a chamasse.
— E por que não a chamaste?
— Porque queria vê-la pelas costas.
—Tanto ódio?
— Sim. Naquele momento, era ódio. E se queres que te diga, a menina à minha frente, a dar às pernas, nervosa e a dizer o que não pensava, a ver se entrava dentro de mim e a fugir cada vez que tentava agarrá-la, cansava-me, já não a podia aturar! Deixei-a sair e não fui atrás dela.
— E ela não voltou atrás?
— Não. As coisas passaram-se, como estou a dizer: eu fiquei em Milão e ela foi ter com o tal Mário. Nunca mais a vi.

— E se te chamasse agora, ias ter com ela?
— Não. Sabes porquê? Porque tinha medo de não a fazer feliz.
—Sempre o medo!
—Era um medo diferente. Se eu fosse ter com ela não sabia mexer-lhe. Andámos tanto tempo a fugir um do outro que se me trouxesses a Lorenza nua, em cima dessa bandeja, ficava aflito, sem saber por onde começar.
— Ficavas quieto?

“É da aguardente, por isso pergunta estas coisas” pensou Andrea.

-Agarrava-a e apertava-lhe os peitos, beijava-lhe as coxas, metia-lhe a língua na boca. Fazia-lhe isso e muito mais! Porque a amo e desejo.
—Ainda?
-Porque a amei! — gritou Andrea.

Dominou-se:
— Mas, agora, já não era a mesma coisa.
— Era diferente de quando a conheceste ou de quando saíram juntos pela primeira vez?
— Claro! Agora seria uma sopa requentada!
— E tu pensas que ela pensava isso, quando te telefonou para Milão?
— Não mo disse, mas precisava de olhar nos olhos o próprio vazio e eu fazia parte dele. Era a sua maneira de ser.
— E por que aceitaste ir ter com ela?
— Porque não tive coragem de lhe dizer que não.
— Só por isso?

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