O TMGA Guarda é das cidades mais altas da Europa, na Península Ibérica, só vencida por Ávila. Um soberbo burgo, nobre e generoso. Miguel de Unamuno quis conhecê-la e descreve a visita, em 1908, no livro “Por tierras de Portugal y de España”. Encontrou à venda Tackeray e Herculano, cruzou rapazes e raparigas –estudantes- que liam Mirabeau, Le Sage, Rousseau e discutiam poesia. Calcorreada a terra “fria, ventosa e húmida, denegrida e forte”, exclama: “ Estas personagens camilianas!” Cativou-o a alma da Guarda –como sempre o apaixonara a alma portuguesa. Ambas, numa só, torturadas e trágicas, buscavam-se, no dealbar do século XX. Quando, em 1950, mais de 40 anos depois, cheguei ao mundo genuíno descrito pelo grande escritor espanhol, as almas sufocavam, há demasiado tempo entaladas nas varas do salazarismo. Nem os rapazes e as raparigas se falavam pelas ruas ou cafés, nem os estudantes debatiam, livremente, Rousseau. A alma portuguesa estava algemada. Hoje [ontem] é um dia importante: passa o quinto aniversário do Teatro Municipal da Guarda. O TMG mudou a paisagem: graças à inteligência e sensibilidade do director, Américo Rodrigues, trouxe ao “alto monte da sagrada Beira” o que de melhor se faz no campo das artes; devolveu-lhe o oxigénio e a liberdade de espírito; projectou-o internacionalmente. O TMG representa um grito do Interior esquecido. Já não é um despertar: é a confirmação da urgência de refazer o país abandonado, prenhe de possibilidades e da vontade de as concretizar. De costas viradas, iremos a nenhures. A Guarda festeja um passo gigantesco e essencial: a abertura à Europa e a reafirmação do próprio perfil.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 25/04/2010
p.s. aproveito para corrigir o incorrigível: no belo livro “Caminhos Sinais Sentidos” (Culturguarda E. M.), que assinala a passagem do referido 5º aniversário do TMG, há no meu texto constante dessa publicação, texto intitulado “O Antes e o Depois”, uma gralha desagradável e de minha total responsabilidade: digo eu que “dez anos mais tarde (...) surgiu, imponente, belo, de magnífica arquitectura, o Teatro Municipal, o TMG”.
Dez anos depois... do 25 de Abril de 1974... Ora eu queria dizer 30 anos, porque é de 2004 o ‘nascimento’ físico do TMG...
p.s. aproveito para corrigir o incorrigível: no belo livro “Caminhos Sinais Sentidos” (Culturguarda E. M.), que assinala a passagem do referido 5º aniversário do TMG, há no meu texto constante dessa publicação, texto intitulado “O Antes e o Depois”, uma gralha desagradável e de minha total responsabilidade: digo eu que “dez anos mais tarde (...) surgiu, imponente, belo, de magnífica arquitectura, o Teatro Municipal, o TMG”.
Dez anos depois... do 25 de Abril de 1974... Ora eu queria dizer 30 anos, porque é de 2004 o ‘nascimento’ físico do TMG...
Culpa minha. Peço perdão. Mas creio que os eventuais leitores do meu texto logo se aperceberam da maldita e traiçoeira gralha.
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