sábado, 10 de abril de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Epílogo 13

Óleo de Arkhip Kuinji (1842-1910)



Calaram-se, ensimesmados, até que Bernardo, num repente, atirou o cálice contra a pedra da lareira e gritou:
-Vergonha?! Sim, vergonha! Nunca conseguimos chegar onde queríamos!

Foi quando Andrea percebeu o desgosto do amigo: era afinal, outro homem insatisfeito. Bernardo acompanhara-o mas não o arrancara à solidão e isso afligia-o. Andrea compreendeu e não o queria aflito ou a sentir-se culpado.

-A vida não nos ajudou, não é culpa nossa! –disse, tentando sossegá-lo.

Bernardo limpou o suor da testa, sorriu, a pedir desculpa:
-Talvez... Talvez nós quiséssemos demais... Exagerámos. Provocámos os outros, a ver se nos ouviam. Ninguém nos ouviu! Ninguém res­pondeu!

E voltou a agitar-se, mudou de posição, bateu com o pé numa das achas apagadas que pegou fogo e ficaram duas mechas, duas tranças viradas para cima.

— Parece o elmo, de um guerreiro antigo. –brincou Andrea.
— Guerreiros, heróis, somos nós, que suportamos isto!
— O quê?
-Andarmos aos berros atrás dos outros e, de manhã, quando te levantas, vais tomar banho sozinho!

E olhou-o, magoado:
-Achas justo?

Andrea teve vontade de responder: “É higiénico.” Mas disse o seguinte:
-Não tem importância e nem sempre é assim.
— Ai tu já tomaste banho acompanhado? Também eu! Tantos banhos! Mas o pior é que a água do chuveiro era uma para um e outra para o outro. E, quando tomávamos banho, já estávamos fartos, já nos tínhamos esquecido, já nos queríamos esquecer. E, depois, cada pessoa ia à sua vida.

Andrea conhecia a história de Bernardo e Laura Buriani. Lembrava-se que, tempos da faculdade, às vezes, ele desaparecia e reaparecia, contente mas nunca dizia nada. No entanto, parecia que era só o que queria: contar aos outros o que lhe acontecera.

—No fundo, meu velho, valemos pouco! — desabafou Bernardo.
Andrea concordou:
-Não valemos nada!
Abriu os braços, desesperado, quase a entornar o cálice:
-Queres a verdade? A verdade verdadinha? Já nada me resta! Tenho o coração vazio e sem coração não há santo que nos valha!

Bernardo, inquieto, perguntou-lhe:
-Não é bom reencontrar, em nós, os amores perdidos e desculpar as ofensas? Se a vida te pesa, abre as janelas, deixa que entre o ar... ou vai ter com os outros e alegra-te com eles. Só quando sofremos é que nos reco­nhecemos?
— Não é bem assim, mas é quase. Ou tu achas que isto tem algum sentido?
— Isto, o quê?
— A nossa vida! Já reparaste? Formei-me em medi­cina, casei, tive um filho. Divorciei-me, arranjei amantes, do Cesenatico a Veneza. Ganho dinheiro em Milão. Não me importa que a Lorenza se tenha ido embora. E vou ficar à espera da morte. Com mais dinheiro e outras amantes, vou ficar como a avestruz.
— A avestruz?
—Sim, de cabeça escondida na areia, a esquecer que existo e a esquecer a minha responsabilidade. Quem existe é responsável por si próprio, ou não é?!
-E pelos outros.

Bernardo via-o a pedir-lhe ajuda, os olhos fixos, e acrescentou:
—Somos responsáveis por tudo. Mas, se vocês insistissem, se continuassem o jogo, a conversa, a provocação, acabavam mal: matavam-se. Se levassem o amor até ao fim e vos desiludisse, não tinham outro remédio senão suicidarem-se. Escaparam a tempo.
— Não é uma vergonha?!
— Talvez. Mas era a vossa pureza. Queriam tudo e preferiram, a desiludirem-se, ficar sem nada. Guardaram a ilusão. E ela ainda não vos deixou, senão tu não estavas aqui! Procuraste-me para falar dela. O que querias era continuar a remoer os sentimentos.

Andrea fez o gesto de se levantar:
-Não fui eu que te procurei, foste tu que me convidaste! E, se achas que estou a mais, vou-me embora!

— Está quedo! — gritou-lhe Bernardo. — Não queria ofender-te! Mas é a verdade! Viemos para aqui os dois remoer sentimentos. Não foste só tu.
— Ah!, assim está bem! –reconheceu Andrea, era o que queria, e sentou-se

-Precisávamos disto, de nos justificarmos e de lambermos as nossas feridas. Estivemos todo este tempo à espera de nos absolvermos um ao outro, a aproveitarmos a nossa amizade. Já são quatro horas da manhã!
— Não foi só isso, Bernardo.
— Não foi, é verdade. Tivemos alguma coragem. Olha, por exemplo, acho que tivemos a coragem de acreditar na vida. Essa, realmente, não nos falhou, senão nem sequer tínhamos confiado na nossa amizade. Em vez de estarmos aqui, podíamos ter-nos despedido em Milão.
-É verdade.
-Tu perguntaste se a vida tem sentido. Para mim, tem. Ficámos sempre abaixo do que desejávamos, é certo. Mas desejámos. Aspirámos a qualquer coisa. Não, com certeza, ao gosto de, na ansiedade, desfrutar ou ferir os outros, nos deleitarmo a mostrar as mazelas e a pedir que no-las curassem. Quisemos mudar coisas. Mudámos o mundo? Não sei. Mas, se não mudámos, contribuímos para que certas coisas não ficassem na mesma. Quisemos. Isso é muito. Ris? Talvez sim, talvez seja mania minha. Ou sonho meu. Nosso. Os meus pais diziam que ninguém me dobrava e eu pensava que se calhar me dobravam porque eram mais importantes do que eu, mas acabava por fazer o que queria. Quase tudo.
-Fizeste sempre, eras o melhor.
-Não, Andrea. O esforço e a luta éramos nós todos. Só que vocês tinham mais dinheiro e vinham de outro meio.

Andrea encolheu os ombros:
-Isso que importa? Não é por aí...
-Eu sei que não é por aí, mas ajuda... Aliás, já não me preocupa nem me ficou rancor.

Riu envergonhado:
-Um dom?... Não gosto de odiar. Passaram muitos anos. Dez? Talvez, mais. Uns vinte, desde que nos formámos. Muito água por baixo das pontes. O mundo não é o mesmo. Nós somos os mesmos? Somos e não somos: trazemos as cicatrizes da vida.
-Ora, adeus! Acreditas no que dizes? Instalámo-nos. As nossas casas são fortalezas, portas blindadas, à prova de bala! Armámos em heróis e...
Riu e troçou:
-Blindámos a alma! Tu..., refugiaste-te aqui...

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