terça-feira, 6 de abril de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Epílogo 8

"Corpos", de Egon Schiele (1890-1918)


—Era mais complicado! Ela insistia, arranjou maneira de nos encontrarmos em Milão. Telefonou-me a dizer que estava de passagem, umas horas, por que não nos víamos? Por que não tomávamos um café? Depois, o costume. Parecia arrependida de me ter procurado, esquivava-se, defendia-se com frases ridículas. Ria a despropósito, agitava-se, tremia. Por que me procurara? E eu via a sua angústia e a sofreguidão. Queria dizer-me qualquer coisa e não era capaz. Não queria perder-me e agarrava-se, no meio do café, a dar nas vistas, a querer convencer-me.

— Tiveste vergonha?
— De quê?
— Dela. De se agitar e dar nas vistas.

— Que disparate! E daí..., talvez. Mas o pior foi que me fechei em vez de a ajudar. Confesso que me agradava a sua aflição. Achei sempre que sofria de mais e que a culpa era dela. O mesmo gozo que me davam as suas cartas: vê-la indefesa. E, nesse momento, a desequilibrar-se, as pernas traçadas e agarrada aos braços da cadeira, a falar alto, dependia outra vez de mim.

— E não fizeste nada?
— Não. Fiquei a olhar, assisti ao espectáculo. Ela gostou sempre de dar espectáculo.
— Divertiu-te?

—Nem por isso. Mas lison­jeava-me pensar que fazia todo aquele teatro por minha causa. Disse-me coisas com pés e cabeça, apesar de parecerem extravagantes: “Lembraste do livro que me ofereceste? Chamava-se Os Falsários. Parecia que sabíamos os dois que não tínhamos coragem para sermos verdadeiros...” Perguntou-me, também, pelo Roberto e pela minha vida. Falou da Caterina. E eu a desfrutá-la, angustiada e com tanta vontade de falar! “Vais ficar muito tempo em Milão? Também me vou embora de Veneza. Já não aguento, nem a família, nem os canais...”

Bernardo ouvia. Compreendia e perdoava. À luz de que direito o condenaria? Apesar das bebidas, da noite, do silêncio, a insónia aguçara-lhe o espírito e sentia uma grande tristeza.
— Por que não lhe perguntaste a razão?
—Não foi preciso, explicou-me: “Sufocam-me, preciso de respirar.”
— E o que é que ganhou?
-Já sabes. Casou-se com o engenheiro de Pordenone e teve um filho.

E a servir-se de mais aguardente:
—Daquela vez, disse-me que não soubera pegar-lhe, quando ela precisara de mim.
-É verdade?
— É. Não soube pegar-lhe no Paradiso Perduto. Não soube pegar-lhe quando foi comigo a Burano e estava à espera que a beijasse. Não soube pegar-lhe na cama.
— Na cama?
— Sim, na cama! Na cama em que nunca estivemos! No Paradiso Perduto, onde a deixei como a encontrei, a cair de bêbeda e desgraçada! Em Burano, quando fiquei à espera de que fosse ela a atirar-se para o meu colo! Em Treviso, da única vez que lá foi, nos sofás da minha sala, quando a humilhei a fingir que não reparava que ela queria que eu lhe saltasse para cima!
— Ela queria?
— Por que foi sozinha à minha casa?! Nunca quis outra coisa!
— Pensas isso?
— Por que não havia de pensar?
— Porque nunca foste para a cama com ela.
— Fiz de parvo. Mas, ali, no café de Milão, já era tarde.
— Antes tivessem ido para a cama! Aliviavam-se! –exclamou Bernardo, impaciente.

— Sei lá! Se calhar ainda era pior! Quebrava-se o encanto. Pelo menos, ficou a satisfação de saber que me desejou e que recusei. De saber que me chamava e não lhe responder.
— Não tiveste remorsos?
— De quê?
— De a deixares assim.
—Não podia evitar aqueles sentimentos. Que fosse assim a vida, parecia-me uma merda: duas pessoas amavam-se e arranhavam-se.
— E maltratavam-se.
— Faltava-nos paciência.
—Andaram com salamaleques e brincaram com isso. Ela a provocar-te e tu, para a excitares, a fugires. Ela a dizer que não te queria e tu a humilhares-te e a insistires, com medo que a brincadeira acabasse e que, na cama com as amantes, já nem pudesses lembrar-te dela.
— Eu quando ia para a cama com as outras não me lembrava dela, desafogava.
— É mentira. Quantas, vezes é que te agarraste às outras a pensar nela?
— Nunca com a Caterina! Ó Bernardo, que raio de conversa! Nós é que devíamos ter vergonha de estar a falar assim de uma pessoa!
—É triste.

Sem comentários:

Enviar um comentário