segunda-feira, 12 de abril de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Epílogo 15

óleo de Pablo Picasso (1881-1973)


—Vou contar-te a verdade! Fazia-me tanta aflição que pudesse existir e viver sem mim, desligar-me o telefone ou não responder às minhas cartas, sair comigo e deixar que eu fosse ao lado dela sem me dizer nada, como se me fizesse um favor ou nem quisesse saber o que eu pensava e achar que a acompa­nhava porque ela era tão generosa e humana que não recusava a companhia a ninguém! Afligia-me tanto que não resisti à vontade de a ferir, de tentar feri-Ia até a destruir. Disse-lhe que não tinha pés nem cabeça, que vivia uma comédia que ela própria alimentava, e que se refastelava na comédia. Que a gozava, com a prudência conveniente: nem se daria a mim, nem a ninguém, nem à morte. Quando metia tubos de comprimidos pela garganta abaixo, deixava sinais para que os outros a viessem salvar. Era uma cachorra pelada, assim como eu era um cão escanzelado. Fugia e aquecia-se onde podia aquecer-se.

— Quando disseste?
— Depois do nosso encontro em Milão. Depois de a ter visto vir ter comigo e de a despachar.
— Se a tivesses despachado...

—Não resisti e acabei por telefonar-lhe. Aproveitei uma ida a Veneza e convidei-a a sair comigo. Ela respondeu que não podia, que tinha que fazer. Era a conversa de sempre. Ao princípio ainda insisti, com bons modos, e ela nem atava, nem desatava, “hoje não calha bem, se fosse noutro dia...”. Era sempre assim, recusava-se mas fingia que hesitava para me entreter. Eu explodi: “O que é que tens que fazer esta noite?”, gritei-lhe, “tens de ir para a borga com quem? Quanto te pagam? Deixa o dinheiro e, em vez de saíres com os teus clientes, sai comigo!”

Agora, era Andrea quem suava, afogueado, os olhos injectados.
— Insultaste-a dessa maneira?!

E Andrea percebeu a indignação de Bernardo. Girou, nas mãos, o cálice, respirou fundo e murmurou:
— Sim, insultei-a. Mas o que disse foi: “Deixa o dinheiro e, em vez de saíres com os teus clientes, sai comigo, que te amo!”

—Que brutalidade!

—Acrescentei: “A porcaria, a merda da tua vida! A tua covardia! A tua impotência! Metes dó!” Já não podia parar. Queria entrar nela, rasgá-la. E ela, num grito, respon­deu: “Se eu sou uma merda, a culpa é de você!”

Esperou, em vão, a resposta de Bernardo e continuou, a saber que chocava o amigo e a meter a faca no próprio peito:

—Havia na sua voz revolta, choro e aceitação. Ouvia-me e não era capaz de desligar o telefone. Ouvia, ouvia. Do outro lado, talvez estivesse uma pessoa covarde, narcisista, egoísta, mas estava também uma pessoa que a violência das minhas palavras atirara para a confusão. E ela preferia evitar a confusão. Preferia? Mesmo que preferisse, nunca conseguiria evitá-la nem eu conseguiria evitar a violência, se não nos separássemos. Era isso que nos ligava irremediavelmente: a desordem do nosso amor. Eu sabia que ela não ia desligar, que ia continuar a ouvir o que lhe dissesse. Antes, dois ou três anos antes, talvez desligasse.

— Há mais tempo! Lembra-te de que vocês não se viam há cinco anos!

—Sete! E, sete anos antes, então, sim, desligava! Mas, naquele momento, engolia tudo! Sete anos antes, o nosso amor tinha começado e podíamos brincar com ele, podíamos arriscar-nos a perdê-lo e divertir-nos com a coragem que tínhamos de correr esse risco e admirar-nos por isso, convencidos de que não era amor bastante, mas prontos a reconsiderar o que pensávamos e a apreciar, a estimar, aquele pouco que nos era dado. Mas, no dia em que lhe telefonei, ela sabia que tínhamos chegado ao fim, que já não podíamos brincar, que já tínhamos estragado o que havia para estragar e que, se ainda alguma coisa nos prendia, o que queríamos era ver-nos livres um do outro e não pensar mais no assunto. Por isso é que a desgraçada não desligava, à espera de um milagre e a lamber os últimos bocadinhos em que estaríamos juntos, mesmo só ao telefone! Ouvia-me e lambia o que eu lhe dizia! Rebolava-se naquilo, as minhas frases aqueciam-na! Gozava com aquilo!

—Esperava um milagre ou gozava as ofensas?

—As duas coisas. E eu era culpado. Eu enganava-a. Sabia o que ela pensava e desfrutava o meu poder: o poder de a levar a esperar ainda e a sub­meter-se aos insultos e a gozar com isso. Vingava-me das ausências, das ironias e das patadas, que não passavam de simulações que procuravam atrair-me e prender-me e que eu nunca quis ver, que eu nunca soube ver. Perdi todas as oportunidades que me deu quando era ela quem me ofendia e queria dizer outra coisa. Embrulhei-me no gosto do drama e do sofrimento e, bom covarde também, desforrei-me, logo que percebi que podia fazê-lo, a magoá-la, a empurrá-la para as doenças, para os vícios dela.

— Não exageras? Não te responsabilizas de mais?

— Não. Vibrava quando a magoava, quando a sentia sofrer. Era como se ela se me entregasse. A voz ia ficando mais doce, mais confiante, infantil. Parecia que gostava que lhe batesse. Tinha-a na mão, tinha-a à minha mercê. E, em vez de me envergonhar, em vez de a ajudar a sair daquilo, insistia.
“Era a maneira de a atingires, de lhe entrares dentro, ou de a provocares, na esperança de que se cansasse, ou se enojasse de si mesma e viesse ter contigo.” -pensou Bernardo- “Que ela renunciasse a tudo, àquilo que consideravas vícios e fraquezas, e se entregasse a ti, era o que tu querias. E sabe-lo bem. Ninguém vos separará.”
— Ainda lhe telefonei, antes de ir embora. Não queria fazer-lhe mal. Amava, nela, o que ela era, os vícios e as fraquezas. Se voltasse a aparecer-me, mesmo vomitada, como à saída da Viúva, abria-lhe os braços! Apertava-a contra o mim! Protegia-a! Dava-lhe um banho e levava-a para a nossa casa de Treviso!
— De Treviso?
— Ou de Milão, que importa?
— E por que não a levaste?
-Não pude. Continuei a picá-la e ela continuou a deixar-me ofendê-la. Era como se a amparasse ouvir-me gritar! E eu crescia, procurava bem o sitio onde a ferir e, se mais a feria, mais prazer tinha! Ela não conseguia deixar de me ouvir, não era capaz. Feliz, encostava-se à minha voz. Feliz? Quem é que pode ser feliz assim? Mas, Bernardo, acho que se aconchegava, se refugiava na minha voz que lhe chegava do lado de lá do fio, a bater-lhe, mas ao menos tinha isso: a minha violência, e os violentos não são indiferentes. Canso-te? Esta história não muda... Nunca mudou!
Riu, para espantar o silêncio:
-Uma cega-rega!
-Não... Mas já é tarde, não queres ir dormir?

E, porque Andre se calava. acrescentou:
— Não tinhas mais nada, além daquela mulher que te aturava tudo?
E os olhos de Andrea brilharam.
— Naquele momento, não. Tentava habituar-me a viver em Milão e a prescindir do resto, de Luísa, da casa de Treviso, de Veneza e de Lorenza. Não se muda facilmente de vida. E, sobretudo, quando não se tem a certeza de que vale a pena. Ainda agora, não tenho a certeza de que tenha valido a pena deixar Treviso, Veneza, Lorenza.
— Pobre de ti!
— Porquê?! É a lei da vida! E não tenhas pena! Já pensaste na Lorenza? No que lhe aconteceu?
— Casou-se. É feliz.
— Quem te disse?

Bernardo iludiu a pergunta:
—Sei lá... Conta o que te falta contar
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