
Aquilino Ribeiro, na Dedicatória/Prefácio em “Os avós dos nossos avós”, escreve: “a fisionomia moral do português correntio daria água pela barba ao psicanalista”. A Camilo Castelo Branco, que compreendeu, assumiu e expressou essa alma como nenhum, ela deu trabalho e cansaço, custou-lhe sangue. Nós temos as cantigas de amigo, Camões, a Nau Catrineta e a História Trágico-Marítima, António Nobre, Mário de Sá-Carneiro e quem de nós diga sermos um povo mestiçado que alia “gestas de fraude e de ludíbrio” e cuja inteligência “se adapta ao absurdo, quer em pensamento quer em obras”, um povo “triste e melancólico, bêbedo de fado e de saudade” (Aquilino). Camilo confessa: “Eu sou um homem que conto a minha vida quando não posso, por ignorância, contar a vida alheia”. Mas a sua vida (a sua obra) é o poço, o abismo, onde vamos reconhecer a nossa: Camilo é o tabelião do destino português. No fascinante livro/álbum de José Viale Moutinho, “Camilo Castelo Branco, Memórias Fotobiográficas” (Caminho), está o Mestre, está o Santo, o Torturado de Seide –a alma portuguesa. Os textos -superiormente seleccionados- que acompanham as imagens conduzem-nos, certeiramente, através da paixão camiliana, até ao suicídio. “Toda a gente, alguma vez, pensou em se matar, excepto os bons cristãos, os felizes e os tolos, que não são cristãos nem felizes, nem precisam ser senão tolos para viverem e até sobreviverem a si próprios”, ironiza Camilo. O que levou a queimar os olhos em resmas de papel foi o vulcão que trazia dentro –e o que o levou a disparar o revólver foi o medo de morrer em vida. A morte, pérfida, sarcástica, devolveu-lhe a eternidade.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de ontem
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