
AS MUITAS TENTATIVAS
Haverá quem do 5 de Outubro de 1910 diga mal. O que há mais é ressentidos e pobres de espírito. O que há mais é quem sofra a secular infelicidade do país. Ninguém se opôs? Sim, em 1383-85, o país reagiu. Seis décadas mais tarde, o ex-príncipe regente, D. Pedro, conde de Coimbra, tentou mudar e salvar o país, abri-lo à Europa até que o assassinaram em Alfarrobeira. O esforço do Marquês do Pombal durou 25 anos e perdeu-se. Ao recuperado absolutismo obscurantista sucedeu-se o sonho (e a guerra) liberal, que se diluiu numa monarquia chocha: a páginas tantas, andou por cá D. Maria II, com as burricadas à volta do Castelo da Pena, e o herdeiro, D. Pedro V, homem de rara lucidez, morreu, coisa, ainda hoje, misteriosa. Seguiu-se-lhe D. Luís ao qual a mulher, Maria de Sabóia, reprovava: “só engordas!” Realmente, não se agitava, havia a rotatividade e a paz podre que lhe bastavam. “Isto é uma piolheira”, diria o filho, o rei D. Carlos. Depois, campou o fartar vilanagem: o caciquismo, o pedido de adiantamentos (dinheiro) do penúltimo rei, o vê se te arranjas, que se repete, agora. O assassinato do rei e do príncipe foi um crime gratuito e reprovável: eram criaturas de Deus, amanhadas na pelintrice do país. Veio a seguir uma República em que refocilavam os de antes e desesperavam os que queriam um Portugal diferente. Passados 16 anos, quem a rejeitava desencantou um ex-seminarista perverso, homem que desconhecia o progresso e se embrulhara na mediocridade: Salazar. E Portugal continuou a ser o que era: um país periférico. A miséria durou 48 anos. Isso herdaram os do 25 de Abril, outra tentativa para nos tirar do buraco onde esbracejamos.
Haverá quem do 5 de Outubro de 1910 diga mal. O que há mais é ressentidos e pobres de espírito. O que há mais é quem sofra a secular infelicidade do país. Ninguém se opôs? Sim, em 1383-85, o país reagiu. Seis décadas mais tarde, o ex-príncipe regente, D. Pedro, conde de Coimbra, tentou mudar e salvar o país, abri-lo à Europa até que o assassinaram em Alfarrobeira. O esforço do Marquês do Pombal durou 25 anos e perdeu-se. Ao recuperado absolutismo obscurantista sucedeu-se o sonho (e a guerra) liberal, que se diluiu numa monarquia chocha: a páginas tantas, andou por cá D. Maria II, com as burricadas à volta do Castelo da Pena, e o herdeiro, D. Pedro V, homem de rara lucidez, morreu, coisa, ainda hoje, misteriosa. Seguiu-se-lhe D. Luís ao qual a mulher, Maria de Sabóia, reprovava: “só engordas!” Realmente, não se agitava, havia a rotatividade e a paz podre que lhe bastavam. “Isto é uma piolheira”, diria o filho, o rei D. Carlos. Depois, campou o fartar vilanagem: o caciquismo, o pedido de adiantamentos (dinheiro) do penúltimo rei, o vê se te arranjas, que se repete, agora. O assassinato do rei e do príncipe foi um crime gratuito e reprovável: eram criaturas de Deus, amanhadas na pelintrice do país. Veio a seguir uma República em que refocilavam os de antes e desesperavam os que queriam um Portugal diferente. Passados 16 anos, quem a rejeitava desencantou um ex-seminarista perverso, homem que desconhecia o progresso e se embrulhara na mediocridade: Salazar. E Portugal continuou a ser o que era: um país periférico. A miséria durou 48 anos. Isso herdaram os do 25 de Abril, outra tentativa para nos tirar do buraco onde esbracejamos.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de ontem
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