quinta-feira, 1 de abril de 2010

'O Pássaro de Vidro" -Epílogo 7

'Cabeça de mulher', de Naum Gabo (1890-1977)


Bernardo tentou distraí-lo da aflição em que ele se afundava:
-A Lorenza... A tua menina do Vaporetto...

Andrea desatou a rir:
-A minha menina?! A Lorenza do Lido? A garota de Veneza? Oh, Bernardo!
-Sim... Foram felizes?

E Andrea transformou-se: deixou cair a ânsia, o rosto abriu-se e os olhos brilharam, como se uma felicidade antiga voltasse, de facto:
-Tantas vezes! Mas tão difícil, Bernardo!... E tão bom!

Sentou-se e agarrou, com muita força, o braço do amigo.
-Compreende!
-Compreendo, Andrea... –disse Bernardo.
-Éramos uns palermas... Umas crianças... Ela a fugir e eu a magoá-la. A dizer-lhe que era incapaz de amar e que a amava. A dizer-lhe que a amava, que lhe dava tudo, e que ela não tinha vergonha de se aproveitar de mim para esquecer misérias. Não achas uma maravilha?
-E que lhe davas?
— Tudo!
— Tudo?
— O que podia! Porquê? Era obrigado a mais?
— Não eras obrigado a mais. Talvez nem fosses obrigado a nada.
— Pelo menos, a respeitá-la...
— E sempre a respeitaste.
-Nem sempre. Duvidei dela e da grega, pensei que iam para a cama juntas. Pensei que o faziam drogadas. Pensei que ia para a cama com os amigos de Pádua e com os que a levaram à Grécia.

Depois, Andrea calou-se. Esteve ausente, mas os olhos continuavam a brilhar, febris, alucinados. O álcool ainda não o entorpecera. E recomeçou:

-A propósito da grega, Lorenza escrevia-me, frases vagas e que pareciam não se referirem à outra. Não queria que eu soubesse mas vivia com a grega dentro. Escrevia-me -e eu a perceber que a grega andava no meio- que conseguira entrar no próprio corpo e andar à vontade, descobrira um ritmo, a sensação da liberdade espiritual. Patacoadas! Mesmo depois de nos termos afastado!
— Ainda te falava da grega?
— A grega durou muito tempo.
— Foi ela quem vos afastou?
-Não, isso não. Devia ter uma importância relativa na vida de Lorenza. Somava-se a outras coisas e foi a soma que nos desgraçou. As outras histórias mais a grega. O que eu não sabia e que ela se recusava a dizer. As ausências. As vezes que não vim a Veneza. A minha desconfiança, que não curava e a dela.

— Escrevia-te todos os dias?
— Estás maluco? Escrevia-me, de vez em quando. E custava-me ler as cartas dela.
— Porquê?
-Espera aí! Dá cá mais aguardente e já te conto!

Bernardo serviu-o, da garrafa que conseguira recuperar. Andrea olhou-o, agradecido: perguntava-lhe aquelas coisas e não o esquecera, era um amigo.

— As cartas chegaram tarde. Mais cedo, seria diferente. Os gritos e as confissões chegaram quando eu já me encolhera e não queria ouvi-los. Escolhi Milão para escapar ao amor que era uma dor contínua. As cartas que me foram enviadas não tinham destinatário. Abria-as e ficavam-me nas mãos, cheias de letras, só isso as cartas da pessoa que eu amara e queria longe. Mesmo que ainda a amasse, era melhor não saber dela. Estragava o que restava.
— Estragava, sempre, tudo?
— Quase sempre. Ou não gostava o bastante de mim ou não sabia gostar.
— E foi por isso que a deixaste?
— Eu não a deixei, retirei-me!
— Para onde?
— Julgas que andei a correr atrás de saias?
— Tu o disseste.

-Tinha o direito de me defender mas não tinha o direito de esquecer a Lorenza, de a deixar de fora, de ir à minha vida, à procura de uma paz que ninguém podia dar-me e a saber que a queria com ela.
-Com Lorenza?
-Sim! Queria o seu amor, a sua ternura, a sua companhia. E, hoje, acho que não li as cartas como as devia ler.
— Querias arrumar o assunto.

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