óleo de Arkhip Kuindji-Não, Andrea! Estou aqui porque me sinto bem, porque isto me basta e talvez pense que não é preciso mais nada e que se fosse atrás de vocês não ia longe.! Não me chove em cima e gosto do meu trabalho. Tu achas que sou um homem com sorte: em Bassano, nesta casa, com o cão à porta e a lareira acesa. Sem angústias, sem problemas. Pensas que não tive a Luísa, a Caterina, a Lorenza e que isso foi um bem, porque para ti foi um mal. Não, Andrea, as coisas não são assim. O que aconteceu foi que eu nunca me defendi de nada ou, pelo menos, não me defendi mais do que muitos outros. E, já que estamos a falar, deixa-me dizer-te: às vezes, até os aturei mais do que devia!
Andrea, ao vê-lo abrir-se e sem defesas, não resistiu e feriu-o:
— Então, o que é isso, Bernardo? Estalou o verniz?
Bernardo, muito encarnado, baixou a cabeça:
— Não é nada... Já passou. Mas eu quero dizer-te que sei que tu sabes que eu tive outras coisas e que não vivo parado, à margem da vida. Não sou mais feliz do que tu.
— Nunca pensei que eras mais feliz do que eu.
—Nem tu nem eu somos felizes. Fizemos pela vida. E continuamos a fazer. Ou não estaríamos a falar até esta hora, já tínhamos ido dormir. Se continuamos a conversar é porque achamos que vale a pena.
Andrea sorriu, arrependido:
-Sim, foi muito bom.
E Bernardo fitou-o, sereno e convicto:
-Do nosso encontro, tem de sair qualquer coisa!
Andrea, emocionado, murmurou:
— Contigo vale a pena.
Era noite alta, fria, com a lua, as estrelas e as árvores em volta da casa e a estrada de macadame, que levava à cidade. Tinham posto nos vidros embaciados o calor deles. De um ao outro ia pouca distância, cada um na sua poltrona, diante do fogo, aos pés, o cão, estirado, adormecido, as orelhas a taparem-lhe os olhos.
“O Zac a sorrir!”, pensou Bernardo, “Vejo-lhe o coraçãozinho que bate... Está feliz... Quando se repetirá este momento?”
— No fim de contas, não somos muito velhos. –disse Andrea.
— Pois não, mas já passámos do meio. Quarenta e sete!, quarenta e sete anos!
— Isso tens tu! Eu tenho menos três!
— Menos dois.
-A idade não obriga a desesperar.
— Era o que eu te dizia! Apesar de tudo, vale a pena. Talvez por teimosia. De qualquer maneira, e mesmo que acreditemos que não há razões bastantes para desesperarmos, o que nos trouxe aqui foi o medo... e a nossa amizade. Quando nos procurámos, ou nos encontrámos e quisemos defender e prolongar o nosso encontro, mandava a nossa aflição: queríamos proteger-nos das dúvidas e da insegurança, debaixo da asa do amigo.
— Até certo ponto, até certo ponto...
— Sim, até certo ponto. Só nos protegemos até onde podemos. Depois do limite, recomeçamos a arranhar-nos, porque a protecção é pouca e porque recuperamos a confiança e dá para o torto. Mas não há mais nada. Mesmo que nenhum de nós tenha razão, mesmo que nenhum de nós esteja de boa-fé, mesmo que o que dissermos não passe de gesto inconsequente, que não obrigará os fantasmas -os nossos fantasmas- a apagarem-se e hão-de continuar aos pulos, ninguém poderá tirar-nos isto: estarmos aqui. Eu, aqui, e tu, aí.
— Quais fantasmas? -interrompeu Andrea- Começaste a discursar, mas o que querias dizer era que nós queríamos transformar em realidade os sonhos e que o amor fosse amor e a companhia, companhia, a felicidade, felicidade. Era isso que desejávamos. Puseste-me em cima o guarda-chuva da tua casa e dos teus raciocínios. Das tuas escolhas. Não somos ainda velhos — suficientemente velhos para que se justifique o nosso desespero. Eu sei. E sei que, muitas vezes, não sabemos agradecer o que nos dão e somos malcriados. É quentinha a tua casa! Obrigado!
-Andrea!
-Exagero. Também sei isso... Estou a ser injusto. Para lá dos raciocínios e da desconfiança, porque desconfiamos sempre das pessoas de que precisamos, que elas nos roubem a nossa segurança e abusem de nós, para lá disso, existe, não há dúvida, a nossa amizade. Mas acredita que pegámos mal na vida. Tivemos medo. A outra pessoa, que nos deveria trazer o amor, a companhia, a felicidade, metia-nos medo: parecia maior do que nós.
— A ti! Metia-te medo a ti. Aos meus olhos era uma pessoa aceitável e amável, que me dava o que tinha. Que me dá o que tem.
Andrea continuou:
-Parecia maior do que nós e perdemo-nos assim. A pessoa que amávamos assustava-nos e fugíamos. Não queríamos, apenas, afastá-la e sossegar. Quando a empurrávamos, ficávamos à espera de que ela, que era maior, nos metesse na ordem e nos trouxesse qualquer coisa, já que não éramos capazes de a encontrar.
— Dizes tu.
Andrea, ao vê-lo abrir-se e sem defesas, não resistiu e feriu-o:
— Então, o que é isso, Bernardo? Estalou o verniz?
Bernardo, muito encarnado, baixou a cabeça:
— Não é nada... Já passou. Mas eu quero dizer-te que sei que tu sabes que eu tive outras coisas e que não vivo parado, à margem da vida. Não sou mais feliz do que tu.
— Nunca pensei que eras mais feliz do que eu.
—Nem tu nem eu somos felizes. Fizemos pela vida. E continuamos a fazer. Ou não estaríamos a falar até esta hora, já tínhamos ido dormir. Se continuamos a conversar é porque achamos que vale a pena.
Andrea sorriu, arrependido:
-Sim, foi muito bom.
E Bernardo fitou-o, sereno e convicto:
-Do nosso encontro, tem de sair qualquer coisa!
Andrea, emocionado, murmurou:
— Contigo vale a pena.
Era noite alta, fria, com a lua, as estrelas e as árvores em volta da casa e a estrada de macadame, que levava à cidade. Tinham posto nos vidros embaciados o calor deles. De um ao outro ia pouca distância, cada um na sua poltrona, diante do fogo, aos pés, o cão, estirado, adormecido, as orelhas a taparem-lhe os olhos.
“O Zac a sorrir!”, pensou Bernardo, “Vejo-lhe o coraçãozinho que bate... Está feliz... Quando se repetirá este momento?”
— No fim de contas, não somos muito velhos. –disse Andrea.
— Pois não, mas já passámos do meio. Quarenta e sete!, quarenta e sete anos!
— Isso tens tu! Eu tenho menos três!
— Menos dois.
-A idade não obriga a desesperar.
— Era o que eu te dizia! Apesar de tudo, vale a pena. Talvez por teimosia. De qualquer maneira, e mesmo que acreditemos que não há razões bastantes para desesperarmos, o que nos trouxe aqui foi o medo... e a nossa amizade. Quando nos procurámos, ou nos encontrámos e quisemos defender e prolongar o nosso encontro, mandava a nossa aflição: queríamos proteger-nos das dúvidas e da insegurança, debaixo da asa do amigo.
— Até certo ponto, até certo ponto...
— Sim, até certo ponto. Só nos protegemos até onde podemos. Depois do limite, recomeçamos a arranhar-nos, porque a protecção é pouca e porque recuperamos a confiança e dá para o torto. Mas não há mais nada. Mesmo que nenhum de nós tenha razão, mesmo que nenhum de nós esteja de boa-fé, mesmo que o que dissermos não passe de gesto inconsequente, que não obrigará os fantasmas -os nossos fantasmas- a apagarem-se e hão-de continuar aos pulos, ninguém poderá tirar-nos isto: estarmos aqui. Eu, aqui, e tu, aí.
— Quais fantasmas? -interrompeu Andrea- Começaste a discursar, mas o que querias dizer era que nós queríamos transformar em realidade os sonhos e que o amor fosse amor e a companhia, companhia, a felicidade, felicidade. Era isso que desejávamos. Puseste-me em cima o guarda-chuva da tua casa e dos teus raciocínios. Das tuas escolhas. Não somos ainda velhos — suficientemente velhos para que se justifique o nosso desespero. Eu sei. E sei que, muitas vezes, não sabemos agradecer o que nos dão e somos malcriados. É quentinha a tua casa! Obrigado!
-Andrea!
-Exagero. Também sei isso... Estou a ser injusto. Para lá dos raciocínios e da desconfiança, porque desconfiamos sempre das pessoas de que precisamos, que elas nos roubem a nossa segurança e abusem de nós, para lá disso, existe, não há dúvida, a nossa amizade. Mas acredita que pegámos mal na vida. Tivemos medo. A outra pessoa, que nos deveria trazer o amor, a companhia, a felicidade, metia-nos medo: parecia maior do que nós.
— A ti! Metia-te medo a ti. Aos meus olhos era uma pessoa aceitável e amável, que me dava o que tinha. Que me dá o que tem.
Andrea continuou:
-Parecia maior do que nós e perdemo-nos assim. A pessoa que amávamos assustava-nos e fugíamos. Não queríamos, apenas, afastá-la e sossegar. Quando a empurrávamos, ficávamos à espera de que ela, que era maior, nos metesse na ordem e nos trouxesse qualquer coisa, já que não éramos capazes de a encontrar.
— Dizes tu.
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