'depois da chuva', óleo de Arkhip Kuindj— O quê? Os meus gritos e os silêncios dela? Bernardo! Tudo à nossa volta parecia ir desfazer-se. Tínhamos decidido afastar-nos, depois de três anos, eu a procurá-la e ela a vir ter comigo, a almoçarmos, a passearmos, a irmos aqui e ali, onde nos sentíamos bem, ao Paolin, a Burano, a Torcello. A Burano! As casas pintadas! A senhora do retrato! Sim, também com ela! E, agora, agarrávamo-nos à nossa violência. E eu não queria isso! Mas só nos restava aquela guerra de gatos assanhados, que se amavam. Assoprávamos os dois, para dentro do telefone. E eu não gosto de gatos!
— Ela não assoprava.
— Pois não! Assoprava para dentro dela e aquecia-se! Essa é que era a merda: assoprava cada um para onde lhe convinha. Tínhamos combinado: berra para aí que eu berro para aqui e, com o contrato, esquecíamo-nos de que estávamos sozinhos, semimortos, convencidos de que ainda havia futuro à nossa frente.
— Tu sabes o que estás a dizer?
— Sei. Julgas que estou bêbedo? Julgas que o que te digo é resultado da aguardente? É resultado disso e de outras coisas. A aguardente torna-nos mais lúcidos, mas a lucidez é a soma do álcool com o cansaço e a desilusão. Eu sei muito bem o que te digo, Bernardo, e agradeço-te que me tenhas convidado para tua casa, onde eu posso dizer estas coisas em frente do meu amigo. Faz bem. E pode ser que o meu amigo não goste de as ouvir, mas o que é que eu hei de fazer?
“Ah! Se esta sala fosse uma bola de vidro!”, suspirou Bernardo. “Se eu pudesse protegê-lo e proteger-me, e pudéssemos ficar a falar de nós, da alegria e da aflição, da inocência e da vileza, e ninguém ouvisse, só ouvíssemos nós, a absolvermo-nos um ao outro! Se pudéssemos ficar para sempre aqui, agarrados a este momento! E ele agradece-me e era eu que devia agradecer-lhe! Desencantei-o em Milão, trouxe-o, encharquei-o de aguardente e pus-me a ouvi-lo. Respondi-lhe as vezes necessárias para que continuasse. Escutei-lhe as confidências. E o que lhe dei em troca? Curiosidade? Cheguei a falar-lhe de mim?”
— Não queria que mentisses, mas é melhor pensarmos noutras coisas.
— Porquê, Bernardo? Por que é que não falamos destas?
— Porque estas são desagradáveis. Deixa-a lá, casou-se, teve um filho!
— Eu deixo! Ou não a deixei? E nunca procurei impedi-la de ser feliz, se é que alguma vez o foi! Mas quem é que pode impedir-nos de falar do que nos apetece?
— Podemos falar dela, se quiseres, mas já é tarde e estamos cansados.
— Não é só dela, da Lorenza, que eu quero falar. É de nós dois, da nossa vida, da volta que tudo isto foi dando! Ou tu achas que estivemos a falar de outra coisa?
— Só falámos disso. E foi melhor. Dissemos o que pensávamos. Eis o que nos juntou. Lá que doeu, doeu! Custa sempre tirar a camisa e mostrar o coração. Mas não há nada mais importante na vida: duas pessoas à procura uma da outra e a quererem abrir-se: a confiarem-se.
E, porque bebera demais, Andrea, sem lhe responder, comentou para si e o outro ouvia:
— Ela não assoprava.
— Pois não! Assoprava para dentro dela e aquecia-se! Essa é que era a merda: assoprava cada um para onde lhe convinha. Tínhamos combinado: berra para aí que eu berro para aqui e, com o contrato, esquecíamo-nos de que estávamos sozinhos, semimortos, convencidos de que ainda havia futuro à nossa frente.
— Tu sabes o que estás a dizer?
— Sei. Julgas que estou bêbedo? Julgas que o que te digo é resultado da aguardente? É resultado disso e de outras coisas. A aguardente torna-nos mais lúcidos, mas a lucidez é a soma do álcool com o cansaço e a desilusão. Eu sei muito bem o que te digo, Bernardo, e agradeço-te que me tenhas convidado para tua casa, onde eu posso dizer estas coisas em frente do meu amigo. Faz bem. E pode ser que o meu amigo não goste de as ouvir, mas o que é que eu hei de fazer?
“Ah! Se esta sala fosse uma bola de vidro!”, suspirou Bernardo. “Se eu pudesse protegê-lo e proteger-me, e pudéssemos ficar a falar de nós, da alegria e da aflição, da inocência e da vileza, e ninguém ouvisse, só ouvíssemos nós, a absolvermo-nos um ao outro! Se pudéssemos ficar para sempre aqui, agarrados a este momento! E ele agradece-me e era eu que devia agradecer-lhe! Desencantei-o em Milão, trouxe-o, encharquei-o de aguardente e pus-me a ouvi-lo. Respondi-lhe as vezes necessárias para que continuasse. Escutei-lhe as confidências. E o que lhe dei em troca? Curiosidade? Cheguei a falar-lhe de mim?”
— Não queria que mentisses, mas é melhor pensarmos noutras coisas.
— Porquê, Bernardo? Por que é que não falamos destas?
— Porque estas são desagradáveis. Deixa-a lá, casou-se, teve um filho!
— Eu deixo! Ou não a deixei? E nunca procurei impedi-la de ser feliz, se é que alguma vez o foi! Mas quem é que pode impedir-nos de falar do que nos apetece?
— Podemos falar dela, se quiseres, mas já é tarde e estamos cansados.
— Não é só dela, da Lorenza, que eu quero falar. É de nós dois, da nossa vida, da volta que tudo isto foi dando! Ou tu achas que estivemos a falar de outra coisa?
— Só falámos disso. E foi melhor. Dissemos o que pensávamos. Eis o que nos juntou. Lá que doeu, doeu! Custa sempre tirar a camisa e mostrar o coração. Mas não há nada mais importante na vida: duas pessoas à procura uma da outra e a quererem abrir-se: a confiarem-se.
E, porque bebera demais, Andrea, sem lhe responder, comentou para si e o outro ouvia:
-Está convencido de que pode salvar o mundo e diz-me estas coisas. Não salva nada. Não é melhor do que eu, nem mais honesto. O que ele quer é que eu goste dele e lhe agradeça a hospitalidade.
E ainda, antes de se entregar ao torpor que o invadira:
_Bernardo! Um santo, com os pés carunchosos”.
_Bernardo! Um santo, com os pés carunchosos”.
— Não há nada mais importante do que sermos verdadeiros –respondeu Bernardo.
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