quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ensaio sobre 'O Pássaro de Vidro'

óleo de Marc Chagal (1887-1885)


Durante os vinte anos que separam a história de Lorenza e Andrea dos dias de hoje, alguma coisa mudou na solidão do homem?

Manuel Poppe acha que não –e que, a mudar, teria sido a consciência dela: da solidão. O homem desenvolveu e deixou que se desenvolvesse a panóplia que o defende de si próprio e do seu medo.

O homem arranjou mil maneiras de não ser obrigado a confrontar-se com a aventura e poder fugir-lhe, festivamente.

Mas voltemos ao último encontro (e terá sido o último?, o romance diz-nos que sim, mas, para lá das trezentas e quarenta páginas d’ O Pássaro de Vidro, que aconteceu às personagens?):

Lorenza e Andrea despediram-se, em Milão. Ficaram sozinhos. A vida dera-lhes a oportunidade de amarem. Não tiveram coragem: tiveram medo. Sofreram? Certamente. E de que maneira curaram o sofrimento?

Não o sabe dizer Poppe, nem acha curial inventar-lhes a conduta, que desconhece. Entregaram-se à vertigem da fuga? Abandonaram-se ao vórtice que os atrai, modo de adiarem, ou esquecerem, a dúvida e seguirem o apelo das mil e uma diversões, das experiências descartáveis –que para isso se usam as tecnologias, espécie de água benta, capaz de cicatrizar a ferida mais renitente?

O mais provável é que se tenham limitado a envelhecer e, pouco a pouco, hajam perdido o fogo que os abrasou.

Porém, fica a marca, sinal da ferida cicatrizada. Chaga do lado? Aconteceu reacender-se a paixão e reaparecer-lhes a ânsia de assumirem o destino, de atingirem a singularidade de que são feitos e responsáveis e tentaram iludir?

Comentando uma crítica de Sartre a L’étranger, Albert Camus escreveu:

‘il y a dans toute création un élément instinctif qu´il [Sartre] n’envisage pas. L’intelligence n’a pas si belle part. Mais en critique, c’est la règle du jeu et c’est très bien ainsi puisqu’à plusieurs reprises il m´éclaire sur ce que je voulais faire.’

Quis Manuel Poppe fazer de Lorenza e Andrea desistentes? Ou covardes? Ou vítimas do contexto social? Ou... tantas outras coisas?..

E quer, agora, a vê-los de fora?

Se o quer, irá limitá-los. Melhor deixá-los continuarem na nebulosa, que vive dentro dele, Poppe, e onde os foi buscar.

Só assim eles permanecerão vivos e capazes de viver e reviver no espírito daqueles que os interpelem e interroguem, nas páginas do romance.

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