'Amigos', óleo de Sandro Chia (1946-)Andrea já estava muito cansado, quebrava. Bernardo troçou, a ajudá-lo:
— Que grande frase! Já reparaste nas contradições? No imediato és bom, no mediato és mau. Filosofia barata! Se não dás nada aos outros sem medires, como é que podes ser espontâneo? Essa estudantinha era uma intelectual de segunda classe!
— Talvez dissesse a verdade: puxamos sempre para nós.
—E para onde é que tu julgas que ela puxava? Sofismas, a defender-se! Ou não percebes? Defendia-se de ti e do amor! Tu é que tinhas razão quando dizias que as relações a sério são incómodas. E eu, também, quando pensava que a solução era a que vocês escolheram: abrir um fosso. Não te disse, para não te afligir, mas foi o que fizeram. Ela a esconder-se e tu a desconfiares e a quereres justificar a desconfiança. Acreditaste que andou com outros homens e que foi para a cama com a grega. Porquê? Não tens provas mas convém-te. E se fosse? Tens alguma coisa com isso? Não era livre? Alguma vez te mentiu.
Andrea baixou os olhos, acabrunhado:
-Nunca falámos nessas coisas... Mas eu sentia-as...
-E por que não lhe perguntaste?
Viu-o desarmado e nas suas mãos. Podia enterrar a faca. E seria justo? Para quê? Mas não resistiu a continuar, a saber que feria, gratuitamente, o amigo e tirava disso um prazer doentio:
-Fidelidades! E o que representou, na tua vida, a Caterina Monastier?
— O mesmo que as outras. –respondeu Andrea.
E, aos poucos, foi recuperando as forças:
-Talvez mais do que as outras. Ajudava-me. Era uma mulher decidida. As outras só me ajudaram a rebolar-mo no meu egoísmo, a começar pela Luísa. Não me exigiam nada. Caterina era directa, não perdia tempo. Provocava-me, obrigava-me a vê-la, a mexer-lhe, a agarrá-la.
— Que grande frase! Já reparaste nas contradições? No imediato és bom, no mediato és mau. Filosofia barata! Se não dás nada aos outros sem medires, como é que podes ser espontâneo? Essa estudantinha era uma intelectual de segunda classe!
— Talvez dissesse a verdade: puxamos sempre para nós.
—E para onde é que tu julgas que ela puxava? Sofismas, a defender-se! Ou não percebes? Defendia-se de ti e do amor! Tu é que tinhas razão quando dizias que as relações a sério são incómodas. E eu, também, quando pensava que a solução era a que vocês escolheram: abrir um fosso. Não te disse, para não te afligir, mas foi o que fizeram. Ela a esconder-se e tu a desconfiares e a quereres justificar a desconfiança. Acreditaste que andou com outros homens e que foi para a cama com a grega. Porquê? Não tens provas mas convém-te. E se fosse? Tens alguma coisa com isso? Não era livre? Alguma vez te mentiu.
Andrea baixou os olhos, acabrunhado:
-Nunca falámos nessas coisas... Mas eu sentia-as...
-E por que não lhe perguntaste?
Viu-o desarmado e nas suas mãos. Podia enterrar a faca. E seria justo? Para quê? Mas não resistiu a continuar, a saber que feria, gratuitamente, o amigo e tirava disso um prazer doentio:
-Fidelidades! E o que representou, na tua vida, a Caterina Monastier?
— O mesmo que as outras. –respondeu Andrea.
E, aos poucos, foi recuperando as forças:
-Talvez mais do que as outras. Ajudava-me. Era uma mulher decidida. As outras só me ajudaram a rebolar-mo no meu egoísmo, a começar pela Luísa. Não me exigiam nada. Caterina era directa, não perdia tempo. Provocava-me, obrigava-me a vê-la, a mexer-lhe, a agarrá-la.
E, a rir, sublinhou:
-Era muito bom ir para a cama com ela! Era uma amante extraordinária! Nunca me perguntava o que Lorenza me perguntava! Por exemplo, nunca me perguntou: “A nossa relação não poderia ser diferente? Tens mesmo de ir para a cama comigo?” Deitava-se ao meu lado e amava-me e deixava que a amasse.
-As amantes, costumam fazer isso.
— Mesmo a tua?
Vingava-se e Bernardo, não queria falar de Laura Buriani. Demorou a compor o fogo e respondeu, secamente:
-Não tenho nenhuma amante. E nós estávamos a falar da Caterina.
Andrea arrepiou caminho:
— Era diferente. Não se punha a perorar, a desfiar frases. Olha só esta: “Tu não me amas toda, não amas o que, em mim, amas a destruição.” Qual destruição?! Qual amá-la toda?! Tretas! Literatura! Teatro!
—Em suma...
Andrea procurou moderar-se:
—De acordo. Sim, parecia sincera: “Gosto muito de ti, de maneira muito especial, de outra maneira. Mas se me desse a ti, estragava tudo.” E, depois, continuava a girar à minha volta e do que escrevia, à volta da tal coisa escondida dentro, que nunca consegui descobrir. Mas tu acreditas? Era sincera? De que destruição falava? E por que fugia? Eram as confusões dela! Uma vez, confiou-me: “Nunca me hei de suicidar! Irei sobrevivendo. Ele há tantas maneiras de nos suicidarmos! Acabo o meu curso, caso-me, tenho filhos”. Quando falava assim e referia o desencanto, o gosto do sofrimento, eu não a levava a sério. Achava que se divertia. Não digo que pusesse os olhos em alvo, mas a veemência excessiva obrigava-me a desconfiar. A voz arrastada, os olhos baixos, os fósforos que partia aos bocadinhos. O nervoso miudinho.
-As amantes, costumam fazer isso.
— Mesmo a tua?
Vingava-se e Bernardo, não queria falar de Laura Buriani. Demorou a compor o fogo e respondeu, secamente:
-Não tenho nenhuma amante. E nós estávamos a falar da Caterina.
Andrea arrepiou caminho:
— Era diferente. Não se punha a perorar, a desfiar frases. Olha só esta: “Tu não me amas toda, não amas o que, em mim, amas a destruição.” Qual destruição?! Qual amá-la toda?! Tretas! Literatura! Teatro!
—Em suma...
Andrea procurou moderar-se:
—De acordo. Sim, parecia sincera: “Gosto muito de ti, de maneira muito especial, de outra maneira. Mas se me desse a ti, estragava tudo.” E, depois, continuava a girar à minha volta e do que escrevia, à volta da tal coisa escondida dentro, que nunca consegui descobrir. Mas tu acreditas? Era sincera? De que destruição falava? E por que fugia? Eram as confusões dela! Uma vez, confiou-me: “Nunca me hei de suicidar! Irei sobrevivendo. Ele há tantas maneiras de nos suicidarmos! Acabo o meu curso, caso-me, tenho filhos”. Quando falava assim e referia o desencanto, o gosto do sofrimento, eu não a levava a sério. Achava que se divertia. Não digo que pusesse os olhos em alvo, mas a veemência excessiva obrigava-me a desconfiar. A voz arrastada, os olhos baixos, os fósforos que partia aos bocadinhos. O nervoso miudinho.
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