Bailarina, Degas (1834-1917)— Não. Lisonjeava-me que me procurasse e queria vê-Ia. Sentia-me na obrigação de ir ter com ela. Era uma pessoa que me chamava. Estávamos os dois de boa-fé. Pensas que não? Qual o limite da nossa boa-fé? Não existem limites para a boa-fé. Moviam-nos razões que eram nossas e não disfarçávamos. O que estou a dizer-te pensava-o e tenho a certeza que Lorenza sabia por que é que eu viera. O nervosismo dela e o meu consentimento eram sinais que reconhecíamos. E tão claramente que nos impacientávamos e esbracejávamos, na tentativa de modificar a realidade.
— Qual realidade?
—Aquela. Tínhamos estragado tudo. E por mais nos agitássemos ia ficar assim. Só isso nos juntou: a companhia que nos fazíamos no desastre.
— No esbracejar não havia esperança?
—Havia pior: a esperança a morder-nos e a sabermos que não levava a nada, que já tínhamos dado o que tínhamos a dar.
—Não se ofereciam, ainda, um ao outro?
—Mas trocávamos aflições, insegurança, hesitação. Gostávamos de estar ali mas sentimo-nos mais livres quando nos separámos. Talvez ficassem saudades. Mas foi melhor.
—Ela teve saudades?
-Não sei.
— E a vossa vontade de se verem?
— Fizemo-la num oito! Transformámo-la na vontade de nos afastarmos. Por detrás dos disparates, escondíamos uma aliança. Aceitáramos encontrar-nos e, assim, reforçávamos o desejo da separação definitiva.
—Duas pessoas combinarem encontrar-se para se libertarem uma da outra? Isso é possível?
— É. E devo dizer-te que não foi nessa tarde que mais nos magoámos. Noutros momentos, muito antes, passaram-se coisas mais graves. Aquela foi a última oportunidade de nos castigarmos, a ver se ainda saía calor.
— De pouco vos serviu o calor.
-Encontrámo-nos para nos vacinarmos da nossa paixão. Se já estávamos um dentro do outro, qual o melhor modo de nos libertarmos senão o de nos abraçarmos até nos rejeitarmos? Até não aguentarmos mais? Naquele momento, não se tratava de nenhuma situação dramática. Era um bocado que se punha em cima de outros e consolidavam-se. O desgosto que sentíamos já o conhecíamos mas gostávamos de o segurar. Onde iríamos buscar forças para afrontar o desgosto de não termos sido capazes de nos amar e desbaratarmos o nosso amor? Estávamos ali porque queríamos e era o nosso direito! Só faltava, que nos recusassem o direito a encontrar-nos! Nem que fosse um instante! Não tínhamos ilusões, o que queríamos era chegarmo-nos um ao outro. Não sabes? Quando duas pessoas se chegam de mais, a pele aquece, arde e vem a vontade de fugir, cada um para seu lado. Apertarmo-nos de mais pode ser uma boa maneira de nos libertarmos.
— Porque, se tu apertares de mais uma pessoa, descobres os seus limites, a sua pobreza e, desiludido, afastas-te?
— Não é bem isso. Muitas vezes não é a pobreza da outra pessoa que nos repele, é o abismo para que nos atrai. Chegamo-nos, apertamo-nos, e as nossas almas, ao tocarem-se, ficam assustadas porque uma pede à outra coisas desmedidas e o que apetece é fugir. Temos medo de nos afogar.
— E daí?
-Como já te disse, nunca mais nos vimos. Escreveu-me cartas. E mais nada.
Bernardo pensou: “Encana a perna à rã. O que eu queria saber era o seguinte: temos medo de nos afogar, de que nos chupem a alma? Ou que nos acusem de não sermos capazes de corresponder à confiança que depositaram em nós e que procurámos e provocámos, precisados dela? Se lhe perguntar, ainda fica mais aflito e foge.”
Mas perguntou:
— O que te escrevia nas cartas?
—Não te disse? Já nem me lembro! Abria-se, expunha-se, e eu não sabia porquê. Atirava-me para cima histórias que eu tinha que pôr em ordem e que não pedira que me contasse. Por que é que não percebera que já não queria saber dela? Havia ainda ternura, só isso. Gostava de saber que ela não tinha morrido. Às vezes, reconhecia que entre nós alguma coisa ficara. Bastavam-me esses sentimentos, que me enfraqueciam. Havia coisas que a lembravam: cores, palavras, música. As cartas. A dificuldade em viver longe dela. Veneza. Burano. Nada mais. A saudade da sua beleza...
-Do seu corpo?
—Não. Também do resto...
Andrea estendeu o cálice vazio a Bernardo:
— Enche... Nunca tive o seu corpo e nunca tive o resto, a luzinha que eu via acender-se e apagar-se, dentro dela, e nunca consegui entender. Às vezes, mortifica-me o remorso. Custa-me ter desconfiado dela, não ter sabido compreendê-la nem ser capaz de vencer o meu egoísmo. Chegou a acusar-me: “Não és uma pessoa generosa, nunca dizes nada a ninguém antes de medires o que fazes. No imediato, poderás ser generoso, mediatamente é para ti que puxas.”
— Escreveu-te isso?
— Sim.
— Qual realidade?
—Aquela. Tínhamos estragado tudo. E por mais nos agitássemos ia ficar assim. Só isso nos juntou: a companhia que nos fazíamos no desastre.
— No esbracejar não havia esperança?
—Havia pior: a esperança a morder-nos e a sabermos que não levava a nada, que já tínhamos dado o que tínhamos a dar.
—Não se ofereciam, ainda, um ao outro?
—Mas trocávamos aflições, insegurança, hesitação. Gostávamos de estar ali mas sentimo-nos mais livres quando nos separámos. Talvez ficassem saudades. Mas foi melhor.
—Ela teve saudades?
-Não sei.
— E a vossa vontade de se verem?
— Fizemo-la num oito! Transformámo-la na vontade de nos afastarmos. Por detrás dos disparates, escondíamos uma aliança. Aceitáramos encontrar-nos e, assim, reforçávamos o desejo da separação definitiva.
—Duas pessoas combinarem encontrar-se para se libertarem uma da outra? Isso é possível?
— É. E devo dizer-te que não foi nessa tarde que mais nos magoámos. Noutros momentos, muito antes, passaram-se coisas mais graves. Aquela foi a última oportunidade de nos castigarmos, a ver se ainda saía calor.
— De pouco vos serviu o calor.
-Encontrámo-nos para nos vacinarmos da nossa paixão. Se já estávamos um dentro do outro, qual o melhor modo de nos libertarmos senão o de nos abraçarmos até nos rejeitarmos? Até não aguentarmos mais? Naquele momento, não se tratava de nenhuma situação dramática. Era um bocado que se punha em cima de outros e consolidavam-se. O desgosto que sentíamos já o conhecíamos mas gostávamos de o segurar. Onde iríamos buscar forças para afrontar o desgosto de não termos sido capazes de nos amar e desbaratarmos o nosso amor? Estávamos ali porque queríamos e era o nosso direito! Só faltava, que nos recusassem o direito a encontrar-nos! Nem que fosse um instante! Não tínhamos ilusões, o que queríamos era chegarmo-nos um ao outro. Não sabes? Quando duas pessoas se chegam de mais, a pele aquece, arde e vem a vontade de fugir, cada um para seu lado. Apertarmo-nos de mais pode ser uma boa maneira de nos libertarmos.
— Porque, se tu apertares de mais uma pessoa, descobres os seus limites, a sua pobreza e, desiludido, afastas-te?
— Não é bem isso. Muitas vezes não é a pobreza da outra pessoa que nos repele, é o abismo para que nos atrai. Chegamo-nos, apertamo-nos, e as nossas almas, ao tocarem-se, ficam assustadas porque uma pede à outra coisas desmedidas e o que apetece é fugir. Temos medo de nos afogar.
— E daí?
-Como já te disse, nunca mais nos vimos. Escreveu-me cartas. E mais nada.
Bernardo pensou: “Encana a perna à rã. O que eu queria saber era o seguinte: temos medo de nos afogar, de que nos chupem a alma? Ou que nos acusem de não sermos capazes de corresponder à confiança que depositaram em nós e que procurámos e provocámos, precisados dela? Se lhe perguntar, ainda fica mais aflito e foge.”
Mas perguntou:
— O que te escrevia nas cartas?
—Não te disse? Já nem me lembro! Abria-se, expunha-se, e eu não sabia porquê. Atirava-me para cima histórias que eu tinha que pôr em ordem e que não pedira que me contasse. Por que é que não percebera que já não queria saber dela? Havia ainda ternura, só isso. Gostava de saber que ela não tinha morrido. Às vezes, reconhecia que entre nós alguma coisa ficara. Bastavam-me esses sentimentos, que me enfraqueciam. Havia coisas que a lembravam: cores, palavras, música. As cartas. A dificuldade em viver longe dela. Veneza. Burano. Nada mais. A saudade da sua beleza...
-Do seu corpo?
—Não. Também do resto...
Andrea estendeu o cálice vazio a Bernardo:
— Enche... Nunca tive o seu corpo e nunca tive o resto, a luzinha que eu via acender-se e apagar-se, dentro dela, e nunca consegui entender. Às vezes, mortifica-me o remorso. Custa-me ter desconfiado dela, não ter sabido compreendê-la nem ser capaz de vencer o meu egoísmo. Chegou a acusar-me: “Não és uma pessoa generosa, nunca dizes nada a ninguém antes de medires o que fazes. No imediato, poderás ser generoso, mediatamente é para ti que puxas.”
— Escreveu-te isso?
— Sim.
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