domingo, 13 de maio de 2012

Poesia a que cheguei graças à amiga Isabel e que agradeço porque me trouxe, na força e na beleza, a epopeia esquecida de gente que conheci e cuja luta sempre me empolgou

Gravura de Lima de Freitas




Para Redol gaibéu

Barcos sem rios os gaibéus desciam
nas veias do silêncio e da revolta:

e era a viagem do nenhum regresso.

Na secura dos lábios renasciam
sementes do granito das origens
ou corações de xisto (nas lezírias
distantes da saudade e do exílio):

e era a viagem do nenhum regresso.

Levavam no seu rosto esse destino
em fome e nos olhos a tristeza;
vivia sangue o pranto que se ouvia
pela noite tão longa do seu canto.

(Desciam até onde não sabiam
qual a viagem do nenhum regresso.)

António Salvado, in Na eira da Beira, Arion Publicações, Lda., 2005




2 comentários:

  1. Bom dia.
    Eu é que lhe agradeço por tantos autores e pintores que já descobri aqui no seu blogue e que desconhecia.
    Fico muito feliz por lhe ter dado a conhecer a poesia de António Salvado e por tê-la apreciado.
    Um beijinho e um bom domingo

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