Esperança é uma palavra que não devemos enterrar.
Antes pelo contrário.
Não vivemos a
apocalipse.
E também não vivemos a
restauração de um sistema.
Vivemos a mudança e
assistimos ao estertor do capitalismo financeiro, que tudo faz para recuperar o
imenso poder que teve, durante as últimas décadas, que tudo faz para se
reinstalar, à nossa custa, com os benefícios de que usufruía.
Nenhum de nós o ignora:
à nossa custa o faz, exigindo-nos sacrifícios injustos, o que significa muito
mais do que insuportáveis: a injustiça é um crime.
A convulsão social
existe –já existia: agora, revela-se, inteiramente.
Por toda a parte, da
Argentina (porque não só a Europa sofre) à Holanda, à Bélgica, à Itália, à
Espanha, à Irlanda, à Grécia… ao nosso país.
Dizer que “sempre houve
pobres” quer dizer duas coisas:
má fé
ou ignorância.
Ou, ainda outra coisa mesquinha
e covarde: resignação de quem prefere a mentira e nela se aconchega, por medo à
luta que teria de travar se a denunciasse e rejeitasse.
Os pobres não existiram
“sempre”, como os rios e as serras.
Antes do pobre, existiu
o ladrão.
O pobre é, apenas, o
homem roubado: espoliado, escravizado, excluído dos direitos sobre os quais
assentam as sociedades justas.
Mas nada dura… para
sempre…
E, hoje, em boa hora, os
cidadãos contestam o sistema onde o capitalismo financeiro se moveu e roubou e violentou
os cidadãos.
Denunciam os crimes do capitalismo
financeiro.
Os cidadãos contestam a
credibilidade dos políticos –porque através desses políticos o sistema se nos impôs
e impõe, destruiu e destrói.
E a indignação dos
cidadãos representa a abertura da mudança, a alvorada de uma época nova.
É um sinal positivo,
que nos garante a esperança.
Jean-Claude Guillebaud escreveu,
há duas semanas, no Le nouvel Observateur, estas palavras pertinentes:
“Não vivemos uma
“crise”, mas sim uma mudança civilizacional. Não se trata do problema de uma
“estratégia de saída” de não se sabe bem de quê. (…) O crescimento cujo
regresso tantos imploram, à maneira dos xamãs siberianos quando estes se
dirigem a entes invisíveis, não recomeçará a funcionar como um motor gripado
que se arranjou. (…) O crescimento não é uma adição de quantidade, é, acima de
tudo, um impulso colectivo, uma vontade partilhada.”
E esse impulso, essa
vontade partilhada, comum de todos, dará lugar a uma mudança civilizacional: os
cidadãos deixarão de ser peças de máquina, robôs, num parque comandado à
distância por uma minoria de privilegiados…
…aqueles que hoje
acumulam bens, à margem do fisco ou porque o fisco o consente, isto é, porque os
governos admitem a diferenciação dos impostos: levezinhos, para os ricos,
letais, para os pobres…
Quanto ao descrédito evidente
dos políticos, ainda Jean-Claude Guillebaud me traz a seguinte frase de Václav
Havel, escritor checo que esteve na raiz da libertação e democratização do seu
país, em 1989:
“penso que o mundo
político precisa de mais humanidade e espiritualidade.”
Quem governa necessita,
também, e urgentemente, de moralidade.
Mas existe moral no
modo como os governos conduzem as sociedades por que são responsáveis?

se existe é completamente deturpada...existe neles, como se fosse doença, a tendência grupal para a amoralidade, para a baixa dos princípios instituídos, para a decadência de humanidade. O poder corrompe e é contra os excessos de poder, a centralização do mesmo que acho que precisamos de lutar. Somos cidadãos violentados todos os dias. Nos direitos naturais e adquiridos. Somos acomodados ao medo a à preguiça e se eles um dia pagarem pelas injustiças cometidas diariamente em nome da liberdade (já nem falo de sistemas políticos), nós já estamos a pagar pela acomodação constante e pela falta de coragem e de consciência no exercício de cidadania. Our fault. Bom dia Manuel
ResponderEliminarCara amiga, nós vivemos num país periférico e há séculos que dependemos de outrem... Muitas vezes, escolhemos a resignação e o pasmo; outras a emigração. Mas... a Europa muda e nós... mudaremos. A nossa falta é corrigível. O 25 de Abril abriu as portas a gerações muito menos resignáveis. O "lá fora" está mais perto. Etc. Seja optimista! Um abraço forte.
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