quinta-feira, 31 de maio de 2012

Não há milagres: há vontade

A esperança é deste mundo, com mezinhas não vais a lado nenhum... 


Esperança é uma palavra que não devemos enterrar.

Antes pelo contrário.

Não vivemos a apocalipse.

E também não vivemos a restauração de um sistema.

Vivemos a mudança e assistimos ao estertor do capitalismo financeiro, que tudo faz para recuperar o imenso poder que teve, durante as últimas décadas, que tudo faz para se reinstalar, à nossa custa, com os benefícios de que usufruía.

Nenhum de nós o ignora: à nossa custa o faz, exigindo-nos sacrifícios injustos, o que significa muito mais do que insuportáveis: a injustiça é um crime.

A convulsão social existe –já existia: agora, revela-se, inteiramente.

Por toda a parte, da Argentina (porque não só a Europa sofre) à Holanda, à Bélgica, à Itália, à Espanha, à Irlanda, à Grécia… ao nosso país.

Dizer que “sempre houve pobres” quer dizer duas coisas:
má fé

ou ignorância.

Ou, ainda outra coisa mesquinha e covarde: resignação de quem prefere a mentira e nela se aconchega, por medo à luta que teria de travar se a denunciasse e rejeitasse.

Os pobres não existiram “sempre”, como os rios e as serras.  

Antes do pobre, existiu o ladrão.

O pobre é, apenas, o homem roubado: espoliado, escravizado, excluído dos direitos sobre os quais assentam as sociedades justas.

Mas nada dura… para sempre…

E, hoje, em boa hora, os cidadãos contestam o sistema onde o capitalismo financeiro se moveu e roubou e violentou os cidadãos.

Denunciam os crimes do capitalismo financeiro.  

Os cidadãos contestam a credibilidade dos políticos –porque através desses políticos o sistema se nos impôs e impõe, destruiu  e destrói.

E a indignação dos cidadãos representa a abertura da mudança, a alvorada de uma época nova.

É um sinal positivo, que nos garante a esperança.

Jean-Claude Guillebaud escreveu, há duas semanas, no Le nouvel Observateur, estas palavras pertinentes:

“Não vivemos uma “crise”, mas sim uma mudança civilizacional. Não se trata do problema de uma “estratégia de saída” de não se sabe bem de quê. (…) O crescimento cujo regresso tantos imploram, à maneira dos xamãs siberianos quando estes se dirigem a entes invisíveis, não recomeçará a funcionar como um motor gripado que se arranjou. (…) O crescimento não é uma adição de quantidade, é, acima de tudo, um impulso colectivo, uma vontade partilhada.”

E esse impulso, essa vontade partilhada, comum de todos, dará lugar a uma mudança civilizacional: os cidadãos deixarão de ser peças de máquina, robôs, num parque comandado à distância por uma minoria de privilegiados…

…aqueles que hoje acumulam bens, à margem do fisco ou porque o fisco o consente, isto é, porque os governos admitem a diferenciação dos impostos: levezinhos, para os ricos, letais, para os pobres…

Quanto ao descrédito evidente dos políticos, ainda Jean-Claude Guillebaud me traz a seguinte frase de Václav Havel, escritor checo que esteve na raiz da libertação e democratização do seu país, em 1989:

penso que o mundo político precisa de mais humanidade e espiritualidade.”

Quem governa necessita, também, e urgentemente, de moralidade.

Mas existe moral no modo como os governos conduzem as sociedades por que são responsáveis?  

2 comentários:

  1. se existe é completamente deturpada...existe neles, como se fosse doença, a tendência grupal para a amoralidade, para a baixa dos princípios instituídos, para a decadência de humanidade. O poder corrompe e é contra os excessos de poder, a centralização do mesmo que acho que precisamos de lutar. Somos cidadãos violentados todos os dias. Nos direitos naturais e adquiridos. Somos acomodados ao medo a à preguiça e se eles um dia pagarem pelas injustiças cometidas diariamente em nome da liberdade (já nem falo de sistemas políticos), nós já estamos a pagar pela acomodação constante e pela falta de coragem e de consciência no exercício de cidadania. Our fault. Bom dia Manuel

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  2. Cara amiga, nós vivemos num país periférico e há séculos que dependemos de outrem... Muitas vezes, escolhemos a resignação e o pasmo; outras a emigração. Mas... a Europa muda e nós... mudaremos. A nossa falta é corrigível. O 25 de Abril abriu as portas a gerações muito menos resignáveis. O "lá fora" está mais perto. Etc. Seja optimista! Um abraço forte.

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