segunda-feira, 14 de maio de 2012

Salvar do ciclone



Os anos decisivos...

Fernando Namora (1919-1989) foi um dos autores que eu descobri na Papelaria do Sr. Casimiro. Há tantos anos! Sessenta?

Era um pré-adolescente, exilado na Guarda, que amo como verdadeira pátria e onde fiz a minha aprendizagem -toda ela: do amor ao sexo e à Literatura. 
Obviamente, sozinho, sem outro mestre que a vida.

O saudoso Padre Pôpo, director da Biblioteca Municipal, e o sr. Casimiro, é verdade, ajudaram-me muito: o primeiro, aconselhando-me certos autores, Raul Brandão, Tolstoi, por exemplo; o segundo, vendendo-me a crédito, sem juros…, livros preciosos.

E, depois, ia ao sabor do instinto, das capas sugestivas e das badanas -ou orelhas-, do que se comentava…

Devo referir outro escritor, que descobri, então, e me deslumbrou: W. Somerset Maugham.

Tenho aqui à minha frente “Servidão Humana” (Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos), estupenda capa de Bernardo Marques, e, dentro, possessivamente manuscrito: M. Lopes-Cardoso, 1952, que assim decidira vir a assinar as minhas obras…, seguindo o exemplo de Maugham…

“As minas de S. Francisco" terá sido o primeiro livro de Namora que li –e me impressionou, tal qual “Casa da Malta” e “Retalhos da vida de um médico”.

Sim, preferi o Namora rústico. Passei bastante ao lado das suas obras citadinas. E, provavelmente, perdi com isso. Mas acontece.

Ontem, a reorganizar a minha biblioteca, deparei com um romance de Fernando Namora, que esquecera: “As sete partidas do mundo”: uma admirável, absorvente, poética história de adolescência, escrita de Novembro de 1936 a Julho de 1938, ano da publicação, Portugália/Coimbra, capa (bela capa!) de Roberto Araújo.

Logo João Gaspar Simões (15/12/38) lhe dedicou uma crítica laudatória, encorajadora.

Muito devem a Literatura Portuguesa, os escritores portugueses e os leitores portugueses a João Gaspar Simões!

Hoje, será que ainda se fala de Fernando Namora –como se deveria falar?

Neste momento, em que o superficial, a velocidade e a imagem dominam, os nomes enterram-se ainda mais depressa do que habitualmente…

O canibalismo artístico está protegido pelo mercado que impõe a novidade, boa ou má, séria ou banal, mas “produto” comerciável vendável, rentável…

Hoje, ainda se fala de João Gaspar Simões? Duvido.

Durante 32 anos, na minha coluna O Outro Lado, no Jornal de Notícias, bati-me por isso: pela sobrevivência dos nomes que, realmente, contam.

E nomeio, ao correr das letras, alguns dos quais tu pouco ou nada ouves: além de Gaspar Simões, Graça Pina de Morais, João de Araújo Correia, Branquinho da Fonseca, Afonso Duarte, Tomaz de Figueiredo, Trindade Coelho, Vicente Sanches…

Ou outros de que ouves o nome e nunca abriste um livro: Camilo, por exemplo…

E é triste e é grave e é um péssimo sinal.

  

6 comentários:

  1. Foi aqui no seu blogue que já descobri alguns desses nomes, nomeadamente a poesia de Afonso Duarte, o célebre Barão de Branquinho da Fonseca (e outros), João Gaspar Simões (que estou a ler), os seus livros...e outros autores.
    É pena que não se façam novas edições de tantos livros bons que estão esgotados.
    Obrigada por trazê-los até aqui.
    Uma boa semana

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  2. Isabel, obrigado pelas suas palavras. Não se admire da incultura que campa, da mediocridade do que se faz e aplaudem, da pobreza espiritual deste momento. É a decadência. Há-de passar.

    Já agora, leia de James Joyce, "Gente de Dublin" ("Dubliners") que está por aí em alguma editora.

    Amanhã, terá uma surpresa,via posta.

    Boa noite.

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  3. Realmente, Fernando Namora está esquecido. Raramente pedem livros dele. Urge combater a má literatura que prolifera a grande velocidade...
    Beijinhos

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  4. Tenho "Gente de Dublin", mas é mais um dos muitos que tenho e não li.
    Mas tomei nota.

    Muito, muito obrigada pela surpresa.
    Um beijinho

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  5. Cláudia, não é fácil inverter o sentido que aponta para a analfabetização... da ignorância...

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  6. Isabel, "Gente de Dublin" é muito bom.

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