Os anos decisivos...
Fernando Namora (1919-1989) foi um
dos autores que eu descobri na Papelaria do Sr. Casimiro. Há tantos anos!
Sessenta?
Era um pré-adolescente,
exilado na Guarda, que amo como verdadeira pátria e onde fiz a minha
aprendizagem -toda ela: do amor ao sexo e à Literatura.
Obviamente, sozinho,
sem outro mestre que a vida.
O saudoso Padre Pôpo,
director da Biblioteca Municipal, e o sr. Casimiro, é verdade, ajudaram-me
muito: o primeiro, aconselhando-me certos autores, Raul Brandão, Tolstoi, por
exemplo; o segundo, vendendo-me a crédito, sem juros…, livros preciosos.
E, depois, ia ao sabor
do instinto, das capas sugestivas e das badanas -ou orelhas-, do que se
comentava…
Devo referir outro
escritor, que descobri, então, e me deslumbrou: W. Somerset Maugham.
Tenho aqui à minha
frente “Servidão Humana” (Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos), estupenda
capa de Bernardo Marques, e, dentro, possessivamente manuscrito: M.
Lopes-Cardoso, 1952, que assim decidira vir a assinar as minhas obras…,
seguindo o exemplo de Maugham…
“As minas de S.
Francisco" terá sido o primeiro livro de Namora que li –e me
impressionou, tal qual “Casa da Malta” e “Retalhos da vida de um médico”.
Sim, preferi o Namora
rústico. Passei bastante ao lado das suas obras citadinas. E, provavelmente,
perdi com isso. Mas acontece.
Ontem, a reorganizar a
minha biblioteca, deparei com um romance de Fernando Namora, que esquecera: “As
sete partidas do mundo”: uma admirável, absorvente, poética história de
adolescência, escrita de Novembro de 1936 a Julho de 1938, ano da publicação, Portugália/Coimbra,
capa (bela capa!) de Roberto Araújo.
Logo João Gaspar Simões
(15/12/38) lhe dedicou uma crítica laudatória, encorajadora.
Muito devem a
Literatura Portuguesa, os escritores portugueses e os leitores portugueses a
João Gaspar Simões!
Hoje, será que ainda se
fala de Fernando Namora –como se deveria falar?
Neste momento, em que o
superficial, a velocidade e a imagem dominam, os nomes enterram-se ainda mais
depressa do que habitualmente…
O canibalismo artístico
está protegido pelo mercado que impõe a novidade, boa ou má, séria ou banal,
mas “produto” comerciável vendável, rentável…
Hoje, ainda se fala de
João Gaspar Simões? Duvido.
Durante 32 anos, na
minha coluna O Outro Lado, no Jornal de Notícias, bati-me por isso: pela
sobrevivência dos nomes que, realmente, contam.
E nomeio, ao correr das
letras, alguns dos quais tu pouco ou nada ouves: além de Gaspar Simões, Graça
Pina de Morais, João de Araújo Correia, Branquinho da Fonseca, Afonso Duarte,
Tomaz de Figueiredo, Trindade Coelho, Vicente Sanches…
Ou outros de que ouves
o nome e nunca abriste um livro: Camilo, por exemplo…
E é triste e é grave e
é um péssimo sinal.

Foi aqui no seu blogue que já descobri alguns desses nomes, nomeadamente a poesia de Afonso Duarte, o célebre Barão de Branquinho da Fonseca (e outros), João Gaspar Simões (que estou a ler), os seus livros...e outros autores.
ResponderEliminarÉ pena que não se façam novas edições de tantos livros bons que estão esgotados.
Obrigada por trazê-los até aqui.
Uma boa semana
Isabel, obrigado pelas suas palavras. Não se admire da incultura que campa, da mediocridade do que se faz e aplaudem, da pobreza espiritual deste momento. É a decadência. Há-de passar.
ResponderEliminarJá agora, leia de James Joyce, "Gente de Dublin" ("Dubliners") que está por aí em alguma editora.
Amanhã, terá uma surpresa,via posta.
Boa noite.
Realmente, Fernando Namora está esquecido. Raramente pedem livros dele. Urge combater a má literatura que prolifera a grande velocidade...
ResponderEliminarBeijinhos
Tenho "Gente de Dublin", mas é mais um dos muitos que tenho e não li.
ResponderEliminarMas tomei nota.
Muito, muito obrigada pela surpresa.
Um beijinho
Cláudia, não é fácil inverter o sentido que aponta para a analfabetização... da ignorância...
ResponderEliminarIsabel, "Gente de Dublin" é muito bom.
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