domingo, 20 de maio de 2012

Uma flor para o poeta

Pigalle, painel, 1895, obra de Henri Toulouse-Lautrec


João Pinto de Figueiredo, com garra especial e rara sensibilidade, no estudo incontornável, A Morte de Mário de Sá-Carneiro (Publicações Dom Quixote, 1983), descreve o enterro do poeta, e para aqui traslado (o.c., pp. 218, 219):

“29, ao meio dia, é o enterro “modesto mas decente”, segundo Araújo. “Nunca vimos o azul de Paris mais resplandecente, mais cheio de luz”, escreve Xavier de Carvalho, sendo “sob esse colorido dossel de estonteante beleza”, continua, que “o modesto caixão de pinho, coberto dum pano franjado de prata” segue em direcção ao cemitério Pantin. No magro préstito vão Helena

A da pulseira duvidosa
A dos anéis de jade e enganos

o próprio Xavier de Carvalho, Carlos Ferreira,um bom rapaz”, e José d’Araújo (…).

À esquina da Rua Frochot, a meia dúzia de passos do Tabarin e do Hotel de Nice [onde viveu e se matou Sá-Carneiro, hoje, Hotel Ninon], ouve-se dizer, num grupo, à passagem do carro funerário: “É um escritor português que se suicidou por amor.” Então, conta Carvalho, “uma midinette atravessou a rua e atirou sobre o caixão o pequeno ramo de violetas que trazia no ‘corsage’ de ‘linon’,… exclamando: -Um poeta que morreu de amor… Como eu o teria amado!”

Helena era a amante de Sá-Carneiro, uma das figuras de Pigalle, da boémia parisiense, que Henri Toulouse-Lautrec amou e fixou.

Sá-Carneiro conheceu esse mundo, certamente querido à sua alma torturada, ansiosa, peregrina do absoluto.

Jorge Barradas, que privou com o poeta e conheceu Helena, disse-me ela nada ter de extraordinário.

Não seria Helena a Jeanne Hébuterne*** de Modigliani. Mas dessas coisas só sabe quem as vive por dentro.

Quanto à midinette das violetas ficou, para sempre anónima, daquelas figuras únicas que todos os dias iluminam o mistério de Paris.

Acerca dos outros portugueses que João Pinto de Figueiredo refere… deverás ler a obra admirável, que nenhum admirador de Sá-Carneiro pode dispensar.

2 comentários:

  1. É interessante, os mistérios que se criavam à volta das pessoas, porque tudo era também muito proibido, muito censurado.
    Hoje vive-se mais abertamente.
    Também tudo é mais descartável, até quase os sentimentos.

    O encanto das pessoas muitas vezes só o descobre quem convive com elas de perto. Às vezes pessoas que parecem interessantes quando as conhecemos não lhes achamos grande graça e o contrário também acontece.

    Bom domingo

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  2. As pessoas são universos complexos e em contradição, Isabel.

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