João Pinto de Figueiredo, com garra especial e rara sensibilidade, no estudo incontornável, A Morte de Mário de Sá-Carneiro (Publicações Dom Quixote, 1983), descreve o enterro do poeta, e para aqui traslado (o.c., pp. 218, 219):
“29, ao meio dia, é o
enterro “modesto mas decente”, segundo Araújo. “Nunca vimos o azul de Paris
mais resplandecente, mais cheio de luz”, escreve Xavier de Carvalho, sendo “sob
esse colorido dossel de estonteante beleza”, continua, que “o modesto caixão de
pinho, coberto dum pano franjado de prata” segue em direcção ao cemitério
Pantin. No magro préstito vão Helena
A da pulseira duvidosa
A dos anéis de jade e
enganos
o próprio Xavier de
Carvalho, Carlos Ferreira, “um bom rapaz”, e José d’Araújo (…).
À esquina da Rua
Frochot, a meia dúzia de passos do Tabarin e do Hotel de Nice [onde viveu e se
matou Sá-Carneiro, hoje, Hotel Ninon], ouve-se dizer, num grupo, à passagem do
carro funerário: “É um escritor português que se suicidou por amor.” Então,
conta Carvalho, “uma midinette atravessou a rua e atirou sobre o caixão o
pequeno ramo de violetas que trazia no ‘corsage’ de ‘linon’,… exclamando: -Um
poeta que morreu de amor… Como eu o teria amado!”
Helena era a amante de
Sá-Carneiro, uma das figuras de Pigalle, da boémia parisiense, que Henri
Toulouse-Lautrec amou e fixou.
Sá-Carneiro conheceu
esse mundo, certamente querido à sua alma torturada, ansiosa, peregrina do
absoluto.
Jorge Barradas, que
privou com o poeta e conheceu Helena, disse-me ela nada ter de extraordinário.
Não seria Helena a
Jeanne Hébuterne*** de Modigliani. Mas dessas coisas só sabe quem as vive por
dentro.
Quanto à midinette das
violetas ficou, para sempre anónima, daquelas figuras únicas que todos os
dias iluminam o mistério de Paris.
Acerca dos outros
portugueses que João Pinto de Figueiredo refere… deverás ler a obra admirável,
que nenhum admirador de Sá-Carneiro pode dispensar.

É interessante, os mistérios que se criavam à volta das pessoas, porque tudo era também muito proibido, muito censurado.
ResponderEliminarHoje vive-se mais abertamente.
Também tudo é mais descartável, até quase os sentimentos.
O encanto das pessoas muitas vezes só o descobre quem convive com elas de perto. Às vezes pessoas que parecem interessantes quando as conhecemos não lhes achamos grande graça e o contrário também acontece.
Bom domingo
As pessoas são universos complexos e em contradição, Isabel.
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