Este momento tristíssimo –e perigosíssimo- da nossa história será lembrado, anedótica mas significativamente, por duas afirmações do responsável pelo actual governo:
-os jovens devem
emigrar,
-o desemprego abre
novas oportunidades ao desempregado.
Vamos, agora à
primeira, que, aliás, decorre da segunda: a escolha entre emigrar ou não
emigrar depende de ter ou não ter emprego digno e correspondente à vocação de
cada um.
(Eu sei que a palavra “vocação”
há muito foi banida dos valores (?) aceitos, mas insisto nela: do seu
cumprimento depende a realização do homem como pessoa inteira e não ancilosada)
Ora bem: fui buscar os
livros de Pablo Guevara (1930-2006), um dos grandes poetas peruanos do século
XX, e dei, guardada entre as páginas, com uma entrevista em que aborda a
questão da emigração – e da emigração qualificada: a de escritores, de poetas.
Sei, também, que, aos
olhos do poder/polvo, assente no mercado, escritores e poetas não valem um
cêntimo, ou, melhor, valem, caso os seus “produtos” encontrem compradores no
mercado, e serem bons, medíocres, maus, ou péssimos, não importa, desde que
rendam.
Enganam-se os doutores
da mula ruça: é pela poesia, pelo sonho, pela utopia, que todos vamos, e é respeitá-la
que qualifica –ou todas as ciências andariam ainda na oficina dos alquimistas
medievais ou pegadas às mezinhas dos curas desses tempos…
Mas, tornemos ao que
importa, dado os doutores da mula ruça atrasarem a vida e não passarem de criados
dos donos (dos comilões) de Portugal.
Guevara tem presente um país pobre da américa-latina; nós somos, e cada vez mais, um país pobre da Europa, necessitados, como a pátria de Guevara, de gente capaz –e essa gente, que estudou e cresceu aqui, emigra, e o vazio alastra.
No fim e ao cabo, vão
os nossos emigrantes em busca da Cultura, que este governo recusa e sufoca, que
este governo teme, porque um homem culto representa perigosíssima ameaça para
os seus valores: os valores do mercado, do lucro, da exploração do homem.
Um homem culto
dificilmente -demasiado dificilmente- aceitará a nova escravatura, que o
neo-liberalismo quer estabelecer.
É legítima a opção de
emigrar?
Sem dúvida, por razões
de cultura e de defesa da própria dignidade –e pela mais forte e evidente de
todas as razões: o homem, se não comer, morre de fome.
Pablo Guevara diz:
“A cultura não se
procura indo embora, mas também não se encontra ficando. Cultura é muitas
coisas. E eis que o problema se complica, pois que, para mim, todo o ser humano
é culto. Até o borracho ali da esquina tem uma cultura alcoólica, que eu ignoro…
e poderíamos estar a falar horas a fio sobre o que é essa cultura, por exemplo,
“espera-me de gatas”, “como é que consegues”, “quantos copos bebes”…”
E, depois da ironia,
que não é exactamente ironia, aborda o essencial:
“O problema é que não
se criaram, através da educação, horizontes suficientemente atraentes e
democráticos…”
Talvez -e porque tu
decidirás, eu decidirei, aquele outro decidirá o que será justo, e cada um à
sua maneira e livremente…-, Pablo Guevara tenha razão: não será emigrando que
resolveremos o problema e muito menos salvaremos o nosso país do apagão que
bate à porta.
A verdade é que o meu querido
amigo Pablo Guevara, com quem privei dois meses, em Paris, nos idos de 1958, e me
ficou, para sempre uma referência importantíssima, o poeta que escolheu
partilhar as dificuldades do seu país pobre, espoliado, escravizado, e lutar,
lá, por ele, obrigou-me a repensar, a pergunta corrente:
“Ir ou não ir embora?”
O que respondes?

Estamos a exportar mão-de-obra qualificada Manuel, vá lá, não precisamos de a importar!Já que todo o resto é importado!
ResponderEliminarFicar com certeza.
ResponderEliminarE essa é a desgraça: não fixamos as pessoas e não produzimos nada... Um abraço!
ResponderEliminarAinda bem, Mané!
ResponderEliminarSe fosse jovem e estivesse a começar a vida de trabalho, hesitaria.
ResponderEliminarO coração quereria ficar, mas se não há condições no nosso país, como se sobrevive, como se pode planear minimamente o futuro? Nomeadamente, os jovens que querem ter filhos.
Não é fácil.
Não sei responder...
Isabel, tenho a certeza que ama o seu trabalho e os seus alunos. É uma pessoa que gosta de dar -e dá.E os seus alunos retribuem-lhe o amor. Um abraço.
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