quarta-feira, 16 de maio de 2012

O outro lado: a pergunta candente

Começava a fuga ao mal estar e ao mal viver...


Este momento tristíssimo –e perigosíssimo- da nossa história será lembrado, anedótica mas significativamente, por duas afirmações  do responsável pelo actual governo:

-os jovens devem emigrar,

-o desemprego abre novas oportunidades ao desempregado.

Vamos, agora à primeira, que, aliás, decorre da segunda: a escolha entre emigrar ou não emigrar depende de ter ou não ter emprego digno e correspondente à vocação de cada um.

(Eu sei que a palavra “vocação” há muito foi banida dos valores (?) aceitos, mas insisto nela: do seu cumprimento depende a realização do homem como pessoa inteira e não ancilosada)

Ora bem: fui buscar os livros de Pablo Guevara (1930-2006), um dos grandes poetas peruanos do século XX, e dei, guardada entre as páginas, com uma entrevista em que aborda a questão da emigração – e da emigração qualificada: a de escritores, de poetas.

Sei, também, que, aos olhos do poder/polvo, assente no mercado, escritores e poetas não valem um cêntimo, ou, melhor, valem, caso os seus “produtos” encontrem compradores no mercado, e serem bons, medíocres, maus, ou péssimos, não importa, desde que rendam.

Enganam-se os doutores da mula ruça: é pela poesia, pelo sonho, pela utopia, que todos vamos, e é respeitá-la que qualifica –ou todas as ciências andariam ainda na oficina dos alquimistas medievais ou pegadas às mezinhas dos curas desses tempos…

Mas, tornemos ao que importa, dado os doutores da mula ruça atrasarem a vida e não passarem de criados dos donos (dos comilões) de Portugal.


Guevara tem presente um país pobre da américa-latina; nós somos, e cada vez mais, um país pobre da Europa, necessitados, como a pátria de Guevara, de gente capaz –e essa gente, que estudou e cresceu aqui, emigra, e o vazio alastra.

No fim e ao cabo, vão os nossos emigrantes em busca da Cultura, que este governo recusa e sufoca, que este governo teme, porque um homem culto representa perigosíssima ameaça para os seus valores: os valores do mercado, do lucro, da exploração do homem.

Um homem culto dificilmente -demasiado dificilmente- aceitará a nova escravatura, que o neo-liberalismo quer estabelecer.

É legítima a opção de emigrar?

Sem dúvida, por razões de cultura e de defesa da própria dignidade –e pela mais forte e evidente de todas as razões: o homem, se não comer, morre de fome.

Pablo Guevara diz:

A cultura não se procura indo embora, mas também não se encontra ficando. Cultura é muitas coisas. E eis que o problema se complica, pois que, para mim, todo o ser humano é culto. Até o borracho ali da esquina tem uma cultura alcoólica, que eu ignoro… e poderíamos estar a falar horas a fio sobre o que é essa cultura, por exemplo, “espera-me de gatas”, “como é que consegues”, “quantos copos bebes”…”

E, depois da ironia, que não é exactamente ironia, aborda o essencial:

“O problema é que não se criaram, através da educação, horizontes suficientemente atraentes e democráticos…”

Talvez -e porque tu decidirás, eu decidirei, aquele outro decidirá o que será justo, e cada um à sua maneira e livremente…-, Pablo Guevara tenha razão: não será emigrando que resolveremos o problema e muito menos salvaremos o nosso país do apagão que bate à porta.

A verdade é que o meu querido amigo Pablo Guevara, com quem privei dois meses, em Paris, nos idos de 1958, e me ficou, para sempre uma referência importantíssima, o poeta que escolheu partilhar as dificuldades do seu país pobre, espoliado, escravizado, e lutar, lá, por ele, obrigou-me a repensar, a pergunta corrente:

“Ir ou não ir embora?”

O que respondes?
   
  

6 comentários:

  1. Estamos a exportar mão-de-obra qualificada Manuel, vá lá, não precisamos de a importar!Já que todo o resto é importado!

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  2. E essa é a desgraça: não fixamos as pessoas e não produzimos nada... Um abraço!

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  3. Se fosse jovem e estivesse a começar a vida de trabalho, hesitaria.
    O coração quereria ficar, mas se não há condições no nosso país, como se sobrevive, como se pode planear minimamente o futuro? Nomeadamente, os jovens que querem ter filhos.
    Não é fácil.
    Não sei responder...

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  4. Isabel, tenho a certeza que ama o seu trabalho e os seus alunos. É uma pessoa que gosta de dar -e dá.E os seus alunos retribuem-lhe o amor. Um abraço.

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