sábado, 19 de maio de 2012

Os 122 anos de Sá-Carneiro, nascimento e morte de um poeta português

Mário de Sá-Carneiro (19 de Maio de 1890-26 de Abril de 1916), visto por Almada Negreiros



Aqueloutro

O dúbio mascarado, o mentiroso
Afinal, que passou na vida incógnito;
O Rei-lua postiço, o falso atónito;
Bem no fundo o covarde rigoroso…

Em vez de Pajem bobo presunçoso…
Sua alma de neve asco de um vómito…
Seu ânimo cantado como indómito
Um lacaio invertido e pressuroso


O sem nervos nem ânsia, o papa-açorda…
(Seu coração talvez movido a corda)
Apesar dos seus berros ao Ideal,

O corrido, o raimoso, o desleal,
O balofo arrotando Império astral,
O mago sem condão, o Esfinge Gorda…

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Eram os últimos versos, que antecederam de pouco o suicido brutal.

Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda”, escreveu o poeta.

E acertou: em 1936, já a revista presença o arrancara ao esquecimento. E são de João Gaspar Simões, um dos directores de presença, estas palavras, publicadas no magistral Prefácio a Poesias, de Mário de Sá-Carneiro (Ática Editora, Lisboa):

“Vai precipitar-se a crise. O homem que afronta a morte é um homem: Sá-Carneiro desce, pois, ao plano da vida, por estar prestes a fechar-se no seu quarto de Paris, de smoking vestido, pronto para a viagem derradeira. Morre em beleza, já que em beleza não pôde viver. Sim: o destino do verdadeiro artista é incompatível com o destino do mundo. Nas últimas horas -os seus últimos poemas são das últimas horas- põe-se a falar de si mesmo com aquele cinismo, aquele desprezo, aquela altivez de que só os grandes homens são capazes. Eis o último recurso dos génios num mundo cada vez mais hostil aos artistas: o desprezarem a humanidade, desprezando-se a si mesmos. Sá-Carneiro, grande poeta, grande artista, desprezou-se a si mesmo, porque se transcendeu. Só os homens que se transcendem a si mesmos são dignos de eterna glória.”

4 comentários:

  1. Olá,

    Paris, 26 de Abril de 1916, a data de falecimento...

    (Não é necessário publicar este comentário, é só para alertar para a data errada).

    Abraço.

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  2. Agora fiquei na dúvida se escrevi bem a data de falecimento: 26 de Abril de 1916. A data e o ano estão incorrectos, sob o desenho do Almada. Forte abraço, novamente.

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  3. Caro amigo André, Já está tudo corrigido:dia e ano. Bem haja pela ajuda!

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  4. Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro dois portugueses que muito estimo.
    Beijinho.

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