quinta-feira, 17 de maio de 2012

O que vemos do mundo, o que sabemos dos outros?




Jacques Rivière e Alain-Fournier são duas personalidades muito importantes da Literatura francesa contemporânea.

O primeiro foi um excelente crítico e um dos responsáveis pela revista-movimento La Nouvelle Revue Française, que marcou a primeira metade do século XX.

O segundo escreveu uma obra-prima, sobre a adolescência, Le Grand Meaulnes, clássico sempre procurado.

Mas não é das suas obras que vou falar, nem da revista.

Encontrei, na Correspondance Jacques Rivière/Alain-Fournier (Gallimard), em carta do primeiro ao segundo, a seguinte frase:

“Não acho que o conhecimento de um país, usando o caminho-de-ferro, seja tão insuficiente como dizem. A passagem rápida, através de um vasto país, oferece a possibilidade de entendermos o que nele se poderemos encontrar e de apreender o carácter geral da região.” (9 de Stembro de 1909).

A passagem rápida, diz Rivière!

Não é difícil imaginar a velocidade dos comboios, há cem anos!

O que diriam, hoje, Rivière e Alain.Founnier, diante do TGV, dos carros a 200 à hora… dos aviões, que nos levam, num fechar de olhos, daqui ali…

E pergunto: o que nos ensinam, realmente, as nossas viagens?

A semana passada nos resort, algures na América-Latina ou na Oceania; os três dias em Marraquexe ou em Roma, em Londres ou em Nova-Iorque; os cruzeiros em barcos monumentais, iguais, por dentro, ao nosso quotidiano citadino; que nos trazem, além de mais do mesmo: nomes, paisagens, que logo esquecemos e, à cautela, guardamos nas máquinas fotográficas?…

O nosso tempo da velocidade, da imagem fugaz, da corrida-fuga, é um tempo morto: decadente.

Paul Morand adivinhava-o, quando, em 1941, publicou o profético romance L’Homme Pressé.
  

3 comentários:

  1. José Manuel Romana17 de maio de 2012 às 03:51

    Amigo, Manuel Poppe
    Subscrevo que temos "um tempo morto: decadente".É conceito que nos traz a palavra grega "cronos".Este tempo mata-nos em todos os sentidos.Leva-nos à nossa própria morte corporal. É uma chatice!
    Parece-me que os gregos usavam uma outra palavra-kairós- para significar, o tempo certo, determinado,exacto,com um alcance mais escatológico que, afinal, era mais vivificante e optimista para a nossa condição humana. Será?
    Interrogo-me e gostaria que, para nosso bem e da Humanidade,esse tempo exista e se torne possível. Um abraço

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  2. José Manuel, sim, decadente. Isto não é vida: é tempo perdido.

    Os gregos sabiam muito.

    E voltam a saber: recusam a "modernidade" do capitalismo financeiro e preferem ser pobres livres do que pobres roubados pela banca internacional.

    Sempre os admirei e ainda os admiro mais,

    O mundo ou muda ou acaba.

    Acho que muda.

    Um abraço.

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  3. Estamos num tempo que não escolhemos, mas dentro dele, individualmente, podemos fazer algumas escolhas, já que colectivamente é mais difícil. Procurar não desperdiçar o tempo no que não nos interessa. Gastá-lo no que gostamos, sempre que possível.Mas para isso é preciso muitas vezes ficar de fora do "grupo". Ser diferente paga-se com uma certa solidão.

    Lembrei-me duma história que circulava por aí, por mail. Do banqueiro e o Pescador.

    Um beijinho

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