quinta-feira, 31 de maio de 2012

Lembrando Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade, por Augusto Gomes (1910-1974)


Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que te traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há rios sem margens para a água
e paisagens que não escorrem do teu rosto!


Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos…

Mas tu esqueceste muitas coisas!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que o meu corpo todo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha, queres ouvir-me?:
às vezes ainda sou o retrato
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas mais brancas
do que aquelas que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
debaixo dum laranjal…

Mas -tu sabes- a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu…
Eu saí da moldura
e dei às aves os meus olhos como espaço.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!

in Os Amantes sem dinheiro, Cancioneiro geral, Centro Bibliográfico, 1950, Lisboa

p.s. Manuel Pestana comentou um antigo post, com este poema; fui revisitá-lo e verifiquei que o blog, manhosamente, dera cabo dele... aqui o trago de novo, porque é muito belo


5 comentários:

  1. O meu amigo José Luís Porfírio enviou-me esta mensagem que muito agradeço:

    "O desenho que publicaste, retrato de Eugénio de Andrade, ´do Augusto
    Gomes (1910 - 1974) colega e amigo de meu Pai na escola do Porto e
    visita comum no Palácio de Queluz. O desenho completo mostra a seguinte
    dedicatória:
    "Ao Eugénio de Andrade com a admiração e estima de Augusto Gomes 53"

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  2. O poema que mais gosto sobre a mãe.
    Bom fim-de-semana!

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