segunda-feira, 6 de maio de 2013

Hoje

"A prisão de Cristo", 1600, óleo de El Greco

A Um Crucifixo

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eco o eco dos teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste… ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojarás de novo à campa os membros lassos…

Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo Céu, frio como um sudário…

E agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar -de que serviu o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário?-

Antero de Quental in Odes Modernas, Imprensa da Universidade, Nova Edição conforme à 2ª edição, Coimbra, 1926

1 comentário:

  1. Lindo soneto!
    Pobre humanidade, sempre a mesma, sempre frágil, sempre sob o céu indiferente...

    "A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
    Sob o mesmo ermo Céu, frio como um sudário…"

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