Américo Rodrigues: um herói do nosso tempo
´
Queixou-se um grande da nossa Cultura, Ribeiro Sanches, da lentidão de Portugal, espécie de lesma espaparrada junto ao Atlântico, como, mais menos nestes termos, haveria Eça de o caracterizar mais tarde.
Queixou-se um grande da nossa Cultura, Ribeiro Sanches, da lentidão de Portugal, espécie de lesma espaparrada junto ao Atlântico, como, mais menos nestes termos, haveria Eça de o caracterizar mais tarde.
De Ribeiro Sanches
ficou o breve, mas, tristemente imortal texto, datado de 1777: Dificuldade que tem um reino velho para emendar-se.
O reino é o nosso; a
lesma somos nós.
E sirvo-me eu de
Sanches e, agora e hoje, escrevo: Dificuldade
que tem uma cidade velha para emendar-se.
A cidade é a Guarda,
aferrada a um alto monte da sagrada Beira
(Augusto Gil dixit) cuja sacralidade
vem traindo…
Nessa cidade, que amo, apesar
de todos os seus defeitos seculares, viveu o próprio Ribeiro Sanches, e ela o
marcou – assunto para outra altura.
A Guarda pertence ao
velho Portugal e demora a libertar-se de um passado angusto, que continua a
apertar-lhe o pescoço.
Trata-se de doença
universal –e lembro a novela, que tudo diz e se situa em França, intitulada Vieille France, obra de um admirável romancista,
Roger Martin du Gard (Nobel de 1937), apresentado, magistralmente, por Albert Camus, na edição da Pléiade.
Sempre essa história de
mesquinhez, inveja, mal dizer, de horror a tudo quanto toque e abale a múmia -porque
tudo se passa numa cidadezinha mumificada-, sempre o reacionarismo subterrâneo
que resiste e destrói, sempre essas nojeiras me lembraram ao ler e reler os protestos, as denúncias,
as propostas de iluminação dos espíritos carunchosos, num dos blogs mais
inteligentes, humanos, lúcidos e corajosos da blogaria portuguesa.
Porquê?
Porque pressentia,
adivinhava a campanha rasteira, insultuosa e denigrativa que esse blog,
inevitavelmente, provocaria.
E provocou.
E esse blog fechou a
porta.
Refiro-me ao Café Mondego, de Américo Rodrigues.
Cansaço? Encolher de
ombros? Desistência?
Cansados andamos nós
todos, neste momento diabólico e perigosíssimo que o país atravessa, e aceito o
cansaço de Américo Rodrigues.
Mas ele não é homem nem
para encolher os ombros, nem para desistir, nem para deitar ao chão a toalha –no
seu caso, a bandeira de paladino, de cavaleiro da távola redonda, olhos sempre
bem fixos no Graal que busca.
A velha cidade que
tanta dificuldade tem em emendar-se deve a Américo Rodrigues, o que deverá a
poucos, muito poucos, pouquíssimos guardenses.
Américo Rodrigues atirou-a para a Europa internacionalizou-a; construiu-lhe um Teatro sem fronteiras, o TMG; chamou a ele velhos e jovens; trouxe a Cultura; abanou um cadáver a feder conservadorismo e clericalismo paralisadores, corrupção de politiqueiros sem escrúpulos, oportunistas e analfabetos.
Américo Rodrigues iluminou
a Guarda.
De que modo lhe pagaram
os guardenses?
Desconfio de que
bastante mal –ou com muita hipocrisia e muita mentira e muito lavar de mãos, à
Pilatos de aldeia.
O desaparecimento do Café Mondego é mais um desastre –mais uma vergonhosa nódoa guardense, a somar a muitas cuja limpeza se não vislumbra.

Compreendo o cansaço.
ResponderEliminarEste país desgasta qualquer um!
Manuel,
ResponderEliminarUm mundo bem feio o da mesquinhez. Não percebo como é que este mundo ou esta faceta do mundo seja sempre a vencedora...
Será que Deus está acordado?
Tenho tido imenso trabalho e o tempo diminuto. Peço desculpa pela minha falta de atenção em que me encontro.
Beijinho. :)