Cancioneiro de João Bensaúde
Canção
de Primavera
Eu, dar flor, já não
dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides
de cores!
Que eu, dar flor, já
não dou.
Eu, cantar, já não
canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul,
calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não
canto.
Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste
arripio…
Aquece tu, ó sol,
jardins e prados!
Que eu, é de mim o
frio.
Eu Maio, já não tenho.
Mas tu, Maio,
Vem, com tua paixão
Prostrar a terra em
cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já
não.
Que eu, dar flor, já
não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e
amar..
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em
flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te
chamo?
José Régio in Filho do Homem, Portugália Editora, Lisboa, 1961
Muito bonito!
ResponderEliminarO poema e a pintura!
É esta beleza que ainda nos consola!
Um beijinho.
Isabel, Lembrei um grande poeta, certamente, o maior escritor do nosso séc. XX... e juntei um artista russo muito original que vale a pena procure no google. Bjs.
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