segunda-feira, 13 de maio de 2013

Agarra o dia, virgem e único, como todos os dias!

"Primavera", 1898-1901, óleo de Victor Borisov-Musatov



Cancioneiro de João Bensaúde

Canção de Primavera

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar flor, já não dou.

Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arripio…
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem, com tua paixão
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e amar..
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio in Filho do Homem, Portugália Editora, Lisboa, 1961

2 comentários:

  1. Muito bonito!
    O poema e a pintura!
    É esta beleza que ainda nos consola!
    Um beijinho.

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  2. Isabel, Lembrei um grande poeta, certamente, o maior escritor do nosso séc. XX... e juntei um artista russo muito original que vale a pena procure no google. Bjs.

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