AO MEU CÃO
Deixei-te só, à hora de
morrer.
Não percebi o
desabrigado apelo dos teus olhos.
Humaníssimos, suaves, sábios,
cheios de aceitação
De tudo… e apesar
disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse
perto,
Que, se me fosse, a
mesma era a tua gratidão.
Não percebi a evidência
de que ias morrer
E gostavas da minha
companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a
minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha
grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua
mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado
tudo à vida
E começavas a
debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.
E deixei-te só, à beira
da agonia, tão aflito, tão só e sossegado.
Cristovam Pavia in O Tempo e o Modo, nº 42

É tão bonito!
ResponderEliminarIsabel, sim, é uma muito bela e pungente poesia... Dói. Grande abraço.
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