"Paisagem", 1970, óleo de João Navarro Hogan
Todos nós sabemos que o
artista se equilibra na obra e que essa harmonia o salva, lhe cura as vertigens
e o afasta do poço. Da loucura? Hogan é muito claro:
“Tive e tenho Mário Eloy como um dos grandes pintores
portugueses.
Quando jovem, lembro-me quanto a sua
pintura era desconsiderada, em loucura. Mas, para perceber Mário Eloy, é
preciso alguma vez ter aberto as portas à visceral loucura que nos faz andar ou
ficar imóveis” (1).
Como
ela -a loucura, ou a visão louca das coisas- atravessa, marca
a sua, dele Hogan, melhor pintura!
E
a figura, miníma, frágil -assustada figura humana, que parece ir a recolher-se,
a resguardar-se- volta em Tentações de
Stº Antão, de 1974. O mundo, em redor, é silêncio, indiferença, distância.
Pobre do santo que carrega o destino! E que leva consigo o desejo. Porque as
formas dos quadros de Hogan são sensuais e quentes. Até onde se pode acreditar
nelas?
Creio
que a sua alma era um vendaval que procurava esconder com a disciplina de
artesão –título que de certeza muito prezava. Claramente o aponta Virgílio
Domingues, nas palavras generosas -comovidas, ainda que se contenha- dedicadas
ao camarada de atelier:
“(...) um saber de ofício todo feito de
rigor, de consciência, de sentido de responsabilidade. São qualidades que Hogan
não assumia como um código moral que se impôs, mas que era a sua maneira
natural de estar na vida, sensível até nas relações que estabelecia com as
outras pessoas” (2).
Aponta,
também, Virgílio Domingues a fidalguia do seu trato. Muitas vezes o visitei no atelier do antigo Convento dos Marianos.
O que se trazia de lá? Alegria: o reconforto de assistir ao trabalho de um
homem verdadeiro. Autêntico. Justifica-se especialmente o adjectivo, ao
falarmos de Hogan. Da entrada à saída, tínhamos a certeza de assistir a uma
cerimónia importante: no caso, à cerimónia dos pincéis e das telas, das
espátulas –sacrifício necessário à vida daquele homem. Escrevo a palavra
-sacrifício- porque a impressão de religiosidade pairava no reduzido estúdio.
Não dizia, porém, respeito ao Convento: envolvia Hogan e as suas obras.
Religioso um artista tão carnalmente ligado à terra?
“A minha
paisagem nasce dentro e debaixo da terra. O céu nunca me interessou e às vezes
até o corto.
Fascina-me o constante e imperceptível
movimento do espaço tangível e essa vida interior da terra, das rochas e das
falésias, que a minha pintura quer desocultar” (3).
De
certeza? É da terra que St.º Antão procura resguardar-se ou do céu? O que é que
se move e se agita, tenso e a explodir, debaixo
da terra? No coração dos homens? Cortou
o céu St.º Antão? Não o quis olhar -pois que Hogan, nessa obra, não o
omitiu e o assinalou, baliza da harmonia, sinal de pureza e descanso, mas distante? E de que lhe
serviu fugir-lhe, se ele –céu, que é também terra, vulcânico e metamórfico, céu
em movimento, a ferver na busca de si próprio, voltou a visitá-lo, a invadi-lo,
a tentá-lo, agora próximo, a
correr-lhe no sangue, incorpado em formas esplêndidas ou lascivas, fantasmas
delicados ou monstros sufocantes?
Contemporâneos
da obra-prima Tentações de St.º Antão
-síntese de uma vida de criador- trabalhos como O Jardim das Delícias e outros sem título, em que a alegria
renascentista de viver contraria a tragédia da maioria das suas gravuras. E,
nessas, o céu aparece azul e com pássaros.
Onde
está a verdade?
Não
sei responder –e pouco importa dizer onde. O que sabemos é que existe –e
tortura-nos o modo como se expõe e escapa.
(Evoco
João Navarro Hogan apoiando-me em muito pouco: na memória, numa gravura –Florença, 1967, a única obra que, depois
de Roma, me acompanhou em S. Tomé e me acompanha, agora, em Telavive- e no Catálogo que venho a citar, muito bem
programado, organizado e seleccionado por José Sommer Ribeiro e Maria Helena de
Freitas. Faço, pois, o melhor que posso, tento expressar a impressão de
grandeza que me deixou o artista.)
Notas:
(1)
Catálogo, p.28
(2)
Catálogo, p. 15
(3)
Catálogo, p. 103
continuação
do texto in Memórias, José Régio e Outros
Escritores

Gostei de ler o texto.
ResponderEliminarA pintura é bonita. Acho nela alguma solidão, não sei... Apesar de tudo tem o azul bonito do céu.
Um beijinho
Mais beleza a entrar por esta janela.
ResponderEliminarObrigada pela partilha.
Beijinhos.:)