quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

João Navarro Hogan -II

"Paisagem", 1970, óleo de João Navarro Hogan



Todos nós sabemos que o artista se equilibra na obra e que essa harmonia o salva, lhe cura as vertigens e o afasta do poço. Da loucura? Hogan é muito claro:

“Tive e tenho Mário Eloy como um dos grandes pintores portugueses.
                
Quando jovem, lembro-me quanto a sua pintura era desconsiderada, em loucura. Mas, para perceber Mário Eloy, é preciso alguma vez ter aberto as portas à visceral loucura que nos faz andar ou ficar imóveis” (1).
                
Como ela -a loucura, ou a visão louca das coisas- atravessa, marca a sua, dele Hogan, melhor pintura!
                 
E a figura, miníma, frágil -assustada figura humana, que parece ir a recolher-se, a resguardar-se- volta em Tentações de Stº Antão, de 1974. O mundo, em redor, é silêncio, indiferença, distância. Pobre do santo que carrega o destino! E que leva consigo o desejo. Porque as formas dos quadros de Hogan são sensuais e quentes. Até onde se pode acreditar nelas?
                
Creio que a sua alma era um vendaval que procurava esconder com a disciplina de artesão –título que de certeza muito prezava. Claramente o aponta Virgílio Domingues, nas palavras generosas -comovidas, ainda que se contenha- dedicadas ao camarada de atelier:

“(...) um saber de ofício todo feito de rigor, de consciência, de sentido de responsabilidade. São qualidades que Hogan não assumia como um código moral que se impôs, mas que era a sua maneira natural de estar na vida, sensível até nas relações que estabelecia com as outras pessoas” (2).
           
Aponta, também, Virgílio Domingues a fidalguia do seu trato. Muitas vezes o visitei no atelier do antigo Convento dos Marianos. O que se trazia de lá? Alegria: o reconforto de assistir ao trabalho de um homem verdadeiro. Autêntico. Justifica-se especialmente o adjectivo, ao falarmos de Hogan. Da entrada à saída, tínhamos a certeza de assistir a uma cerimónia importante: no caso, à cerimónia dos pincéis e das telas, das espátulas –sacrifício necessário à vida daquele homem. Escrevo a palavra -sacrifício- porque a impressão de religiosidade pairava no reduzido estúdio. Não dizia, porém, respeito ao Convento: envolvia Hogan e as suas obras. Religioso um artista tão carnalmente ligado à terra?
         
 “A minha paisagem nasce dentro e debaixo da terra. O céu nunca me interessou e às vezes até o corto.
          
Fascina-me o constante e imperceptível movimento do espaço tangível e essa vida interior da terra, das rochas e das falésias, que a minha pintura quer desocultar” (3).
          
De certeza? É da terra que St.º Antão procura resguardar-se ou do céu? O que é que se move e se agita, tenso e a explodir, debaixo da terra? No coração dos homens? Cortou o céu St.º Antão? Não o quis olhar -pois que Hogan, nessa obra, não o omitiu e o assinalou, baliza da harmonia, sinal de  pureza e descanso, mas distante? E de que lhe serviu fugir-lhe, se ele –céu, que é também terra, vulcânico e metamórfico, céu em movimento, a ferver na busca de si próprio, voltou a visitá-lo, a invadi-lo, a tentá-lo, agora próximo, a correr-lhe no sangue, incorpado em formas esplêndidas ou lascivas, fantasmas delicados ou monstros sufocantes?
          
Contemporâneos da obra-prima Tentações de St.º Antão -síntese de uma vida de criador- trabalhos como O Jardim das Delícias e outros sem título, em que a alegria renascentista de viver contraria a tragédia da maioria das suas gravuras. E, nessas, o céu aparece azul e com pássaros.
          
Onde está a verdade?
          
Não sei responder –e pouco importa dizer onde. O que sabemos é que existe –e tortura-nos o modo como se expõe e escapa.
           
          
(Evoco João Navarro Hogan apoiando-me em muito pouco: na memória, numa gravura –Florença, 1967, a única obra que, depois de Roma, me acompanhou em S. Tomé e me acompanha, agora, em Telavive- e no Catálogo que venho a citar, muito bem programado, organizado e seleccionado por José Sommer Ribeiro e Maria Helena de Freitas. Faço, pois, o melhor que posso, tento expressar a impressão de grandeza que me deixou o artista.)

Notas:

(1)            Catálogo, p.28
(2)            Catálogo, p. 15
(3)            Catálogo, p. 103

continuação do texto in Memórias, José Régio e Outros Escritores


2 comentários:

  1. Gostei de ler o texto.
    A pintura é bonita. Acho nela alguma solidão, não sei... Apesar de tudo tem o azul bonito do céu.

    Um beijinho

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  2. Mais beleza a entrar por esta janela.
    Obrigada pela partilha.
    Beijinhos.:)

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