Se falei de “candura” a propósito
de Tomaz de Figueiredo, deverei referi-la, ao recordar João Navarro Hogan. O
pintor chegava à Brasileira por
volta das cinco da tarde, já noutro mundo –ou mais fundamente no seu. Vestido
às três pancadas, olhos inchados, o cigarro pendurado da boca, trazia nos
bolsos do casaco deformado revistas de histórias aos quadradinhos: o Patinhas, o Rato Mickey. Os suspensórios seguravam-lhe mal as calças
amarrotadas e a barriga inchada. Sorria e não tenho a certeza de que
reconhecesse as pessoas ou se olhava para dentro. Reservado? Talvez –porque não
era capaz nem do comércio mundano nem de café e não queria destoar ou
sobressair. Mas, sim, creio que via tudo e observava, com ironia discreta.
“-Ó João! Então lê o Tio Patinhas?!...”
Não
sei se me disse a verdade, quando respondeu:
“-É por causa da qualidade gráfica... Para
aprender...”
E
apontava os bonecos, com os dedos sujos das tintas e encorreados.
Esperavam-no
Virgílio Domingues, Júlio Pereira, o “Júlio Tanoeiro”, a mesa de Hogan era
outra, desviada da mesa de Tomaz de Figueiredo, de Segurado e de Jorge
Barradas, onde se sentava, às vezes, Abel Manta.
Não
virá a propósito –ou virá?, não pensaria Hogan o mesmo?-, mas aponto o
comentário de Abel Manta, num fim de tarde, à esquina da Livraria Sá da Costa:
“-Sabe que mais? Isto é um país do caraças! Um
país onde o peido é maior do que o cu!”
Na esquina do Gualdino Gomes, o gazeteiro
falhado, que João Gaspar Simões detestava, e, dele, me disse:
“-Aí tem você o exemplo chapado da
“intelectualidade portuguesa”! O Gualdino Gomes! Escreveu meia-dúzia de linhas,
encostou-se ao que comeu e ficará na história dos nossos mentideros pela
má-língua... Gastava as calças às mesas da Brasileira, a desancar os outros! Sobretudo a troçar daqueles
que faziam alguma coisa!”
Muito
provável. Mas que bem, ainda hoje, certinha na careca de tanto nosso plumitivo
a resposta que deu a um dos “génios” do seu tempo o qual lhe perguntara,
ansioso:
“-E o meu livrinho, Gualdino? O meu
livrinho?...”
Ele de perna cruzada, a eterna bica à
frente, a palitar os dentes amarelecidos do tabaco:
“-Desnecessário, meu caro,
desnecessário!...”
Nunca
a arte de Hogan atingiu a violência do sarcasmo e denúncia sociais de Virgílo
Domingos; mas o mundo em que vivíamos não o enganava. No dia 26 de Abril de
1974, encontrámo-nos e abraçámo-nos, ao cimo da Rua do Alecrim. De lágrimas nos
olhos, exclamou:
“-Isto caiu de podre, Manel! Caiu de
podre!”
Os
seus caminhos eram camilianos, trágicos. Sim, ele também conhecia e cultivava o
sarcasmo –bem camiliano, repito, e virado contra si próprio:
“A estética neo-realista levou-me até ao
lado dramático da figura”, afirmou, e
cito o Catálogo da exposição no
Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Novembro de 1992 (1).
Terá
levado -e encontramo-las, as figuras dramáticas, nos óleos dos anos cinquenta-; mas o artista soltou-se delas e foi direito ao movimento inexplicável,
incaptável, ciclónico, a seguir-lhe as cores e as formas. Depressa as figuras
se tornam raras, quando não desaparecem. A paisagem -não escolhe o
abstraccionismo-, que se aproxima da mancha pura, do contraste e harmonização
de cores, obceca-o.
“A minha paisagem só aparentemente é uma
repetição. Como num labirinto, ela é dominada por uma obsessão de percorrer
algo que só se pode ir descobrindo, algo que jamais tem fim. Eu sei que não tem
fim” (2).
Percorrer
algo, perseguir algo. Libertar-se nessa correria?
“Ao princípio as minhas paisagens eram
mais de espectáculo. Hoje são mais de subconsciente” (3).
No
entanto, Hogan esclarece:
“Eu pinto de um modo muito planeado. Começo
pela construção geral e só depois vou indo aos detalhes. Uma mobília também se
faz assim. Não se vai começar pelo pé da cadeira (4).
E
lembrará:
“Trabalhei na marcenaria até aos anos 60” (5).
Notas:
(1)
Catálogo, p.
35
(2)
ibidem, p.61
(3)
ibidem, p.103
(4)
ibidem, p.45
(5)
ibidem, p.111
no meu livro Memórias, José Régio e Outros Escritores, edições
quasi/Círculo Católico D'Óperários de Vila do Conde, 2001
no meu livro Memórias, José Régio e Outros Escritores, edições
quasi/Círculo Católico D'Óperários de Vila do Conde, 2001

Manuel,
ResponderEliminarUm início de ano lindíssimo.
Tenho que ver se leio as suas Memórias....
Beijinho e obrigada pela partilha. :)
Ana, foi muito importante para mim a Amizade com Hogan. Em muitos aspectos, ele foi-me Mestre. Um abraço.
ResponderEliminartambém tenho as suas memórias, Manuel, que não li mas fiquei com vontade de ler.
ResponderEliminarachei curiosa a referência ao Júlio Pereira, Júlio "Tanoeiro". era deste meu lado, de Almada?
Luís, uma vez que fez a despesa e comprou o livro aproveite e leia.
ResponderEliminarNão sei se o Júlio Tanoeiro era de Almada, ligo-o a Alfama -mas pode ser de Almada.
Bom ano!
Que sorte tem o Luís Eme que tem o seu livro. Onde o comprou Luís?
ResponderEliminarEu já o li, mas infelizmente ainda não o tenho. Mas ainda hei-de consegui-lo!
Um beijinho e obrigada por esta leitura. Convívio entre pessoas tão interessantes!
vou ler, Manuel.
ResponderEliminaraté por gostar de memórias. quero voltar a ler muito, coisa que não tenho feito nos últimos anos, por outras leituras obrigatórias.
Isabel, comprei-o numa feira do livro, há já algum tempo.
Ok, Luís! Depois diga se gostou. Mais uma vez, Bom Ano (quanto se pode ter, nesta tormenta...).
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