quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

João Navarro Hogan: abrir o ano lembrando um grande pintor -I

João Navarro Hogan: auto-retrato


Se falei de “candura” a propósito de Tomaz de Figueiredo, deverei referi-la, ao recordar João Navarro Hogan. O pintor chegava à Brasileira por volta das cinco da tarde, já noutro mundo –ou mais fundamente no seu. Vestido às três pancadas, olhos inchados, o cigarro pendurado da boca, trazia nos bolsos do casaco deformado revistas de histórias aos quadradinhos: o Patinhas, o Rato Mickey. Os suspensórios seguravam-lhe mal as calças amarrotadas e a barriga inchada. Sorria e não tenho a certeza de que reconhecesse as pessoas ou se olhava para dentro. Reservado? Talvez –porque não era capaz nem do comércio mundano nem de café e não queria destoar ou sobressair. Mas, sim, creio que via tudo e observava, com ironia discreta.

              
“-Ó João! Então lê o Tio Patinhas?!...
              
Não sei se me disse a verdade, quando respondeu:
              
“-É por causa da qualidade gráfica... Para aprender...”
              
E apontava os bonecos, com os dedos sujos das tintas e encorreados.
              
Esperavam-no Virgílio Domingues, Júlio Pereira, o “Júlio Tanoeiro”, a mesa de Hogan era outra, desviada da mesa de Tomaz de Figueiredo, de Segurado e de Jorge Barradas, onde se sentava, às vezes, Abel Manta.
              
Não virá a propósito –ou virá?, não pensaria Hogan o mesmo?-, mas aponto o comentário de Abel Manta, num fim de tarde, à esquina da Livraria Sá da Costa:
               
“-Sabe que mais? Isto é um país do caraças! Um país onde o peido é maior do que o cu!”

Na esquina do Gualdino Gomes, o gazeteiro falhado, que João Gaspar Simões detestava, e, dele, me disse:
                
“-Aí tem você o exemplo chapado da “intelectualidade portuguesa”! O Gualdino Gomes! Escreveu meia-dúzia de linhas, encostou-se ao que comeu e ficará na história dos nossos mentideros pela má-língua... Gastava as calças às mesas da Brasileira, a desancar os outros! Sobretudo a troçar daqueles que faziam alguma coisa!”
                
Muito provável. Mas que bem, ainda hoje, certinha na careca de tanto nosso plumitivo a resposta que deu a um dos “génios” do seu tempo o qual lhe perguntara, ansioso:
                
“-E o meu livrinho, Gualdino? O meu livrinho?...”
                
Ele de perna cruzada, a eterna bica à frente, a palitar os dentes amarelecidos do tabaco:
                
“-Desnecessário, meu caro, desnecessário!...”
                
Nunca a arte de Hogan atingiu a violência do sarcasmo e denúncia sociais de Virgílo Domingos; mas o mundo em que vivíamos não o enganava. No dia 26 de Abril de 1974, encontrámo-nos e abraçámo-nos, ao cimo da Rua do Alecrim. De lágrimas nos olhos, exclamou:
                
“-Isto caiu de podre, Manel! Caiu de podre!”
                
Os seus caminhos eram camilianos, trágicos. Sim, ele também conhecia e cultivava o sarcasmo –bem camiliano, repito, e virado contra si próprio:

“A estética neo-realista levou-me até ao lado dramático da figura”, afirmou, e cito o Catálogo da exposição no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Novembro de 1992 (1).

Terá levado -e encontramo-las, as figuras dramáticas, nos óleos dos anos cinquenta-; mas o artista soltou-se delas e foi direito ao movimento inexplicável, incaptável, ciclónico, a seguir-lhe as cores e as formas. Depressa as figuras se tornam raras, quando não desaparecem. A paisagem -não escolhe o abstraccionismo-, que se aproxima da mancha pura, do contraste e harmonização de cores, obceca-o.
               
 “A minha paisagem só aparentemente é uma repetição. Como num labirinto, ela é dominada por uma obsessão de percorrer algo que só se pode ir descobrindo, algo que jamais tem fim. Eu sei que não tem fim” (2).
                
Percorrer algo, perseguir algo. Libertar-se nessa correria?

“Ao princípio as minhas paisagens eram mais de espectáculo. Hoje são mais de subconsciente” (3).
               
No entanto, Hogan esclarece:

Eu pinto de um modo muito planeado. Começo pela construção geral e só depois vou indo aos detalhes. Uma mobília também se faz assim. Não se vai começar pelo pé da cadeira (4).

E lembrará:

“Trabalhei na marcenaria até aos anos 60” (5).

Notas:

(1)            Catálogo, p. 35
(2)            ibidem, p.61
(3)            ibidem, p.103
(4)            ibidem, p.45
(5)            ibidem, p.111

no meu livro Memórias, José Régio e Outros Escritores, edições
quasi/Círculo Católico D'Óperários de Vila do Conde, 2001

7 comentários:

  1. Manuel,
    Um início de ano lindíssimo.
    Tenho que ver se leio as suas Memórias....
    Beijinho e obrigada pela partilha. :)

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  2. Ana, foi muito importante para mim a Amizade com Hogan. Em muitos aspectos, ele foi-me Mestre. Um abraço.

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  3. também tenho as suas memórias, Manuel, que não li mas fiquei com vontade de ler.

    achei curiosa a referência ao Júlio Pereira, Júlio "Tanoeiro". era deste meu lado, de Almada?

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  4. Luís, uma vez que fez a despesa e comprou o livro aproveite e leia.

    Não sei se o Júlio Tanoeiro era de Almada, ligo-o a Alfama -mas pode ser de Almada.

    Bom ano!

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  5. Que sorte tem o Luís Eme que tem o seu livro. Onde o comprou Luís?

    Eu já o li, mas infelizmente ainda não o tenho. Mas ainda hei-de consegui-lo!

    Um beijinho e obrigada por esta leitura. Convívio entre pessoas tão interessantes!

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  6. vou ler, Manuel.

    até por gostar de memórias. quero voltar a ler muito, coisa que não tenho feito nos últimos anos, por outras leituras obrigatórias.

    Isabel, comprei-o numa feira do livro, há já algum tempo.

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  7. Ok, Luís! Depois diga se gostou. Mais uma vez, Bom Ano (quanto se pode ter, nesta tormenta...).

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