sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Pierrot le fou






Decidi rever o filme de Jean Luc-Godard, ‘Pierrot le fou’, datado de 1965 (três anos antes do agitado Maio de 1968).

Na altura, escrevi um artigo para o extinto ‘Diário Popular’, cuja cópia andará por aí e irei procurar.

O que pretendia era compreender a razão por que me apaixonara a história que, na altura, vi e tornei a ver cinco vezes.

Interrogar-me: ainda tem cabimento, hoje?

Reencontrei o problema de viver num mundo superficial, convencional, estéril, que tende a castrar e absorver os jovens, despojá-los dos ideais, do sonho e de paixão.

A conjuntura modificou-se?

Certamente.

O canibalismo da sociedade refinou. A pessoa tem, hoje, mais dificuldades -muito mais dificuldade- em preservar e salvar a sua individualidade.

Em ser uma pessoa –na unicidade, singularidade, diferença.

A máquina monstruosa, que referiu Chaplin, em ‘Tempos Modernos’, o deserto envenenado, transformado em polvo sufocante –alargou: é quase todo o mundo.

Está quase em toda a parte.

É o quotidiano, em que, durante o breve tempo da juventude, gesticulamos e, depois, pouco a pouco, soçobramos.

Há 45 anos, matavam-se os homens, no Vietname e em muitos outros sítios; hoje, matam-se no Afeganistão e no Iraque.

As guerras de há 45 anos chocavam os heróis de Godard.

Para Pierrot, aliás Ferdinand, e Marianne Renoir, aliás e muito simplesmente Marianne, não tinham sentido.

Ofendiam a sua inocência: a candura da procura e do amor.

Escureciam os dias.


E constatavam que viviam no universo da gratuitidade –eles que buscavam uma vida com a autenticidade dentro

Senti, outra vez, grande pena de Pierrot e Marianne –e a vontade de os abraçar e proteger, solidário.

Hoje, muitos acabarão de morte macaca, tal qual Pierrot e Marianne –ou imbecilizados, tal qual a massa amorfa, formatada, obscena, de que Pierrot e Marianne tentaram fugir.

Haverá, porém, aqueles que recomeçarão e continuarão a luta para salvar o mundo e repudiar a hipocrisia.

Coisa que compete a todo o jovem que se respeita a si próprio e respeite os outros.
E compete a toda a pessoa que como tal se tenha.

2 comentários:

  1. Olá, Manuel,

    Parabéns por este belo comentário a respeito de 'Pierrot le Fou'! Este é um filme pelo qual tenho grande apreço. Eu, como jovem, sinto a necessidade da luta, da mudança, da fuga da hipocrisia que existe nas "masssas", naquilo que se toma por opinião pública e consensual.

    Um grande abraço,
    Rafaela.

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  2. É um excelente sinal, a sua "necessidade de luta, de mudança, da fuga à hipocrisia". Combata aquilo que corrompe.

    E tenha presente o que disse Salinger (autor que lhe aconselho): "todos nós crescemos, mas a maioria de nós limita-se a envelhecer".

    A envelhecer conformado, desistente...

    Recuso isso! Não envelheça!!!

    Cá a espero mais vezes. Um grande abraço!

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