terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Uma história que poderia ser um conto de Natal


"Anunciação", pormenor, obra de Giovanni Bellini


A mão de Deus


À memória de Luciana Piai, bela veneziana, jovem mulher pura, amiga fiel, morta antes do tempo, com a saudade e a ternura que me ficaram para sempre


- A vida custa! –desabafou Alfredo.

Sempre que saía de casa e ia respirar ar puro àquele cafezinho da Malveira, a espreitar a serra de Sintra, encontrava o Alfredo. É um homem bom, vindo de Chaves, que estudou e se reformou professor universitário. 

Tem o hábito de tirar e pôr os óculos de falsa tartaruga, olhar o infinito, e dizer essas coisas profundas. Depois, suspira e goza a própria lucidez. 

Conhecemo-nos há muitos anos: desde a Faculdade. 

Era pobre, mas casou rico. Hoje, além dos óculos, arranjou um modo de viver com os outros: a condescendência. Porquê? Porque há no fundo dele, na barriguinha dele, no umbigo, o sonho de poder ser condescendente, generoso, paternal. 

Dos bancos da Faculdade, ficou-me vê-lo saltar para o palco do anfiteatro maior e gritar uns versos épicos, entusiásticos, lusitanos; do dia-a-dia, lembro, com meiga ironia, o seu improvisado francês e a obsessão de uma senhora, que nunca conheci, a quem chamava “a minha marrraine”, com três erres.

- É verdade, Alfredo, a vida custa.

Foi quando ele tirou os óculos e me fitou, incisivo:

- Não tenhas dúvidas! Isto é uma pouca vergonha! Ainda agora…

E falou-me do que já lhe roubara o governo, a ele, Alfredo, catedrático jubilado, latinista conhecido e admirado.

-E citado! –sublinhou.

Graças a Deus o sogro, senhor de uma rede hoteleira, ainda era vivo e o negócio prosperava. Se não!

- Vivo e rico! -sublinhava Alfredo.

E a mulher aplaudia, na casa que o sogro lhes oferecera e onde viviam os dois com os filhos.

- Se não fosse isso!

Não lhe perguntei o que seria se não fosse isso. 

Na mesa ao lado, estava uma senhora, com o neto.

- Quantos anos tem o seu neto?

- Oito. E já é um maroto.

Criança como as outras, feliz e a tirar do bolso da avó o que ela desse.

- Ó avó, custa só cinquenta cêntimos! Dá lá…. Anda…

- Não dou, pago depois.

E ele foi e voltou com três tabletes de chocolate.

-Três?! –exclamou a avó.

O dono do café, embaraçado, justificou o garoto:

- Ele quis, eu deixei… Crianças. E, depois, três euros…

A avó fingiu que se zangava.

- Ó meu malandro!

O miúdo riu-se e fugiu: sentou-se fora, a olhar para a Serra.

- A vida custa! – repetiu o Alfredo.

E eu comentei, para que não ficasse sozinho:

- Ai custa, custa!

Agarrou logo:

- Achas que isto vai piorar?

- Com certeza!

- E vão tirar-nos mais dinheiro?!

- Cada dia mais.

O Alfredo levantou-se e sentou-se, tirou e pôs os óculos:

- Estou indignado!

O miúdo continuava nas escadas, a morder as tabletes.

-Graças a Deus! Graças a Deus! O meu sogro ajuda-nos! E com mil demónios, também sou gente! Professor Universitário! Jubilado! E roubam-me!!! Depois de uma vida de trabalho!

Espreitou-me, desconfiado.

- A ti não te roubam?

Alfredo tinha estudado em Lisboa e alugara um quarto para os lados da Amadora. Subira na vida, realmente, a pulso e olho esperto.

-A vida custa! Sai-nos do corpo! –insistiu.

O miúdo voltara para dentro e fiz-lhe uma festa na cabeça, eu que não tenho netos, nem penso vir a ter. 

Tenho um metro e oitenta e a criaturinha, algum metro e meio.

Senti, no meu braço, uma carícia discreta: era a criança a retribuir-me o gesto.

Pensei em Deus, no menino Jesus, naqueles que ainda não morreram vivos e não queimam todos os dias a alma. Sim: marejaram-se-me os olhos.

- Isto é indecente! Indecente!

A lengalenga do Alfredo.

E pensei, também, que o Alfredo era, apenas, um velho e aquele breve afago me aquecia. Acreditei que isto é mais do que isto, enquanto aquela criança não crescer.
Porque o andar dos anos quase sempre destrói a pureza e fabrica Alfredos.

Natal de 2013



2 comentários:

  1. E depois a criança cresce e que acontece?... Talvez ajude a mudar o mundo para melhor, a evitar que o mundo seja, para muitos, apenas um lugar de solidão.

    Adorei este conto, que podia ser de Natal.

    Um beijinho grande e um Natal muito feliz! :)

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  2. Infelizmente, quando crescemos perdemos a bondade e a poesia.

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