"Anunciação", pormenor, obra de Giovanni Bellini
A mão de Deus
À memória de Luciana
Piai, bela veneziana, jovem mulher pura, amiga fiel, morta antes do
tempo, com a saudade e a ternura que me ficaram para sempre
- A vida custa! –desabafou Alfredo.
Sempre que saía de casa e ia respirar ar puro àquele cafezinho
da Malveira, a espreitar a serra de Sintra, encontrava o Alfredo. É um homem
bom, vindo de Chaves, que estudou e se reformou professor universitário.
Tem o
hábito de tirar e pôr os óculos de falsa tartaruga, olhar o infinito, e dizer essas
coisas profundas. Depois, suspira e goza a própria lucidez.
Conhecemo-nos há
muitos anos: desde a Faculdade.
Era pobre, mas casou rico. Hoje, além dos
óculos, arranjou um modo de viver com os outros: a condescendência. Porquê?
Porque há no fundo dele, na barriguinha dele, no umbigo, o sonho de poder ser condescendente,
generoso, paternal.
Dos bancos da Faculdade, ficou-me vê-lo saltar para o palco
do anfiteatro maior e gritar uns versos épicos, entusiásticos, lusitanos; do dia-a-dia,
lembro, com meiga ironia, o seu improvisado francês e a obsessão de uma
senhora, que nunca conheci, a quem chamava “a minha marrraine”, com três erres.
- É verdade, Alfredo, a vida custa.
Foi quando ele tirou os óculos e me fitou, incisivo:
- Não tenhas dúvidas! Isto é uma pouca vergonha! Ainda agora…
E falou-me do que já lhe roubara o governo, a ele, Alfredo,
catedrático jubilado, latinista conhecido e admirado.
-E citado! –sublinhou.
Graças a Deus o sogro, senhor de uma rede hoteleira, ainda
era vivo e o negócio prosperava. Se não!
- Vivo e rico! -sublinhava Alfredo.
E a mulher aplaudia, na casa que o sogro lhes oferecera e onde viviam os dois com os filhos.
- Se não fosse isso!
Não lhe perguntei o que seria se não fosse isso.
Na mesa ao
lado, estava uma senhora, com o neto.
- Quantos anos tem o seu neto?
- Oito. E já é um maroto.
Criança como as outras, feliz e a tirar do bolso da avó o que
ela desse.
- Ó avó, custa só cinquenta cêntimos! Dá lá…. Anda…
- Não dou, pago depois.
E ele foi e voltou com três tabletes de chocolate.
-Três?! –exclamou a avó.
O dono do café, embaraçado, justificou o garoto:
- Ele quis, eu deixei… Crianças. E, depois, três euros…
A avó fingiu que se zangava.
- Ó meu malandro!
O miúdo riu-se e fugiu: sentou-se fora, a olhar para a Serra.
- A vida custa! – repetiu o Alfredo.
E eu comentei, para que não ficasse sozinho:
- Ai custa, custa!
Agarrou logo:
- Achas que isto vai piorar?
- Com certeza!
- E vão tirar-nos mais dinheiro?!
- Cada dia mais.
O Alfredo levantou-se e sentou-se, tirou e pôs os óculos:
- Estou indignado!
O miúdo continuava nas escadas, a morder as tabletes.
-Graças a Deus! Graças a Deus! O meu sogro ajuda-nos! E com
mil demónios, também sou gente! Professor Universitário! Jubilado! E roubam-me!!!
Depois de uma vida de trabalho!
Espreitou-me, desconfiado.
- A ti não te roubam?
Alfredo tinha estudado em Lisboa e alugara um quarto para os
lados da Amadora. Subira na vida, realmente, a pulso e olho esperto.
-A vida custa! Sai-nos do corpo! –insistiu.
O miúdo voltara para dentro e fiz-lhe uma festa na cabeça, eu
que não tenho netos, nem penso vir a ter.
Tenho um metro e oitenta e a criaturinha,
algum metro e meio.
Senti, no meu braço, uma carícia discreta: era a criança a
retribuir-me o gesto.
Pensei em Deus, no menino Jesus, naqueles que ainda não
morreram vivos e não queimam todos os dias a alma. Sim: marejaram-se-me os olhos.
- Isto é indecente! Indecente!
A lengalenga do Alfredo.
E pensei, também, que o Alfredo era, apenas, um velho e aquele breve afago
me aquecia. Acreditei que isto é mais do que isto, enquanto aquela criança não
crescer.
Porque o andar dos anos quase sempre destrói a pureza e fabrica Alfredos.
Porque o andar dos anos quase sempre destrói a pureza e fabrica Alfredos.
Natal de 2013
E depois a criança cresce e que acontece?... Talvez ajude a mudar o mundo para melhor, a evitar que o mundo seja, para muitos, apenas um lugar de solidão.
ResponderEliminarAdorei este conto, que podia ser de Natal.
Um beijinho grande e um Natal muito feliz! :)
Infelizmente, quando crescemos perdemos a bondade e a poesia.
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