quinta-feira, 5 de julho de 2012

A tragédia portuguesa

"Bailarico no bairro", 1936, óleo de Mário Eloy 


…essa maneira desgraçada de não sermos nós…

de aceitarmos o maldito fado, de esperarmos os milagres, de renunciarmos…

de, para resolvermos o problema da nossa agudíssima consciência da violência da vida e do silêncio de Deus, do fantasma do absurdo, desprezarmos e diminuirmos os dias, virando as costas à grandeza deles…

Afinal, esse modo funesto de recusarmos assumir a aventura e o risco do milagre de estar vivo.

Quantas vezes isso me revolta e desespera –porque sou português e nunca, em parte alguma, vi um povo tão bom e assim louco e trágico, noivo do suicídio a cada hora.

Transcrevo as palavras de Sebastião da Gama, no “Diário” (será que vamos ouvi-las?):

“A gente tem vergonha de beijar tudo, de amar as flores, de se enternecer com os animais, de dar um passeio… Ó Portugueses, é tempo de torcer o pescoço ao respeito humano! Olhai que nós somos bons e talvez seja verdade que somos poetas –e isso não deve ser desprezado, mas antes manifestado. Começai a ser sinceros, deixai de ser irónicos, e vereis como tudo corre melhor e a vida tem outro sabor!”

6 comentários:

  1. A pintura é muito bonita e as palavras de Sebastião da Gama hoje deixam-me a pensar. Porque "Começar a ser sinceros", não significa ter que "torcer o pescoço ao respeito humano".

    Um beijinho

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  2. Manel,
    Partilho a sua revolta angustiada!
    Um beijinho amigo
    Luísa

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  3. Uma mensagem bem pertinente e com a qual estou inteiramente de acordo.
    Bons dias pela Guarda!:)

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  4. Agora, para a Isabel, também a mim me surpreendeu, mas entendo como recusar um excesso de medo de recusar aos outros a mentira. O respeito humano é absoluto; a mentira humana é um crime. Sebastião enganou-se, trocou as coisas, mas é perdoável num jovem apaixonado.

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  5. Ana, amanhã é outro dia e depende de nós!

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