"Janela aberta", 1886, óleo de Valentin Serov
DIÁRIO MOSCOVITA
Sentimento de um
português na Rússia
6 de Agosto de 2004
Entro no avião da
Lufthansa directo a Franqueforte e reparo numa das hospedeiras. É uma mulher de
estatura média, cabelo curto loiro. Já não é jovem. Tem o rosto fechado de
profissional alemã, correcta e atenciosa. Sorrio-lhe, porque inicio a longa
viagem para Moscovo, a cabina, climatizada, parece confortável e se trata de
uma mulher diferente das do meu país. Afinal, mais reservada, severa e
distante. Mas, quando responde ao meu sorriso, os olhos azuis transformam-se,
doces, envolventes, familiares, e eu lembro-me da actriz da minha adolescência,
que me apaixonava, no velho cinema da Guarda: Maria Schell. Ah, sim, a mesma
ternura dilacerada, comovente... Seria difícil dizer a sua idade. Há na
expressão desta desconhecida, neste instante, apelo, afirmação. Oferta. Como se
quisesse comunicar-me qualquer coisa, por exemplo, que estava ali, existia,
guardava, dentro, um mundo e podia dividi-lo. Andou para trás uns anos,
rejuvenesceu. Sempre pensei que, se a procurarmos, a criança que fomos,
escondida dentro de nós, reaparece. Brevemente. O átimo em que a eternidade se
revela?
Antes
de embarcar, disse a uma jovem amiga, que se queixava do sem sentido da vida e
que me perguntara qual o destino das nossas experiências: “Não sei. Talvez
nenhum, à luz da razão, do nosso entendimento das coisas. Tempo? Espaço?
Destino? Que sabemos disso? As nossas certezas e convicções o que valem? Sei
que foi uma sorte o acaso que trouxe o bocadinho de vida que nos cabe.
Revelaram-se a beleza e a harmonia. Qual o sentido? Não sei. E não vale a pena
pesar e medir nada. É inútil, nem aquece nem arrefece. Resta-nos entregarmo-nos
ao instante”. Com a imprudência da hospedeira alemã. Enquanto formos capazes.
Ela
já perdeu o sorriso e o rosto voltou ao que o tempo lhe pôs em cima. Os
músculos da face cederam, o brilho do olhar apagou-se. Ainda me sorri, hesita,
mas o meu lugar não pertence à zona que lhe confiaram. Até Franqueforte,
constatei que era uma funcionária eficiente.
À mesa do incaracterístico café de aeroporto – o
“Goethe”-, espero a empregada. Fazem-me companhia três asiáticos –de
Singapura?, da Tailândia?, da China? Sem cerimónias, bebem cerveja e riem. A
menina chega e eles querem pagar. Acena-lhes que esperem e toma nota do whisky
com água lisa, que eu lhe peço. Noto que o faz porque são asiáticos e gesticulam de maneira insólita –grosseira,
segundo um europeu do Norte. A menina não tem culpa, mas eu lembro-me dos
campos: Auschwitz, Dachau... Lembro os diferentes. A exclusão. O recuo, face ao
outro. A alterofobia. A menina não tem culpa, retribuo-lhe a delicadeza, também
eu impaciente. A refugiar-me no meu egoísmo. Horror à massificação? Fuga?
Alterofobia? Um sentimento comum, que tentei corrigir -e continuo a tentar-,
através de viagens, convívio, vivências. Esse sentimento não morreu e o mundo
que criámos exacerbou-o. Já perdemos o hábito de viver com os outros –ou nos
servem ou não nos servem. Educamo-nos, assim. O outro é um parceiro no jogo do lucro
e da indiferença –ou um inimigo, ou um concorrente. Os judeus eram
concorrentes, segundo Hitler e
contemporâneos. São, ainda hoje, inimigos só por serem judeus? Afinal,
como os árabes, os negros, os imigrantes... Os asiáticos do “Goethe” nem deram
por nós, pela menina e por mim. É o mesmo, não é verdade?
No avião para
Moscovo: tenho sorte, quase vazio. Reabro o livro, que abandono: “De la
Russie”, de Youri Afanassiev. Custa-me ler, durante as viagens, interessam-me
as pessoas. A mulher, na fila da frente, à minha direita. Alta, esbelta, olhos
cor de mar, conversa, em russo, com a amiga. Agita as mãos e os braços. Tem a
expressão determinada, sabe o que quer. A outra é calma, doce, leva o filho,
uma criança, trata-o com meiguice. De costas, só lhe distingo o cabelo loiro
(levanta-se e puxa um saco de lona, é baixa e gordinha). A magra explica-me que
não se encontravam há vinte anos, trabalha em Orvieto e a amiga vive em
Nova-Iorque. Em Orvieto?! Fala um italiano perfeito. “Falo inglês, espanhol...”
Russa? Se a encontrasse num café de Telavive acharia natural. Adivinha e
antecipa-se: “Sou um quarto judia”. Precisa: “Vinte e cinco por cento.” Nina
Malievine. Conhece Umberto Saba, Svevo, viu os filmes de Visconti e, obviamente
-lê-se-lhe nos olhos ansiosos-, os de Antonioni. É independente, pagou caro a
independência. Vejo as cicatrizes. Digo-lhe? “Sim, acertou...”, responde-me, em
italiano, fica entre nós. E acrescenta: “Telefone-me domingo de manhã, segunda
já estarei em Petersburgo. Jantamos com uns amigos. E se for a Petersburgo, não
deixe de visitar a casa de Puschkine, na Fontanka. É o maior escritor russo!
Maior que Dostoievski... Puschkine é tão directo!”
8 de Agosto
Não telefono a
Nina. Passo a manhã de domingo na Feira da Ladra, a Ismaylovo. Almoço, numa
barraca, a excelente sopa do Uzbequistão, funcho, cebola crua, paprika, carne de vaca, cenoura,
abóbora, esparguete cortado e iogurte, tudo muito bem apurado, em panela
monumental. Os parceiros de mesa brindam, cálices erguidos, nasdarovie!, “à saúde!” E noto a
solidariedade, o acolhimento espontâneos. Volto aos atalhos de Ismaylovo, no
grande bazar, sobressaem os quadros: figurativos, impressionistas, abstractos,
imitações de ícones. Técnica perfeita. Algumas paisagens admiráveis, que o mau
gosto turístico não condicionou. Escolho a pequena tela “No Alto Volga”, de um
artista que vem de fora de Moscovo. Tardo impressionismo. Sensibilidade: a
falésia ocre, a meio da mancha do arvoredo, o farol, as águas encrespadas, um
barco, em que ressaltam a proa de um azul mais claro do que o do rio e, na
popa, a cabina de comando, iluminada, as nuvens, brancas, violetas, cinzentas,
a outra margem, distante, escura, imprecisa, o céu tempestuoso. Demoro-me nas
bugigangas, antiguidades autênticas e de ontem, molduras, roupas, lembranças de
época recente, da União Soviética, fotografias delidas, namorados, um senhor
barbudo, de sobrecasaca preta e chapéu alto, a dama elegante, um ramo de flores
encostado ao peito cheio, que espera nunca saberemos por quem, uma praça de
Moscovo, postais, que alguém escreveu e
alguém juntou, ali esquecidos. Nostalgia.
11 de Agosto
Visito o Convento
de Novodevichiy e, à entrada, depara-se-me a Capela funerária dos Prokhorov. Um
pequeno edifício de paredes brancas, desenhado em dois planos de quatro arcos
bizantinos, a cúpula doirada, contra o azul
do céu. Singelo e atraente, por isso. Mas o segredo esconde-se lá
dentro: a monja, vestida de preto, que conta uma história a duas senhoras.
Escutam-na, religiosamente. É uma mulher de idade, rosto e mãos de camponesa,
muito viva. Está sentada atrás de um
mesa cheia de livros e postais, de folhas escritas. O que ela diz não entendo.
E, apesar disso, não consigo desviar o olhar. A música da voz -o russo é uma
língua musical, enleante-, a convicção, os gestos, teatrais e ingénuos,
prendem-me, tal qual me fascinam as duas senhoras. Há, na monja, a humanidade
profunda dos eleitos, que não se sabem escolhidos. Há generosidade, poesia –tão
terrena e imaterial! O lirismo dos simples, que lhes confia Deus. E os olhos
ficaram-me marejados: diante, tinha a Santa Rússia –a de Puschkine,
Dostoievski, Tchekhov. A Rússia imensa e misteriosa, espiritual e concreta,
violenta e poética. A Rússia a que Tolstoi se entregou, agonizante e sozinho,
no apeadeiro perdido de Astapovo. Gostaria de lhe beijar as mãos ou de as
apertar nas minhas. De nunca mais a perder –porque ia perder, quando me fosse
embora.
Nas costas do
Convento, a Sul, o Cemitério, onde repousam figuras gradas das artes e da
política russa. O túmulo de Gogol, com a estátua grandiosa. Pergunto ao jovem
pintor que a copia: “Tchekhov?” Acena a uma campa rasa, coberta de flores, logo
atrás. Nem estátua, nem imagem: um arremedo de muro branco, coberto por um
manto verde, três coruchéus de ferro, pobre esboço de cenário teatral, modesta
memória do dramaturgo que ele foi. Não choca. Viveu tão discretamente! Escreveu
tão simplesmente! Morreu tão docemente! A beleza das suas histórias é tão
delicada! À noite, assistirei, na Escola de Teatro Contemporâneo, à peça A Gaivota. Uma das personagens, o
novelista Trigorin (Tchekov) ironiza: “O público lê-me e diz: “Bonito, escrito
com muita inteligência... Mas inferior a Tolstoi... Belo trabalho, mas inferior
a Turgueniev...” E sofria (Tchekhov), por isso. Hofmannsthal: “É preciso
esconder a profundidade. Onde? Na superfície.”
O teatro-estúdio
está cheio, pessoas de todas as idades e condição social. A peça é apresentada, essencialmente: espectadores dispostos em
duas bancadas de três filas, uma de cada lado da sala, ao longo da passadeira
que une dois espaços: interiores da casa de Petrosha e o jardim, ocupado pelo
palco improvisado, em que se apresentará a obra de Kostia. A Gaivota depende do talento dos actores. Sem compreender as
deixas, eles arrebatam-me. É, também, a emoção de assistir a uma peça de
Tchekhov, na Rússia. Mas actores destes encantam.
Há,
em Moscovo (catorze milhões de habitantes), dezenas de grupos e de teatrinhos.
Aliás, sente-se a força cultural da cidade: teatro, cinema, bailado, concertos
musicais. A corrida aos livros, vendidos a preços baixíssimos (de bolso a 2
euros; edições normais e traduções de autores estrangeiros, a 4, 5 euros). O
gosto pela leitura, topo-o no metropolitano, nos eléctricos, nos cafés. A
defunta União Soviética promoveu a leitura, a música, o bailado. Condicionada,
embora, ferozmente vigiada, policiada, censurada (daí, o deserto da criação, o
caso Pasternak e a forçada renúncia do escritor ao Nobel, o degredo, o
desaparecimento esquisito -Isaac Babel- e o exílio de outros), a prática
generalizou-se. A alma russa não se deixou sufocar, sobreviveu à dureza dos
anos. Hoje, voltam à luz do dia, autores esquecidos na clandestinidade e no
purgatório, Dostoievski, Ivan Bunine, Achmatova, Bulgakov, revelam-se
escritores, músicos, realizadores de cinema. A Santa Rússia não dorme –sinto
bater o coração.
14 de Agosto
Ivan Bunine
(1870-1953), velha admiração, descoberta na Guarda, na Papelaria do Sr.
Casimiro, Amor que santifica, editado
pela saudosa “Inquérito”, à qual, em boa hora, João Gaspar Simões serviu de
conselheiro. Leio o último livro de contos do grande escritor, exilado, em
França, desde 1920, primeiro Nobel russo, em 1933, Les Allées Sombres (Biblio,
Poche). Em 1910, o romance A Aldeia,
um êxito, que trata a condição dos camponeses (também ele conhecia o povo, os
humilhados e ofendidos), consagrara-o. Anos depois, marginalizaram-no, não
perdoaram a independência: a recusa frontal da revolução bolchevista, o
afastamento do experimentalismo literário, do futurismo, de Maiakovski,
Essenine, Achmatova, cujo triunfo duraria pouco, afastados, eles também –de que
maneira!-, pelo didáctico e obrigatório realismo
socialista ou o medo da singularidade. Bunine continuou, até à
morte, fiel a si próprio. Beleza das descrições (amava, carnalmente, a Rússia,
quanto não sofreu, ao abandoná-la!), poesia, complexidade das personagens –tudo
isso faz o seu génio. Mas quero inclinar-me diante da verticalidade:
respeitou-se, perseverou, contra ventos e marés, ergueu uma obra única.
Atravessou modas, desprezou dogmas,
coerente, livre –coisa extraordinária.
O mar de gente,
mais de três milhões de automóveis, eléctricos, autocarros, o moscovita corre,
não anda. O metropolitano tentacular, com estações que são obras de arte.
Árvores, muitas árvores. Procuro entender: gente próxima de nós, isenta,
felizmente, da insegurança e da opinião alheia, complexos que nos anquilosam.
Reservada, aparentemente brusca (um sorriso e a doçura salta) mas tranquila e
generosa, romântica e sonhadora. Tensa, ansiosa. Complexa, como os seus
artistas, e frequentadora de cafés e amante do convívio.
Raparigas muito
belas, loiras, esguias, corpos flexíveis, frágeis, diria pássaros, um golpe e
quebravam. Olhos de azul celeste. Aprenderam a dançar ou seria impossível a
correcção e a elegância das atitudes. E o latino abre a boca, pascácio, e
passa-lhes ao lado. O latino é, por natureza, machista –e não leu os poetas
russos. Elas saíram dessas páginas. Não vale a pena demorar-me no salivar dos
lorpas. Elas ignoram-nos. Animam as ruas, os cafés, os teatros, as praças de
Moscovo, enriquecem, aquecem a alma. (Nesta megapolis
permissiva, obviamente, é possível experimentar, tudo quanto se deseje).
As novelas de Irina
Denejkina, 22 anos, Dá-me! Song for Lovers. Agarram. Retrato da juventude que sofre as consequências da mudança, da
crise social, o deserto de valores. Uma juventude que ama, esbraceja, se agride
e destrui. Irina (imagino-a indefesa e exposta, preço da sinceridade) acusa:
“Tudo é pó, tudo é glória vã, tudo é mentira”. Aflige-me e não posso abraçá-la
–é só um livro. Reage: “A vida é extraordinária e surpreendente”. Pudesse eu
sarar a dúvida, que não a larga! Mai-la raiva e a solidão, a fuga. Luta e
grita. Álcool, droga, camas de acaso... Song for lovers. Quem ama os amantes que falham o milagre da própria juventude? Não têm
rugas, são belos, os músculos respondem, os cabelos vão com o vento, tal qual
as mãos, que se procuram, se encontram, se apertam e se largam, e as bocas
imaculadas, que se beijam, sempre insatisfeitas e inconscientes, os corpos
misturados, hiantes, e logo abandonados à ternura que ninguém colhe. Sangram,
na estrada.
Antologia de
autores russos contemporâneos -muito mais velhos do que a Denejkina-,
organizada por Viktor Erofeev e traduzida, para o italiano por Marco Dinelli.
Não me interessam. Estéreis, circenses, insinceros. Outra forma de fuga
–experimentalismo serôdio, repetição do que se disse e se tentou, há quase um
século: Maiakovski, Marinetti... Outra face da crise de identidade, comum, no
fim e ao cabo, a muita literatice nossa. Ouvi, em Moscovo, a intelectuais
cultores dessa nova linguagem, que Dostoievski é um escritor menor,
ultrapassado. Eles, sim, que me pareceram anacrónicos e de costas viradas para
a realidade, impotentes e a esconderem-se no artifício fútil.
17 de Agosto
Museu Puschkine. Um
quadro de Goya, assinado da maneira seguinte: Lola Jimenez, o modelo,
surpreendido a desenhar o retrato do artista –esboço do rosto de Goya, ao canto
da tela. Obras do renascimento italiano, Lorenzo Lotto, Perugino, Tiziano. Os
impressionistas e fauvistes franceses, Degas, Renoir, Gauguin, Matisse.
Peças notáveis do período azul de Picasso. Grandes telas de Bonnard.
O Napoleão, de
Gérard (1805). A coroa, o ceptro, o manto de arminho. Não é isso que me
impressiona: é o olhar de adolescente, de quem não cresceu e continua a sonhar.
O imperador apaga-se, volta o tenente pobre e solitário, que escrevia novelas
românticas e se chegara ao suicídio, quinze anos antes. O olho direito
denuncia-o –os nossos olhos abrem janelas diferentes. Há um mundo naquele homem
imaturo (ele, o anti-Cristo, o estratego genial, o condottiero), uma
interioridade, que adivinho e me escapa –a sua viagem era dele. Vê, além do
horizonte. E compreendo excessos, imprudência, o disparate da campanha da
Rússia. Talleyrand explicava-lhe que era o senhor da Europa. Não ouvia
conselhos. Nada bastava ao sonho imenso. Por isso, após Waterloo, a recusa da
fuga para a América, a confiança absurda nos ingleses, o exílio de Santa Helena
–afinal, a assunção do próprio destino, cumprido -na convicção pura de louco
visionário- integramente
19 de Agosto
Não aprecio
Bulgakov, mas é no Café Margarida, homenagem ao seu romance, O Mestre e Margarida, que vou almoçar.
Nenhum turista. Uma excelente sopa, borsch,
depois, ravioli (os russos têm uma
variante muito saborosa, os pelmeni) e cogumelos assados, vinho tinto da
Geórgia, um cálice de vodka (já não
me lembrava de vodka tão pura, Standard Russian). Decorado com peças de
madeira escura, simples, aconchegante. No friso do balcão, cinco figurinhas, um
conjunto de jazz, em que brilha a eterna criança, genial e infeliz, Billie
Holiday. Vou beber o café ao Mania,
na praça do Conservatório, onde ensinaram Tchaikovski (lembra-o a estátua) e
Chostakovich (afastado, em 1942, por... incompetência). Leio e escrevo. Numa
cidade destas, é costume. E, além do cidadão comum, que aprecia a leitura,
frequentam o Mania escritores,
professores e alunos do Conservatório. Katia, a jovem empregada tártara que me
atende, sorri e improvisamos uma conversa em inglês arranhado. Ouso duas ou
três palavras russas, descabidas. Que importa? Paro o tempo, abandono-me aos
olhos em amêndoa, ao calor do corpo harmonioso, em que adivinho a seiva correr,
impaciente. Travo-lhe o braço acetinado. Liberta-se, agradece, e vai veloz,
contornando mesas e cadeiras, a cintura que o arco das minhas mãos abarcaria, o
movimento leve de bailarina, quase em pontas, os finos cabelos, presos com um
laço de veludo azul. Mania, meu
refúgio moscovita, é um outro Diza, o café de Telavive, onde conheci Nathan
Zach. Mas Katia não é Meital, a minha amiga do Diza. Qual a diferença entre as russas e as israelitas? Talvez, a
doçura resplandecente das primeiras. Há, com certeza, em Moscovo, judias, que não
são israelitas. Às vezes, julgo reconhecê-las: a espessa cabeleira preta
ondeada, a melancolia insondável dos olhos escuros.
21 de Agosto
Yasnaya Poliana, a
propriedade familiar onde Tolstoi (1828-1910) nasceu (em 1854, a casa foi
vendida e removida, resta uma pedra, a lembrá-la), viveu muitos dos seus dias e
está enterrado. Malgrado a austeridade procurada, o lugar de um Grande Senhor
–e fica-me a ideia de que é natural a sua obra gigantesca. A morte não lhe
aconteceu ali, mas aconteceram
romances e novelas e, certamente, a Sonata
a Kreutzer –o drama do seu matrimónio. Quando atravessei o portão, e,
depois, entrei na residência, que ele próprio ajeitou, recordei o apartamento
alugado por Dostoievski, em São Petersburgo, modestíssimo, vulgar, não fora o
inquilino e o fantasma. Nesse andar de burguesia remediada, escreveu Os Irmãos Karamazov e morreu gasto,
doente, pobre, endividado. Yasnaya Polyana deslumbra: o parque imenso; o lago
tranquilo; a floresta de abetos de altos troncos brancos, os vastos espaços
verdes, os caminhos de terra batida, em que terão passeado e conversado André
Bolkonski e Pedro Bezukov. A casa mãe, aristocrática: ampla sala de jantar, com
os retratos, a óleo, dos antepassados, a grande mesa de dezasseis pessoas,
outras, onde se jogava e lia, o piano, em que a mulher, Sofia Andreievna tocou
a tal Sonata; quartos bem mobilados;
um mundo de livros e pinturas; esconderijos de Tolstoi, que lá se refugiava, a
fugir a Sofia, sua obsessão, doença e tragédia (Ramón J. Sender analisa,
magistralmente, o conflito em Tres
ejemplos de amor y una teoria,
Alianza Editorial). A fuga derradeira, iniciada na noite de 28 de
Outubro de 1910, terminaria no apeadeiro de Astopovo. Recusou, até ao fim, a
presença de Sofia Andreievena. Nos últimos dias, em Yasnaya, leu Os Irmãos Karamazov, que sublinhou,
detendo-se no capítulo Do inferno e do
fogo eterno. Vi o exemplar, numa mesinha do escritório, aberto nessa página
e anotado. Na mesa de trabalho, os Essais,
de Montaigne e uma obra sobre o povo russo. Tudo era assim? É improvável: em
1941, o exército alemão ocupou Yasnaya Poliana e, na retirada, tentou incendiar
a casa. Escapou à barbárie o que se havia escondido, a tempo: objectos
pessoais, obras de arte, livros, alguns móveis, em suma, bastantes coisas, mas o
arrumo seguiu as fotografias e os conselhos dos que lá viviam.
Aponto: o retrato
do único autor presente em Yasnaya, Dickens; o fonógrafo e o copiador,
enviados, da América, por Edison; no quarto de cama espartano, o leito de
ferro, um armário, um lavatório, duas cadeiras e a garrafa de água de Vichy, a
caixa de “Macaraíb Chocolat”...
25 de Agosto
A riquíssima
Galeria Tretyakov. Os retratistas russos e a sua arte insuperável. Os
paisagistas. Os impressionistas (Tchekhov preferia-os, aos franceses). Uma Arte
diferente. Arte russa, à margem daquela à qual nós, europeus, nos habituámos,
mesmo quando se aproxima de correntes que experimentámos. Claro que me tocam,
especialmente, os retratos de Dostoievski, (Perov), de Tolstoi, (Repin), de
Puschkine, (Kiprensky), o génio de Serov, as paisagens de Leviatan (que
Tchekhov privilegiava) e de Vassiliev, o maravilhoso e subtil Kuindji (que as
páginas de Bunine recordam). Mas há tantos! O que me encanta é o novo universo.
Que ridícula a ilusão de sermos o centro do mundo, nós europeus envelhecidos,
actores cansados de uma história gasta, safada, inconsequente.
À saída, já ao cimo
das escadas, fiquei parado, preso do rosto e do corpo de uma rapariga, linda
como qualquer pintura. De tal modo e tão excessivamente, que ela baixou os
olhos, envergonhada e lisonjeada, sem saber o que eu queria. Ou a saber: queria
a sua beleza. E se o bom senso -a pior das coisas- me não fizesse cair em mim,
abraçava-a.
27 de Agosto
No metropolitano,
assisto à cena que define um povo que não nada em dinheiro: uma mulher de meia
idade, vestida modestamente, pára diante da jovem que toca violino, encostada a
uma coluna do túnel, e deixa algumas moedas, no estojo ao lado. Não é esmola –é
a homenagem ao talento e à Arte.
1 de Setembro
Dostoievski,
Tolstoi, Tchekhov, Puschkine (sempre evocado com particular amor, o Camilo ou o
António Nobre russos), esta Cultura única. Simeone Frank, eslavista, fala do
espírito russo como “de um peregrino, saído do povo, ou de um Dostoievski, de
um Tolstoi, sempre em busca de uma verdade que não lhes iluminasse e
explicasse, apenas, o mundo –constituísse o alicerce da vida verdadeira e
justa, por isso santificadora e salvadora”.
3 de Setembro
No
décimo primeiro andar da Bolshaya Spackaya, perto do Largo das Três Estações, a
meio da noite, oiço uma voz suave de mulher, a anunciar as partidas dos
comboios. Petersburgo? Surgut? Saratov? Amanhã, regresso a Portugal. Arrumo,
religiosamente, os livros que me acompanharam: Dostoievski, Bunine, Puschkine,
Tchekhov... Guardo este caderno. Chego à janela, espreito os eléctricos
iluminados, as pessoas que se apressam, a fugir à chuva miudinha. Onde vão?
Ainda estou sob o efeito da leitura e tão belo(S) texto(S)que hoje não esperava aqui encontrar.
ResponderEliminarMaravilhoso.
De regresso às suas belíssimas crónicas ou histórias de viagens (não sei se assim posso chamar).
Adorei.
Obrigada por este bocadinho de excelente leitura.
Um sentido para a vida temos nós que lho ir dando todos os dias, não é?
A pintura é muito bonita.
Um beijinho e boa semana
Muito interessante!
ResponderEliminarParabéns. :)
Isabel, Ana, este é um texto antigo, que resolvi repor dado que a audiência deste blog mudou tal qual o seu acesso ao Facebook. De qualquer modo, bem hajam!
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