segunda-feira, 9 de julho de 2012

Notas da 1ª viagem à Rússia


"Janela aberta", 1886, óleo de Valentin Serov

DIÁRIO MOSCOVITA

Sentimento de um português na Rússia

6 de Agosto de 2004

Entro no avião da Lufthansa directo a Franqueforte e reparo numa das hospedeiras. É uma mulher de estatura média, cabelo curto loiro. Já não é jovem. Tem o rosto fechado de profissional alemã, correcta e atenciosa. Sorrio-lhe, porque inicio a longa viagem para Moscovo, a cabina, climatizada, parece confortável e se trata de uma mulher diferente das do meu país. Afinal, mais reservada, severa e distante. Mas, quando responde ao meu sorriso, os olhos azuis transformam-se, doces, envolventes, familiares, e eu lembro-me da actriz da minha adolescência, que me apaixonava, no velho cinema da Guarda: Maria Schell. Ah, sim, a mesma ternura dilacerada, comovente... Seria difícil dizer a sua idade. Há na expressão desta desconhecida, neste instante, apelo, afirmação. Oferta. Como se quisesse comunicar-me qualquer coisa, por exemplo, que estava ali, existia, guardava, dentro, um mundo e podia dividi-lo. Andou para trás uns anos, rejuvenesceu. Sempre pensei que, se a procurarmos, a criança que fomos, escondida dentro de nós, reaparece. Brevemente. O átimo em que a eternidade se revela?

Antes de embarcar, disse a uma jovem amiga, que se queixava do sem sentido da vida e que me perguntara qual o destino das nossas experiências: “Não sei. Talvez nenhum, à luz da razão, do nosso entendimento das coisas. Tempo? Espaço? Destino? Que sabemos disso? As nossas certezas e convicções o que valem? Sei que foi uma sorte o acaso que trouxe o bocadinho de vida que nos cabe. Revelaram-se a beleza e a harmonia. Qual o sentido? Não sei. E não vale a pena pesar e medir nada. É inútil, nem aquece nem arrefece. Resta-nos entregarmo-nos ao instante”. Com a imprudência da hospedeira alemã. Enquanto formos capazes. 

Ela já perdeu o sorriso e o rosto voltou ao que o tempo lhe pôs em cima. Os músculos da face cederam, o brilho do olhar apagou-se. Ainda me sorri, hesita, mas o meu lugar não pertence à zona que lhe confiaram. Até Franqueforte, constatei que era uma funcionária eficiente.

À mesa do  incaracterístico café de aeroporto – o “Goethe”-, espero a empregada. Fazem-me companhia três asiáticos –de Singapura?, da Tailândia?, da China? Sem cerimónias, bebem cerveja e riem. A menina chega e eles querem pagar. Acena-lhes que esperem e toma nota do whisky com água lisa, que eu lhe peço. Noto que o faz porque são asiáticos e  gesticulam de maneira insólita –grosseira, segundo um europeu do Norte. A menina não tem culpa, mas eu lembro-me dos campos: Auschwitz, Dachau... Lembro os diferentes. A exclusão. O recuo, face ao outro. A alterofobia. A menina não tem culpa, retribuo-lhe a delicadeza, também eu impaciente. A refugiar-me no meu egoísmo. Horror à massificação? Fuga? Alterofobia? Um sentimento comum, que tentei corrigir -e continuo a tentar-, através de viagens, convívio, vivências. Esse sentimento não morreu e o mundo que criámos exacerbou-o. Já perdemos o hábito de viver com os outros –ou nos servem ou não nos servem. Educamo-nos, assim. O outro é um parceiro no jogo do lucro e da indiferença –ou um inimigo, ou um concorrente. Os judeus eram concorrentes, segundo Hitler e  contemporâneos. São, ainda hoje, inimigos só por serem judeus? Afinal, como os árabes, os negros, os imigrantes... Os asiáticos do “Goethe” nem deram por nós, pela menina e por mim. É o mesmo, não é verdade?

No avião para Moscovo: tenho sorte, quase vazio. Reabro o livro, que abandono: “De la Russie”, de Youri Afanassiev. Custa-me ler, durante as viagens, interessam-me as pessoas. A mulher, na fila da frente, à minha direita. Alta, esbelta, olhos cor de mar, conversa, em russo, com a amiga. Agita as mãos e os braços. Tem a expressão determinada, sabe o que quer. A outra é calma, doce, leva o filho, uma criança, trata-o com meiguice. De costas, só lhe distingo o cabelo loiro (levanta-se e puxa um saco de lona, é baixa e gordinha). A magra explica-me que não se encontravam há vinte anos, trabalha em Orvieto e a amiga vive em Nova-Iorque. Em Orvieto?! Fala um italiano perfeito. “Falo inglês, espanhol...” Russa? Se a encontrasse num café de Telavive acharia natural. Adivinha e antecipa-se: “Sou um quarto judia”. Precisa: “Vinte e cinco por cento.” Nina Malievine. Conhece Umberto Saba, Svevo, viu os filmes de Visconti e, obviamente -lê-se-lhe nos olhos ansiosos-, os de Antonioni. É independente, pagou caro a independência. Vejo as cicatrizes. Digo-lhe? “Sim, acertou...”, responde-me, em italiano, fica entre nós. E acrescenta: “Telefone-me domingo de manhã, segunda já estarei em Petersburgo. Jantamos com uns amigos. E se for a Petersburgo, não deixe de visitar a casa de Puschkine, na Fontanka. É o maior escritor russo! Maior que Dostoievski... Puschkine é tão directo!”

8 de Agosto

Não telefono a Nina. Passo a manhã de domingo na Feira da Ladra, a Ismaylovo. Almoço, numa barraca, a excelente sopa do Uzbequistão, funcho, cebola crua, paprika, carne de vaca, cenoura, abóbora, esparguete cortado e iogurte, tudo muito bem apurado, em panela monumental. Os parceiros de mesa brindam, cálices erguidos, nasdarovie!, “à saúde!” E noto a solidariedade, o acolhimento espontâneos. Volto aos atalhos de Ismaylovo, no grande bazar, sobressaem os quadros: figurativos, impressionistas, abstractos, imitações de ícones. Técnica perfeita. Algumas paisagens admiráveis, que o mau gosto turístico não condicionou. Escolho a pequena tela “No Alto Volga”, de um artista que vem de fora de Moscovo. Tardo impressionismo. Sensibilidade: a falésia ocre, a meio da mancha do arvoredo, o farol, as águas encrespadas, um barco, em que ressaltam a proa de um azul mais claro do que o do rio e, na popa, a cabina de comando, iluminada, as nuvens, brancas, violetas, cinzentas, a outra margem, distante, escura, imprecisa, o céu tempestuoso. Demoro-me nas bugigangas, antiguidades autênticas e de ontem, molduras, roupas, lembranças de época recente, da União Soviética, fotografias delidas, namorados, um senhor barbudo, de sobrecasaca preta e chapéu alto, a dama elegante, um ramo de flores encostado ao peito cheio, que espera nunca saberemos por quem, uma praça de Moscovo,  postais, que alguém escreveu e alguém juntou, ali esquecidos. Nostalgia.

11 de Agosto

Visito o Convento de Novodevichiy e, à entrada, depara-se-me a Capela funerária dos Prokhorov. Um pequeno edifício de paredes brancas, desenhado em dois planos de quatro arcos bizantinos, a cúpula doirada, contra o azul  do céu. Singelo e atraente, por isso. Mas o segredo esconde-se lá dentro: a monja, vestida de preto, que conta uma história a duas senhoras. Escutam-na, religiosamente. É uma mulher de idade, rosto e mãos de camponesa, muito viva. Está sentada  atrás de um mesa cheia de livros e postais, de folhas escritas. O que ela diz não entendo. E, apesar disso, não consigo desviar o olhar. A música da voz -o russo é uma língua musical, enleante-, a convicção, os gestos, teatrais e ingénuos, prendem-me, tal qual me fascinam as duas senhoras. Há, na monja, a humanidade profunda dos eleitos, que não se sabem escolhidos. Há generosidade, poesia –tão terrena e imaterial! O lirismo dos simples, que lhes confia Deus. E os olhos ficaram-me marejados: diante, tinha a Santa Rússia –a de Puschkine, Dostoievski, Tchekhov. A Rússia imensa e misteriosa, espiritual e concreta, violenta e poética. A Rússia a que Tolstoi se entregou, agonizante e sozinho, no apeadeiro perdido de Astapovo. Gostaria de lhe beijar as mãos ou de as apertar nas minhas. De nunca mais a perder –porque ia perder, quando me fosse embora.

Nas costas do Convento, a Sul, o Cemitério, onde repousam figuras gradas das artes e da política russa. O túmulo de Gogol, com a estátua grandiosa. Pergunto ao jovem pintor que a copia: “Tchekhov?” Acena a uma campa rasa, coberta de flores, logo atrás. Nem estátua, nem imagem: um arremedo de muro branco, coberto por um manto verde, três coruchéus de ferro, pobre esboço de cenário teatral, modesta memória do dramaturgo que ele foi. Não choca. Viveu tão discretamente! Escreveu tão simplesmente! Morreu tão docemente! A beleza das suas histórias é tão delicada! À noite, assistirei, na Escola de Teatro Contemporâneo, à peça A Gaivota. Uma das personagens, o novelista Trigorin (Tchekov) ironiza: “O público lê-me e diz: “Bonito, escrito com muita inteligência... Mas inferior a Tolstoi... Belo trabalho, mas inferior a Turgueniev...” E sofria (Tchekhov), por isso. Hofmannsthal: “É preciso esconder a profundidade. Onde? Na superfície.”

O teatro-estúdio está cheio, pessoas de todas as idades e condição social. A peça é apresentada, essencialmente: espectadores dispostos em duas bancadas de três filas, uma de cada lado da sala, ao longo da passadeira que une dois espaços: interiores da casa de Petrosha e o jardim, ocupado pelo palco improvisado, em que se apresentará a obra de Kostia. A Gaivota depende do talento dos actores. Sem compreender as deixas, eles arrebatam-me. É, também, a emoção de assistir a uma peça de Tchekhov, na Rússia. Mas actores destes encantam.

Há, em Moscovo (catorze milhões de habitantes), dezenas de grupos e de teatrinhos. Aliás, sente-se a força cultural da cidade: teatro, cinema, bailado, concertos musicais. A corrida aos livros, vendidos a preços baixíssimos (de bolso a 2 euros; edições normais e traduções de autores estrangeiros, a 4, 5 euros). O gosto pela leitura, topo-o no metropolitano, nos eléctricos, nos cafés. A defunta União Soviética promoveu a leitura, a música, o bailado. Condicionada, embora, ferozmente vigiada, policiada, censurada (daí, o deserto da criação, o caso Pasternak e a forçada renúncia do escritor ao Nobel, o degredo, o desaparecimento esquisito -Isaac Babel- e o exílio de outros), a prática generalizou-se. A alma russa não se deixou sufocar, sobreviveu à dureza dos anos. Hoje, voltam à luz do dia, autores esquecidos na clandestinidade e no purgatório, Dostoievski, Ivan Bunine, Achmatova, Bulgakov, revelam-se escritores, músicos, realizadores de cinema. A Santa Rússia não dorme –sinto bater o coração.

14 de Agosto

Ivan Bunine (1870-1953), velha admiração, descoberta na Guarda, na Papelaria do Sr. Casimiro, Amor que santifica, editado pela saudosa “Inquérito”, à qual, em boa hora, João Gaspar Simões serviu de conselheiro. Leio o último livro de contos do grande escritor, exilado, em França, desde 1920, primeiro Nobel russo, em 1933, Les Allées Sombres  (Biblio, Poche). Em 1910, o romance A Aldeia, um êxito, que trata a condição dos camponeses (também ele conhecia o povo, os humilhados e ofendidos), consagrara-o. Anos depois, marginalizaram-no, não perdoaram a independência: a recusa frontal da revolução bolchevista, o afastamento do experimentalismo literário, do futurismo, de Maiakovski, Essenine, Achmatova, cujo triunfo duraria pouco, afastados, eles também –de que maneira!-, pelo didáctico e obrigatório realismo socialista ou o medo da singularidade. Bunine continuou, até à morte, fiel a si próprio. Beleza das descrições (amava, carnalmente, a Rússia, quanto não sofreu, ao abandoná-la!), poesia, complexidade das personagens –tudo isso faz o seu génio. Mas quero inclinar-me diante da verticalidade: respeitou-se, perseverou, contra ventos e marés, ergueu uma obra única. Atravessou modas,  desprezou dogmas, coerente, livre –coisa extraordinária.     

O mar de gente, mais de três milhões de automóveis, eléctricos, autocarros, o moscovita corre, não anda. O metropolitano tentacular, com estações que são obras de arte. Árvores, muitas árvores. Procuro entender: gente próxima de nós, isenta, felizmente, da insegurança e da opinião alheia, complexos que nos anquilosam. Reservada, aparentemente brusca (um sorriso e a doçura salta) mas tranquila e generosa, romântica e sonhadora. Tensa, ansiosa. Complexa, como os seus artistas, e frequentadora de cafés e amante do convívio. 

Raparigas muito belas, loiras, esguias, corpos flexíveis, frágeis, diria pássaros, um golpe e quebravam. Olhos de azul celeste. Aprenderam a dançar ou seria impossível a correcção e a elegância das atitudes. E o latino abre a boca, pascácio, e passa-lhes ao lado. O latino é, por natureza, machista –e não leu os poetas russos. Elas saíram dessas páginas. Não vale a pena demorar-me no salivar dos lorpas. Elas ignoram-nos. Animam as ruas, os cafés, os teatros, as praças de Moscovo, enriquecem, aquecem a alma. (Nesta megapolis permissiva, obviamente, é possível experimentar, tudo quanto se deseje).

As novelas de Irina Denejkina, 22 anos, Dá-me! Song for Lovers. Agarram. Retrato da juventude que sofre as consequências da mudança, da crise social, o deserto de valores. Uma juventude que ama, esbraceja, se agride e destrui. Irina (imagino-a indefesa e exposta, preço da sinceridade) acusa: “Tudo é pó, tudo é glória vã, tudo é mentira”. Aflige-me e não posso abraçá-la –é só um livro. Reage: “A vida é extraordinária e surpreendente”. Pudesse eu sarar a dúvida, que não a larga! Mai-la raiva e a solidão, a fuga. Luta e grita. Álcool, droga, camas de acaso... Song for lovers. Quem ama os amantes que falham o milagre da própria juventude? Não têm rugas, são belos, os músculos respondem, os cabelos vão com o vento, tal qual as mãos, que se procuram, se encontram, se apertam e se largam, e as bocas imaculadas, que se beijam, sempre insatisfeitas e inconscientes, os corpos misturados, hiantes, e logo abandonados à ternura que ninguém colhe. Sangram, na estrada.

Antologia de autores russos contemporâneos -muito mais velhos do que a Denejkina-, organizada por Viktor Erofeev e traduzida, para o italiano por Marco Dinelli. Não me interessam. Estéreis, circenses, insinceros. Outra forma de fuga –experimentalismo serôdio, repetição do que se disse e se tentou, há quase um século: Maiakovski, Marinetti... Outra face da crise de identidade, comum, no fim e ao cabo, a muita literatice nossa. Ouvi, em Moscovo, a intelectuais cultores dessa nova linguagem, que Dostoievski é um escritor menor, ultrapassado. Eles, sim, que me pareceram anacrónicos e de costas viradas para a realidade, impotentes e a esconderem-se no artifício fútil. 

17 de Agosto

Museu Puschkine. Um quadro de Goya, assinado da maneira seguinte: Lola Jimenez, o modelo, surpreendido a desenhar o retrato do artista –esboço do rosto de Goya, ao canto da tela. Obras do renascimento italiano, Lorenzo Lotto, Perugino, Tiziano. Os impressionistas e fauvistes franceses, Degas, Renoir, Gauguin, Matisse. Peças notáveis do período azul de Picasso. Grandes telas de Bonnard.

O Napoleão, de Gérard (1805). A coroa, o ceptro, o manto de arminho. Não é isso que me impressiona: é o olhar de adolescente, de quem não cresceu e continua a sonhar. O imperador apaga-se, volta o tenente pobre e solitário, que escrevia novelas românticas e se chegara ao suicídio, quinze anos antes. O olho direito denuncia-o –os nossos olhos abrem janelas diferentes. Há um mundo naquele homem imaturo (ele, o anti-Cristo, o estratego genial, o condottiero),  uma interioridade, que adivinho e me escapa –a sua viagem era dele. Vê, além do horizonte. E compreendo excessos, imprudência, o disparate da campanha da Rússia. Talleyrand explicava-lhe que era o senhor da Europa. Não ouvia conselhos. Nada bastava ao sonho imenso. Por isso, após Waterloo, a recusa da fuga para a América, a confiança absurda nos ingleses, o exílio de Santa Helena –afinal, a assunção do próprio destino, cumprido -na convicção pura de louco visionário- integramente

19 de Agosto

Não aprecio Bulgakov, mas é no Café Margarida, homenagem ao seu romance, O Mestre e Margarida, que vou almoçar. Nenhum turista. Uma excelente sopa, borsch, depois, ravioli (os russos têm uma variante muito saborosa, os pelmeni) e cogumelos assados, vinho tinto da Geórgia, um cálice de vodka (já não me lembrava de vodka tão pura, Standard Russian). Decorado com peças de madeira escura, simples, aconchegante. No friso do balcão, cinco figurinhas, um conjunto de jazz, em que brilha a eterna criança, genial e infeliz, Billie Holiday. Vou beber o café ao Mania, na praça do Conservatório, onde ensinaram Tchaikovski (lembra-o a estátua) e Chostakovich (afastado, em 1942, por... incompetência). Leio e escrevo. Numa cidade destas, é costume. E, além do cidadão comum, que aprecia a leitura, frequentam o Mania escritores, professores e alunos do Conservatório. Katia, a jovem empregada tártara que me atende, sorri e improvisamos uma conversa em inglês arranhado. Ouso duas ou três palavras russas, descabidas. Que importa? Paro o tempo, abandono-me aos olhos em amêndoa, ao calor do corpo harmonioso, em que adivinho a seiva correr, impaciente. Travo-lhe o braço acetinado. Liberta-se, agradece, e vai veloz, contornando mesas e cadeiras, a cintura que o arco das minhas mãos abarcaria, o movimento leve de bailarina, quase em pontas, os finos cabelos, presos com um laço de veludo azul. Mania, meu refúgio moscovita, é um outro Diza, o café de Telavive, onde conheci Nathan Zach. Mas Katia não é Meital, a minha amiga do Diza. Qual a diferença entre as russas e as israelitas? Talvez, a doçura resplandecente das primeiras. Há, com certeza, em Moscovo, judias, que não são israelitas. Às vezes, julgo reconhecê-las: a espessa cabeleira preta ondeada, a melancolia insondável dos olhos escuros.

21 de Agosto

Yasnaya Poliana, a propriedade familiar onde Tolstoi (1828-1910) nasceu (em 1854, a casa foi vendida e removida, resta uma pedra, a lembrá-la), viveu muitos dos seus dias e está enterrado. Malgrado a austeridade procurada, o lugar de um Grande Senhor –e fica-me a ideia de que é natural a sua obra gigantesca. A morte não lhe aconteceu ali, mas aconteceram romances e novelas e, certamente, a Sonata a Kreutzer –o drama do seu matrimónio. Quando atravessei o portão, e, depois, entrei na residência, que ele próprio ajeitou, recordei o apartamento alugado por Dostoievski, em São Petersburgo, modestíssimo, vulgar, não fora o inquilino e o fantasma. Nesse andar de burguesia remediada, escreveu Os Irmãos Karamazov e morreu gasto, doente, pobre, endividado. Yasnaya Polyana deslumbra: o parque imenso; o lago tranquilo; a floresta de abetos de altos troncos brancos, os vastos espaços verdes, os caminhos de terra batida, em que terão passeado e conversado André Bolkonski e Pedro Bezukov. A casa mãe, aristocrática: ampla sala de jantar, com os retratos, a óleo, dos antepassados, a grande mesa de dezasseis pessoas, outras, onde se jogava e lia, o piano, em que a mulher, Sofia Andreievna tocou a tal Sonata; quartos bem mobilados; um mundo de livros e pinturas; esconderijos de Tolstoi, que lá se refugiava, a fugir a Sofia, sua obsessão, doença e tragédia (Ramón J. Sender analisa, magistralmente, o conflito em Tres ejemplos de amor y una teoria, Alianza Editorial). A fuga derradeira, iniciada na noite de 28 de Outubro de 1910, terminaria no apeadeiro de Astopovo. Recusou, até ao fim, a presença de Sofia Andreievena. Nos últimos dias, em Yasnaya, leu Os Irmãos Karamazov, que sublinhou, detendo-se no capítulo Do inferno e do fogo eterno. Vi o exemplar, numa mesinha do escritório, aberto nessa página e anotado. Na mesa de trabalho, os Essais, de Montaigne e uma obra sobre o povo russo. Tudo era assim? É improvável: em 1941, o exército alemão ocupou Yasnaya Poliana e, na retirada, tentou incendiar a casa. Escapou à barbárie o que se havia escondido, a tempo: objectos pessoais, obras de arte, livros, alguns móveis, em suma, bastantes coisas, mas o arrumo seguiu as fotografias e os conselhos dos que lá viviam.

Aponto: o retrato do único autor presente em Yasnaya, Dickens; o fonógrafo e o copiador, enviados, da América, por Edison; no quarto de cama espartano, o leito de ferro, um armário, um lavatório, duas cadeiras e a garrafa de água de Vichy, a caixa de “Macaraíb Chocolat”...           

25 de Agosto

A riquíssima Galeria Tretyakov. Os retratistas russos e a sua arte insuperável. Os paisagistas. Os impressionistas (Tchekhov preferia-os, aos franceses). Uma Arte diferente. Arte russa, à margem daquela à qual nós, europeus, nos habituámos, mesmo quando se aproxima de correntes que experimentámos. Claro que me tocam, especialmente, os retratos de Dostoievski, (Perov), de Tolstoi, (Repin), de Puschkine, (Kiprensky), o génio de Serov, as paisagens de Leviatan (que Tchekhov privilegiava) e de Vassiliev, o maravilhoso e subtil Kuindji (que as páginas de Bunine recordam). Mas há tantos! O que me encanta é o novo universo. Que ridícula a ilusão de sermos o centro do mundo, nós europeus envelhecidos, actores cansados de uma história gasta, safada, inconsequente.  

À saída, já ao cimo das escadas, fiquei parado, preso do rosto e do corpo de uma rapariga, linda como qualquer pintura. De tal modo e tão excessivamente, que ela baixou os olhos, envergonhada e lisonjeada, sem saber o que eu queria. Ou a saber: queria a sua beleza. E se o bom senso -a pior das coisas- me não fizesse cair em mim, abraçava-a. 

27 de Agosto

No metropolitano, assisto à cena que define um povo que não nada em dinheiro: uma mulher de meia idade, vestida modestamente, pára diante da jovem que toca violino, encostada a uma coluna do túnel, e deixa algumas moedas, no estojo ao lado. Não é esmola –é a homenagem ao talento e à Arte.

1 de Setembro

Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov, Puschkine (sempre evocado com particular amor, o Camilo ou o António Nobre russos), esta Cultura única. Simeone Frank, eslavista, fala do espírito russo como “de um peregrino, saído do povo, ou de um Dostoievski, de um Tolstoi, sempre em busca de uma verdade que não lhes iluminasse e explicasse, apenas, o mundo –constituísse o alicerce da vida verdadeira e justa, por isso santificadora e salvadora”.

3 de Setembro

No décimo primeiro andar da Bolshaya Spackaya, perto do Largo das Três Estações, a meio da noite, oiço uma voz suave de mulher, a anunciar as partidas dos comboios. Petersburgo? Surgut? Saratov? Amanhã, regresso a Portugal. Arrumo, religiosamente, os livros que me acompanharam: Dostoievski, Bunine, Puschkine, Tchekhov... Guardo este caderno. Chego à janela, espreito os eléctricos iluminados, as pessoas que se apressam, a fugir à chuva miudinha. Onde vão? 
                                                           

3 comentários:

  1. Ainda estou sob o efeito da leitura e tão belo(S) texto(S)que hoje não esperava aqui encontrar.
    Maravilhoso.
    De regresso às suas belíssimas crónicas ou histórias de viagens (não sei se assim posso chamar).
    Adorei.
    Obrigada por este bocadinho de excelente leitura.

    Um sentido para a vida temos nós que lho ir dando todos os dias, não é?

    A pintura é muito bonita.

    Um beijinho e boa semana

    ResponderEliminar
  2. Muito interessante!
    Parabéns. :)

    ResponderEliminar
  3. Isabel, Ana, este é um texto antigo, que resolvi repor dado que a audiência deste blog mudou tal qual o seu acesso ao Facebook. De qualquer modo, bem hajam!

    ResponderEliminar