quarta-feira, 4 de julho de 2012

Os portugueses das sete partidas

À procura do mundo...


Lembraram-me que a nossa biblioteca guarda uma obra muito interessante de Jacinto do Prado Coelho, Problemática da História Literária (Edições Ática, 2ª edição, 1972) cuja leitura aconselho vivamente. E apontaram um capítulo, “Um viajante do século XVII: Frei Gaspar de S. Bernardino".

Do fradinho franciscano conheço, por enquanto, apenas o que me ensinou Prado Coelho, e a poesia e o realismo do seu estilo, graças às breves transcrições lançadas no texto.

Muito haveria a contar, mas, por agora, ressalto a maneira não-racista, ou anti-racista, ou a-racista, com o que o português, em peregrinação pelo mundo e a passar as passas dos algarves, se relacionava com o outro.

Por vezes, dir-se-ia que o fradinho ia redescobrindo, pouco a pouco, a solidariedade humana: a possibilidade de se estimarem os homens entre si.

É quando deixa a ilha de Socotorá, ou Socotra, ou Suqatra, no oceano índico, e repara no amigo árabe, sentado na praia, saudoso, parecia, dos portugueses que partiam:

(…) o capitão Arábio nosso amigo, que, inda que infiel, mostrou que em tã larga absência sentia nosso apartamento por conhecer o muito que inda tínhamos de andar; e com os olhos em nós, e quase de si esquecido, ficou assentado na praia com o rostro sobre a mão, ao que julgamos, saudoso, descontente, e pensativo, e nós com as velas dadas, e a vista nele, o fomos deixando, de sorte que nunca mais soubemos dele.”

E adiante:

“(…) tornámos a sair em terra, e com o olho sobre o ombro cozeram os nossos do arroz, estando outros entretanto pescando no rio muito e bom peixe, que todos juntos aquela noite ceámos com tanto gosto e alegria como se de mais longe nos conhecêramos. E a razão pedia que o fizéssemos assi, que, como o amor seja a alma do mundo e tenha de sua natureza ser comunicativo, não era muito que entre Cristãos e Bárbaros se achasse.”

Que seja o amor entendido, hoje, como “alma do mundo”, custa a crer –se olharmos em volta, desde a porta de casa às grandes manchetes do jornais e televisões…

…se dermos conta do canibalismo social, da ganância, da amoralidade, do egoísmo, da indiferença, especiarias novas e tão prezadas…   

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