Lembraram-me que a nossa biblioteca guarda uma obra muito interessante de Jacinto do Prado Coelho, Problemática da História Literária (Edições Ática, 2ª edição, 1972) cuja leitura aconselho vivamente. E apontaram um capítulo, “Um viajante do século XVII: Frei Gaspar de S. Bernardino".
Do fradinho franciscano conheço, por enquanto, apenas o que
me ensinou Prado Coelho, e a poesia e o realismo do seu estilo, graças às breves
transcrições lançadas no texto.
Muito haveria a contar, mas, por agora, ressalto a maneira
não-racista, ou anti-racista, ou a-racista, com o que o português, em
peregrinação pelo mundo e a passar as passas dos algarves, se relacionava com o
outro.
Por vezes, dir-se-ia que o fradinho ia redescobrindo, pouco a
pouco, a solidariedade humana: a possibilidade de se estimarem os homens entre
si.
É quando deixa a ilha de Socotorá, ou Socotra, ou Suqatra, no
oceano índico, e repara no amigo árabe, sentado na praia, saudoso, parecia, dos
portugueses que partiam:
“(…) o capitão Arábio nosso amigo, que, inda que infiel,
mostrou que em tã larga absência sentia nosso apartamento por conhecer o muito
que inda tínhamos de andar; e com os olhos em nós, e quase de si esquecido,
ficou assentado na praia com o rostro sobre a mão, ao que julgamos, saudoso,
descontente, e pensativo, e nós com as velas dadas, e a vista nele, o fomos
deixando, de sorte que nunca mais soubemos dele.”
E adiante:
“(…) tornámos a sair em terra, e com o olho sobre o ombro
cozeram os nossos do arroz, estando outros entretanto pescando no rio muito e
bom peixe, que todos juntos aquela noite ceámos com tanto gosto e alegria como
se de mais longe nos conhecêramos. E a razão pedia que o fizéssemos assi, que,
como o amor seja a alma do mundo e tenha de sua natureza ser comunicativo, não
era muito que entre Cristãos e Bárbaros se achasse.”
Que seja o amor entendido, hoje, como “alma do mundo”, custa
a crer –se olharmos em volta, desde a porta de casa às grandes manchetes do
jornais e televisões…
…se dermos conta do canibalismo social, da ganância, da
amoralidade, do egoísmo, da indiferença, especiarias novas e tão prezadas…

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