segunda-feira, 9 de julho de 2012

Napoleão




“[Museu Puschkine]: O Napoleão, de Gérard (1805). A coroa, o ceptro, o manto de arminho. Não é isso que me impressiona: é o olhar de adolescente, de quem não cresceu e continua a sonhar.

O imperador apaga-se, volta o tenente pobre e solitário, que escrevia novelas românticas e se chegara ao suicídio, quinze anos antes. O olho direito denuncia-o –os nossos olhos abrem janelas diferentes.

Há um mundo naquele homem imaturo (ele, o anti-Cristo, o estratego genial, o condottiero),  uma interioridade, que adivinho e me escapa –a sua viagem era dele.

Vê, além do horizonte.

E compreendo excessos, imprudência, o disparate da campanha da Rússia. Talleyrand explicava-lhe que era o senhor da Europa. Não ouvia conselhos. Nada bastava ao sonho imenso. Por isso, após Waterloo, a recusa da fuga para a América, a confiança absurda nos ingleses, o exílio de Santa Helena –afinal, a assunção do próprio destino, cumprido -na convicção pura de louco visionário- integramente."


in Diário Moscovita

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