“[Museu Puschkine]: O
Napoleão, de Gérard (1805). A coroa, o ceptro, o manto de arminho. Não é isso
que me impressiona: é o olhar de adolescente, de quem não cresceu e continua a
sonhar.
O imperador
apaga-se, volta o tenente pobre e solitário, que escrevia novelas românticas e
se chegara ao suicídio, quinze anos antes. O olho direito denuncia-o –os nossos
olhos abrem janelas diferentes.
Há um mundo naquele
homem imaturo (ele, o anti-Cristo, o estratego genial, o condottiero), uma interioridade,
que adivinho e me escapa –a sua viagem era dele.
Vê, além do
horizonte.
E compreendo
excessos, imprudência, o disparate da campanha da Rússia. Talleyrand
explicava-lhe que era o senhor da Europa. Não ouvia conselhos. Nada bastava ao
sonho imenso. Por isso, após Waterloo, a recusa da fuga para a América, a
confiança absurda nos ingleses, o exílio de Santa Helena –afinal, a assunção do
próprio destino, cumprido -na convicção pura de louco visionário- integramente."
in Diário Moscovita
in Diário Moscovita

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