Camilo Castelo Branco, retrato da autoria de António Carneiro
Comprei, num
alfarrabista das sete léguas, um livrinho que já me agarrou: Camilo Camiliano (Editora Rei dos
Livros, 1993), de João Bigotte Chorão, excelente conhecedor do escravo das
letras, escritor de muita qualidade e ensaísta indispensável.
Abro-o e logo topo, nas
primeiras linhas:
“Veio,
aquele amável estudante universitário, para me oferecer duas espécies
camilianas que comprara num alfarrabista. E, quando lhas agradecia, confessou
que Camilo era um escritor que pouco lhe dizia, e à sua geração. Também era
verdade –acrescentou- que quase nada conhecia dele: apenas o que por obrigação
escolar tivera de ler, o Amor de Perdição e A queda dum Anjo. Aqueles amores de romance passional pareciam hoje bem ridículos,
enquanto a linguagem da sátira política chocava, de tão empolada.”
Certo que passaram
muitos anos, 21, desde da edição de Camilo
Camiliano; talvez até mais sobre encontro que cita Bigotte; em suma, não
sei exactamente a que “geração” se refere o “amável universitário” nem qual a
faculdade que frequentou, nem o peso do seu background.
Descobri Camilo aos 17
anos. Lera e amara Raul Brandão, Tolstoi, Proust, Thomas Man, Steinbeck, de motu próprio, exilado e isolado que
estava numa austera cidade da Beira Alta, a Guarda. Devorara a breve coleção
das 3 abelhas, sorvera a Miniatura,
encantara-me com os Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos.
Nada tinha de
extraordinário: lera, também, Maria Luísa Linares, as aventuras de Fantomas e
os livros da Vampiro. Era “guarda-redes” e ia, a pé, até à Covilhã, ver a
Académica perder frente ao Sporting da terra e participar da pancadaria
subsequente. Nesses anos saudosos, talvez recusasse Camilo. No entanto, corria
atrás das meninas do liceu e apaixonava-me, regularmente. E era, também, muito
de casa da Libânia, no Poço do Gado… Em suma, um romântico. Hoje, continuo a
sê-lo: o último, como sublinhou, publicamente, o poeta Nathan Zach, em Tel Aviv.
Aconteceu que meu avô
Acácio Lopes Cardoso, adorava Camilo e, da sua biblioteca, herdada por meu pai,
constavam muitas das suas obras; aconteceu que meu pai me confiou grande parte
dessa biblioteca, já vitimada por diversas circunstâncias: viagens, mãos leves,
a, sempre sinistra, partilha da herança.
Um dia, peguei em O Senhor do Paço de Ninães, com o fim de
limpar a consciência e poder afirmar, à maneira do descarado “amável
universitário: “Aqueles amores do romance
passional [de Camilo] pareciam hoje
bem ridículos” –e lá fui, recém-chegado a Lisboa, no velho e pacato
eléctrico que me levava para as aulas.
E aconteceu, também,
que, durante a viagem, ao abrir o romance, perdi o pio e fiquei alumbrado: “Camilo mete no bolso tudo quanto se escreve
por aí [fins dos anos 50] e emparelha
com os melhores dos melhores!”, pensei, de boca aberta e o coração já
entregue ao mártir de Seide.
Camilo é o tabelião da
alma portuguesa. O seu génio apaga a falsa superficialidade dos enredos e
revela o vulcão dos homens, das personagens que, aparentemente, imitam outras
já apresentadas, mas são sempre novas. O olhar de Camilo é um olhar de águia e
a sua capacidade de interiorizar o drama alheio, genial –e trágico: revela-lhe
e confirma o fogo que lhe arde dentro.
Camilo renasce em cada
novela e sofre o sofrer dos outros e esbarra consigo próprio, com o próprio
drama, nunca resolvido.
Camilo é um abismo de
humanidade –e a humanidade é um boqueirão de sofrimento.
Neste tempo de culto do
superficial, do imediato, do gratuito, juntar-se-ão ao “amável estudante
universitário” muitos que menosprezam Camilo?
É natural: também desconhecem
Dickens, Thomas Hardy, Jane Austen, Thomas Man, Proust, Régio, ou citam os seus
nomes porque os ouviram, e talvez riam com Eça -sem dúvida, um escritor
admirável- porque lhes faz cócegas; ignoram Nobre, Afonso Duarte, Cesário
Verde, Pessanha; etc.
No fim e ao cabo, essa
espuma, baba morta, existiu sempre.
Fotografia muito antiga da casa de S. Miguel de Seide, onde Camilo viveu os últimos anos e se suicidou


Gostei muito de ler este interessante texto.
ResponderEliminarComprei há dias uma autobiografia de Camilo Castelo Branco.
Um beijinho e continuação de boa semana:)