A identidade de uma terra é a sua Cultura. Já o sublinhei (inutilmente?), a
propósito do estranho caso do Sr. Casimiro e da sua Papelaria em morte
cataléptica (oxalá!), na cidade da Guarda. O Alentejo, com as Beiras e
Trás-os-Montes, é um dos sobreviventes do Portugal que foi. Nunca lhe faltou
quem o cantasse. Uma dessas vozes trago, hoje, aqui: Noel Teles e o romance
“Terra Campa”. Data de 1947 (de há 62 anos). Roger Martin du Gard, o autor da
saga admirável “Les Thibault”, distinguia “a Arte que é actual e a que é
humana”, realçando a segunda, por eterna. É o caso de “Terra Campa”. Reli o
romance, deslumbrado, os olhos a abrirem-se-me para uma realidade empolgante.
Noel Teles deixou um romance ímpar –e é isso que eu quero saudar e recordar. Na
garra, na força da linguagem, na poesia, na capacidade de fixar e transmitir a
paixão e drama de personagens em carne viva –não deve nada a ninguém. O
Alentejo e a nossa Cultura é que lhe devem o haver ele roubado à erosão do
tempo um mundo fabuloso: dos ganhões e malteses, dos ratinhos, heróis anónimos
da terrível luta pela vida, em pleno latifúndio.
Há coisas imperdoáveis e que acontecem nos nossos dias do descartável e do consumo renovável: suicidar-se o homem, virando as costas à raiz. Entregando-se à incultura. Exibindo a prosápia imbecil de ignorar o passado. Nada se constrói sobre o nada, senão o vazio. Eis o que explica que esteja esquecida “Terra Campa”, jóia romanesca, e enterrada, perdida a sua seiva fantástica. No entanto, leitor, basta abrir o livro: ele tratará de si. Mas onde pára? Esqueceram-no? É urgente reeditá-lo. Oxalá os herdeiros de Noel Teles me oiçam...
Há coisas imperdoáveis e que acontecem nos nossos dias do descartável e do consumo renovável: suicidar-se o homem, virando as costas à raiz. Entregando-se à incultura. Exibindo a prosápia imbecil de ignorar o passado. Nada se constrói sobre o nada, senão o vazio. Eis o que explica que esteja esquecida “Terra Campa”, jóia romanesca, e enterrada, perdida a sua seiva fantástica. No entanto, leitor, basta abrir o livro: ele tratará de si. Mas onde pára? Esqueceram-no? É urgente reeditá-lo. Oxalá os herdeiros de Noel Teles me oiçam...
(aqui publicado em 01/03/09)

"Nada se constrói sobre o nada, senão o vazio."
ResponderEliminarO Manuel, já disse tudo!
Beijo
Sónia
Sónia, ainda há muito para dizer... A frase corresponde à denúncia dos falsos inovadores. Os grandes artistas do renascimento aprenderam nos estúdios de mestres que os antecederam. Um abraço grande!
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