Uma vez que a amiga
Luísa Amaral, num gesto de exagerada generosidade, teve a iniciativa de vos
introduzir, através da sua página no Facebook, em “O Pássaro de Vidro”, e pareceu interessar-vos, aqui vos entrego
os 2 primeiros quadros de “A Mulher Nua”, novela, julgo, ainda acessível em
livraria (ou assim deveria ser…). Desculpem-me, se vos aborrecer.
Aqui vai:
“Quem encontrou uma mulher encontrou a
felicidade...”
Prov.
XVIII, 22
I
Acordou e viu-a agarrada à janela. As mãos abertas encostadas aos vidros, os
joelhos no parapeito.
-Oh! Meu Deus!
-exclamou, e sentou-se na cama. Do outro
lado, ela ansiava, a olhar para ele.
-Deve estar gelada...
Não se mexia.
-Oh! Meu deus!
-repetiu- Se cai?
Era Inverno, em Veneza.
As águas tinham gelado e as ruas estavam
desertas. Ouvia-se, apenas, o
assobio do gaz no aquecedor e as unhas dela a arranharem o vidro.
-A esta hora! Às
cinco da manhã!
Atirou com os
cobertores e correu à janela.
-Quer entrar?
Não respondeu, sem tirar os olhos dele.
Abriu a janela e puxou-a para dentro. Ela ficou no meio do quarto, alta, os cabelos
acobreados e o corpo branco. Viu que ele
a observava e cruzou os braços, a esconder o peito.
-Como é que a vou vestir?...
Foi buscar uma camisola, mas, quando voltou, já ela
estava agachada a um canto, parecia um animal assustado. Nos ombros, reparou, tinha penas.
-De onde é que vem este bicho?... -murmurou, porque não
queria que ela ouvisse.
-Esta.
Sabia falar. Não a
tocou, ainda que lhe apetecesse: era linda.
-Com certeza.
Ela baixou os olhos.
-Se não queres a camisola, há ali um roupão atrás da porta...
Ela levantou-se e foi buscar o roupão, vestiu-o e
agachou-se outra vez.
-Queres um café?
Deves ter frio.
Não queria. Chegou-se
ao aquecimento e uma das penas brancas soltou-se e ficou caída no sobrado.
-Queres uma aguardente?
Ela não respondeu e enroscou-se mais, e sorriu-lhe:
-Não bebo aguardente...
-Ah!, então...
E fixou-a, hesitante.
Viu-a bem: os olhos de pássaro,
as penas, a maneira desajeitada de se enrolar:
era um bicho, não havia dúvida.
II
À cautela, foi buscar a garrafa e serviu-se.
-Como é?... De
onde é que vens?
Ela apontou para a janela.
-Do céu?!
Ela abanou a cabeça, a dizer que sim.
Enquanto bebia, espreitou-a. Era impossível: não tinha asas e aquele era o último andar, o
quinto, do Palazzo Carminati, em S. Stae.
Não podia ter caído do andar de cima, não havia. Nem do tecto.
Nem havia nenhuma escada de socorro.
Como é que ela tinha ido parar
ali?
-Vieste de avião?
Respondeu-lhe:
-Venho da Suécia.
-Da Suécia? Está
bem. Mas tens de te vestir...
-Como?
-Como as pessoas!
Hesitou, a olhar para a pena branca, caída ao lado dela.
-...Com a roupa das pessoas...
-Chega isto...
Sentia-se bem, assim. Agarrara os joelhos e virara-se para o aquecedor.
-Tu é que mo deste...
Não me queres aqui?
Queria-a. Bem
bastava o frio, os quadros que não vendia.
-Podes ficar...
Mas...
Ela estremeceu e ele julgou que ela podia pensar: «O
quê? Caí aqui, estou gelada, sozinha,
sem penas, nem sei onde estou. Nem sei
quem tu és, nem o que me vai acontecer...»
E viu-a de outra maneira, frágil, com o roupão vermelho, o rosto
imaculado, os olhos verdes e as mãos brancas a agarrarem os joelhos. Assustou-se.
-Tens de te vestir...
Ela olhou-o, com uma grande tristeza, e perguntou-lhe:
-Queres que eu seja uma pessoa?
-Não és?
Ela sorriu e chegou as mãos ao lume.
-Se tiver de ser...
-Podes ficar assim, só com o meu roupão...
Olhou, de revés, para a janela. Tinha medo que ela se fosse embora.
-Obrigada. És um
pintor?
-Um ex-pintor.
Ela levantou-se, deu uma volta pelo quarto e mexeu nas
telas encostadas às paredes.
-São bonitos os teus quadros...
-Achas?
-E este: por que é
que não o acabaste? -perguntou, diante
do cavalete abandonado.
Ele fingiu que não a ouvira e serviu-se de mais
aguardente.
-Está um frio de rachar!
Tens a certeza que não queres beber nada?
-Como é que te chamas?
-Giacomo. Giacomo
Zurlini. E tu?
Ela hesitou.
-Não sei...
-Greta?
-Greta?
-Sim... Greta.

Isto deixou-me "água na boca"!
ResponderEliminarTerei que procurar a sua "Mulher Nua"!
Um abraço
Sónia
Acho que foi o primeiro que li, ou melhor, devorei...
ResponderEliminarGostei imenso.
Um beijinho.:))
gostei de ler.
ResponderEliminarObrigado, Luís.
ResponderEliminarSónia, espero sinceramente que goste! Oxalá a encontre!
ResponderEliminarCláudia, obrigado, sempre generosa!
ResponderEliminarUm livro lindíssimo, como são todas as suas obras!
ResponderEliminarUm beijinho
Isabel, muito obrigado e um beijo.
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