quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A Mulher Nua (continuação)

"Bathsheba", 1482?, Hans Memling

III

 À hora das lojas abrirem, foram comprar roupa.  Tinha-lhe emprestado umas calças e, quando começou a vestir-se, ele voltou-se para a parede.  Ela ficou com as calças enfiadas até aos joelhos, e perguntou-lhe:
                  
-Por que é que te viraste?
                  
-Estás a vestir-te.
                  
-Já me viste nua...
                  
-Mas agora estás a vestir-te -e não se mexeu enquanto ela não acabou.
                  
Saíram, ela com o roupão encarnado e as calças de veludo azul, ele com uma gabardina verde, que lhe chegava aos pés.  No patamar, esbarraram na lareira.
                  
-Ai! -gritou ela, que foi a que bateu.
                  
Giacomo, a desculpar-se, disse:
                  
-Nunca acendemos...
                  
-Mas magoa...
                  
Deu-lhe o braço e ajudou-a a descer as escadas.  Viram o canal gelado, o passeio deserto e uma gaivota em cima de um caixote do lixo, a arfar.
                  
-Isto está mau -disse Giacomo
                  
-O quê?
                  
-Está frio!  -respondeu, a esfregar as mãos.
                  
-Deixa lá!  -exclamou ela e fez-lhe uma festa nas barbas.  As unhas arranharam-lhe a cara.
                  
-Tens umas unhas duras!
                  
-É da natureza!
                  
-Qual natureza?
                  
-A minha
                  
-A tua?
                  
Não sabia onde a levar.  Tinha de lhe comprar roupa.
                  
-Olá!  -disse o vizinho do lado, o pintor Gastone, que vinha a cair de bêbedo-  Com que então uma sueca?
                  
Ele não respondeu e puxou-a, com medo que o outro a atropelasse.
                  
-Anda sempre assim?  -perguntou Greta.
                  
-Não.  Só às vezes...
                  
A gaivota fugira assustada e a manhã envolvia a cidade, branca, azul.  Os canais gelados reflectiam a luz e seguiam as casas cinzentas de portadas verdes.

                  
-Piccolo mondo...  -murmurou Giacomo.
                  
-O quê?
                  
Ele não respondeu.  Abraçou-a e disse-lhe:
                  
-Vamos...

2 comentários:

  1. Manuel, pedi a um familiar em Portugal, que me procurasse este livro. Espero que o encontre, gostaria muito de o ter em meu poder.
    Grata por esta partilha.
    Beijo
    Sónia

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  2. Sonia, se eu tivesse 1 exemplar a mais do meu, enviava-lhe... Mas não tenho. A Leya ainda deve dispor de exemplares. Obrigado pelo seu interesse e pela sua amizade!

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