terça-feira, 9 de outubro de 2012

Memórias de Roma

Via dei Portoghesi, Roma (ao fundo, a porta pequenina é a do meu barbeiro; à direita, podes ver os candeeiros que assinalam e iluminam a lindissíma Igreja de Santo António dos Portugueses)

Agora, quando, mais uma vez, voltarei a Roma, lembrei-me de vos trazer uma das muitas figuras que me impressionaram –e escolhi Mario Onofri, porteiro do Instituto de Santo António, onde fui hóspede oito meses… oito inesquecíveis meses… Transcrevo uma nota da, aliás, “Nota Prévia” que abre o meu primeiro livro sobre Itália, Crónicas Italianas, obviamente esgotado, destino feliz e infeliz dos meus livros. Diz assim:

“…faleceu-me um Amigo que não posso deixar de recordar aqui: Mario Onofri, porteiro do Instituto de Santo António dos Portugueses, em Roma. Mario Onofri foi o meu primeiro Amigo italiano. Era um homem de grande e boa alma, romano puro, generoso, irónico e céptico, amante da vida, com as ilusões que achava possíveis. Era uma figura da Via dei Portoghesi, entre a mesa pobre a que tinha de se sentar, o frio e a pouca luz, o café da viúva e o gradeamento da igreja: punha-se, ultimamente, ali, a apanhar sol e a ouvir o barulho dos outros. Quem por lá passou lembra-se dele: da sua nobreza e da sua compreensão. Ele sabia tantas coisas que, ao vê-lo morto, a transparência da pele e a fragilidade do cadáver me convenceram de que ele se encostara ao ocre de Roma e iria ficar por ali, pelo menos na minha alma, enquanto me lembrasse. Não podia ter morrido. Sabia tantas coisas e viveu muitas vezes em má companhia: de peculadores e acomodatícios, ao longo da sua vida que foi também -e os olhos iluminavam-se, quando falava disso-, a de barman no Grand Hotel des Bains, em Veneza. O fascismo italiano roubou-lhe o emprego e gostava de mostrar o cartão que lhe enviara, em tempos, Giacomo Matteoti, socialista mandado assassinar por Mussolini. Acreditava em pouco, mas tinha uma grande esperança: a que o levava a ser uma pessoa boa para quem quer que chegasse –uma pessoa que se interessava pelos outros. Indignado, exclamava, se falávamos do mundo: “Esses bandidos!” Depois, sorria, espreitava o efeito das palavras, era capaz de encolher os ombros e ir fazer paciências, sempre, porém, com a frase conciliatória, a simpatia inelutável pelo outro: “Venceremos!” – e dizia-o já sem ver o outro, com o lápis a resolver os enigmas da revista de quatro reis, que comprara e levara para o Instituto, curvado sobre a mesa, mas com a barba feita e o cabelo penteado e a cheirar bem. Morreu aso setenta e quatro anos, sem sofrimento. Levantou-se de manhã, deu umas voltas pelo quarto -contaram-me os parentes-, disse à mulher: “Olha, já me vesti, vamos sentar-nos um bocadinho…”, abriu a boca e já não pôde respirar.

Roma, Setembro de 1983”

6 comentários:

  1. Deu vontade de vê-lo. Passamos aqui e nos deparamos com esse pequeno trecho, rico de sentimentos.

    bjs nossos

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  2. Saudade, muita saudade é que tenho das minhas queridas amigas. Voltem depressa! Beijos, muitos!

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  3. Memórias riquíssimas!
    Obrigado pela partilha :)

    Beijo
    Sónia

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  4. Sónia, foi das raras pessoas que apreciaram a breve evocação do senhor Mario Onofri. Obrigado, por ele, obrigado por mim. Um beijo.

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  5. Também gostei muito de ler esta história e admira-me tê-la deixado escapar sem ler, pois nesta data já era leitora assídua do seu blogue há imenso tempo. Mas não devo ter lido, senão teria comentado.

    Um beijinho

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  6. Isabel, chegou atrasada... mas muito a tempo! Um grande beijo!

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