terça-feira, 2 de outubro de 2012

A Mulher Nua





Uma vez que a amiga Luísa Amaral, num gesto de exagerada generosidade, teve a iniciativa de vos introduzir, através da sua página no Facebook, em “O Pássaro de Vidro”, e pareceu interessar-vos, aqui vos entrego os 2 primeiros quadros de “A Mulher Nua”, novela, julgo, ainda acessível em livraria (ou assim deveria ser…). Desculpem-me, se vos aborrecer.


Aqui vai:

“Quem encontrou uma mulher encontrou a felicidade...” 

Prov. XVIII, 22

I

Acordou e viu-a agarrada à janela.  As mãos abertas encostadas aos vidros, os joelhos no parapeito.
                  
-Oh!  Meu Deus! -exclamou, e sentou-se na cama.  Do outro lado, ela ansiava, a olhar para ele.
                  
-Deve estar gelada...
                  
Não se mexia.
                  
-Oh!  Meu deus! -repetiu-  Se cai?
                  
Era Inverno, em Veneza.  As águas tinham gelado e as ruas estavam  desertas.  Ouvia-se, apenas, o assobio do gaz no aquecedor e as unhas dela a arranharem o vidro.
                  
-A esta hora!  Às cinco da manhã!
                  
Atirou  com os cobertores e correu à janela.
                  
-Quer entrar?
                  
Não respondeu, sem tirar os olhos dele.
                  
Abriu a janela e puxou-a para dentro.  Ela ficou no meio do quarto, alta, os cabelos acobreados e o corpo branco.  Viu que ele a observava e cruzou os braços, a esconder o peito.
                  
-Como é que a vou vestir?...
                  
Foi buscar uma camisola, mas, quando voltou, já ela estava agachada a um canto, parecia um animal assustado.  Nos ombros, reparou, tinha penas.
                  
-De onde é que vem este bicho?... -murmurou, porque não queria que ela ouvisse.
                  
-Esta.
                  
Sabia falar.  Não a tocou, ainda que lhe apetecesse: era linda.
                  
-Com certeza.
                  
Ela baixou os olhos.
                   
-Se não queres a camisola, há ali um roupão atrás da porta...
                  
Ela levantou-se e foi buscar o roupão, vestiu-o e agachou-se outra vez.
                  
-Queres um café?  Deves ter frio.
                  
Não queria.  Chegou-se ao aquecimento e uma das penas brancas soltou-se e ficou caída no sobrado.
                  
-Queres uma aguardente?
                  
Ela não respondeu e enroscou-se mais, e sorriu-lhe:
                  
-Não bebo aguardente...
                  
-Ah!, então...
                  
E fixou-a, hesitante.  Viu-a bem:  os olhos de pássaro, as penas, a maneira desajeitada de se enrolar:  era um bicho, não havia dúvida.


II


À cautela, foi buscar a garrafa e serviu-se.
                  
-Como é?...  De onde é que vens?
                  
Ela apontou para a janela.
                  
-Do céu?!
                  
Ela abanou a cabeça, a dizer que sim.
                  
Enquanto bebia, espreitou-a.  Era impossível:  não tinha asas e aquele era o último andar, o quinto, do Palazzo Carminati, em S. Stae.  Não podia ter caído do andar de cima, não havia.  Nem do tecto.  Nem havia nenhuma escada de socorro.  Como é que ela  tinha ido parar ali?
                  
-Vieste de avião?
                  
Respondeu-lhe:
                  
-Venho da Suécia.
                  
-Da Suécia?  Está bem.  Mas tens de te vestir...
                  
-Como?
                  
-Como as pessoas!
                  
Hesitou, a olhar para a pena branca, caída ao lado dela.
                  
-...Com a roupa das pessoas...
                  
-Chega isto...
                   
Sentia-se bem, assim.  Agarrara os joelhos e virara-se para o aquecedor.
                  
-Tu é que mo deste...  Não me queres aqui?
                  
Queria-a.  Bem bastava o frio, os quadros que não vendia.
                  
-Podes ficar...  Mas...
                  
Ela estremeceu e ele julgou que ela podia pensar: «O quê?  Caí aqui, estou gelada, sozinha, sem penas, nem sei onde estou.  Nem sei quem tu és, nem o que me vai acontecer...»  E viu-a de outra maneira, frágil, com o roupão vermelho, o rosto imaculado, os olhos verdes e as mãos brancas a agarrarem os joelhos.  Assustou-se.
                  
-Tens de te vestir...
                  
Ela olhou-o, com uma grande tristeza, e perguntou-lhe:
                  
-Queres que eu seja uma pessoa?
                  
-Não és?
                  
Ela sorriu e chegou as mãos ao lume.
                  
-Se tiver de ser...
                  
-Podes ficar assim, só com o meu roupão...
                  
Olhou, de revés, para a janela.  Tinha medo que ela se fosse embora.
                  
-Obrigada.  És um pintor?
                  
-Um ex-pintor.
                  
Ela levantou-se, deu uma volta pelo quarto e mexeu nas telas encostadas às paredes.
                  
-São bonitos os teus quadros...
                  
-Achas?
                  
-E este:  por que é que não o acabaste?  -perguntou, diante do cavalete abandonado.
                  
Ele fingiu que não a ouvira e serviu-se de mais aguardente.
                  
-Está um frio de rachar!  Tens a certeza que não queres beber nada?
                  
-Como é que te chamas?
                  
-Giacomo.  Giacomo Zurlini.  E tu?
                  
Ela hesitou.
                  
-Não sei...
                  
-Greta?
                  
-Greta? 

-Sim... Greta.

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