sábado, 11 de agosto de 2012

Uma obra-prima de José Régio


"Depois da chuva", 1879, óleo de Arkhip Kuinji


Estação Termino

Como um navio no mar
A meio das noite a casa,
E o vento e a chuva em redor.
Lá dentro, a um canto do lar
Onde um bom tronco se abrasa,
O homem sentado espera.
Se alguém chegar,
Terá luz, terá calor.
Batem à porta. Quem dera
Que fosse realidade!
Já teve tais decepções
O homem que há tanto espera!
Mas agora, alguém batera
Que chega da tempestade,
Que percorreu solidões…
“Entre quem é!” Pode ser
Alguém que venha roubar,
Assassinar, ofender…
“Entre quem é!” Não importa.
Se alguém vem que bate à porta,
O homem só quer abrir,
Chegou, por fim, a saber
Que venha lá quem vier,
Seja quem for,
Só um dos dois pode ser
Desde que não a fingir:
A morte, o amor.

José Régio in Cântico Suspenso, 1968, Portugália Editora

2 comentários:

  1. Um poema muito belo.

    Um bom sábado. Parece que com muito calor...

    ResponderEliminar
  2. Isabel, o Régio é o maior escritor português do séc. XX e um dois maiores portugueses.

    Muito calor, que odeio, como sabe... Sou da Guarda...

    Mas ainda consigo pagar a conta do ar condicionado...

    Um beijo.

    ResponderEliminar