Foi deste modo que se conheceram Lorenza e Andrea, os que amantes nunca foram e, com tanto medo, se amaram... e assim começa o romance...:
O encontro
Lorenza
entrou no cais da Accademia e quando o barco se pôs em movimento ele reparou
nela, os cabelos loiros e a gabardina branca. Ela fitou-o de relance e ele viu os
olhos azuis, a boca vermelha e as faces salpicadas de chuva. Apagaram-se as
luzes e ficaram sozinhos à proa do vaporetto
que continuou a subir o Grande Canal, direito a La Salute. Era o mês de
Novembro de 1976 e a cidade estava quieta no meio da noite e da bruma. Ele
espreitava-lhe o corpo que o reflexo das luzes da cabina, onde estavam
sentados, iluminava. Ela ia apoiada à amurada, a perceber a atenção dele. E,
quando voltou a olhá-lo, Andrea teve medo de a perder, que nunca mais olhasse. Porquê? Atraiam-no os cabelos soltos? As formas, por baixo
da gabardina? A boca que lhe parecia imperfeita e fresca como a de uma criança?
“Mistério têm todos, mas aquela tinha o de Veneza”, pensava ele, a justificar a
curiosidade e o encanto, o desejo e a dependência. E o que a perturbava a ela,
que fixava, com tão pouca naturalidade, as margens e as casas? O barco parou em
La Salute; em S. Marco, entrou e saiu gente. Ele deixou-se ir atrás dela, com
medo de a ver sair, e ela foi ficando, os dois a fingir que não se viam.
Fingiam que não se viam, mas não pensavam senão um no outro. Já a meio da
laguna, ela sorriu-lhe e ele retribuiu-lhe o sorriso. Trocaram as primeiras
palavras e, desde esse momento, a sua relação nunca mais foi simples.
O Pássaro de
Vidro,
1988, Caminho

O começo de um romance lindíssimo.
ResponderEliminarUm bom dia!
Sem dúvida um livro a não perder. Uma história de impossíveis. Como quase impossível será encontrar um exemplar! Dos primeiros que li.
ResponderEliminarObrigado, querida Amiga. Amanhã telefono-lhe. Um grande beijo especial e sentido.
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