quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Um romance emocionante e os milagres da Livraria Lumière




Há muitos anos, na Papelaria do Sr. Casimiro, isto é, quando eu dava os primeiros passos na adolescência, topei uma pequena e deliciosa maravilha, Adeus, Mr. Chips, de James Hilton, traduzido -imaginem por quem- por Erico Veríssimo. A editora? Edições Livros do Brasil, LDA., Lisboa, s.d. Colecção? Naturalmente, a saudosa e riquíssima Colecção Miniatura à qual devemos uma avalanche de títulos dos melhores escritores.

A minha reacção foi de paixão e lágrimas: Mr. Chips é um homem inesquecível –de tal maneira vivo que há que o ter como um homem e não como personagem.

O romance de Hilton, O Doutor Arrowsmith, de Sinclair Lewis, e Jean-Cristophe, de Romain Rolland, eis três livros que marcaram a minha adolescência e juventude.

De facto, folheando, há dias, um caderno/diário de 1957, reencontrei, mais que uma vez nomeado, Jean-Cristophe; e, quando conheci -um anos depois- aquela que viria a ser minha mulher, logo vieram à conversa as obras referidas acima.

O que me tocou em Hilton, Sinclair Lewis e Rolland?

A fortíssima humanidade; a capacidade de amar o outro; a generosidade de se oferecerem para salvar o outro.

Nada mais a acrescentar porque é tudo –e tudo é muito, é quase impossível; mas, no gesto está o tesouro do tudo.

Ora sucedeu que Adeus, Mr, Chips desaparecesse da minha biblioteca; quer dizer: que desaparecesse um mestre.

Sabedora da desgraça, uma grande amiga, a Fada da preciosa Livraria Lumière, não perdeu tempo, miracolou: hoje, a carteira dos ainda existentes CTT trouxe-me de volta a tal pequenina obra-prima, em excelentíssimo estado (a fotografia acima não reproduz a capa do volume que chegou hoje).

O armazém da Livraria Lumière provou, mais uma vez, a sua insondabilidade.

Este fim de Inverno é triste, acinzentado e chuvoso; a terra de Portugal chora os maus tratos e os assaltos que a têm rasgado nos últimos três anos; a gente arrasta o peso do cadáver da alegria assassinada; os ideais emigraram, ou esconderam-se, perante a analfabetização e desmoralização em curso. 

A luz não chega.

Então há que ressuscitá-la –recuperar o sonho, a utopia, a solidariedade, o amor.

De que maneira?

O caminho é simples, ainda que coberto de espinhos: o de seguir a lição de Hilton, Sinclair Lewis, Romain Rolland; o de amar os outros, o que significa respeitar os outros; o de exigir o direito que todos temos de viver em liberdade e justiça –em igualdade, em fraternidade.

E o resto…, o resto não é silêncio; o resto não é senão uma miserável e repugnante caldeira de sacanismo.   
  

   

James Hilton



Sinclair Lewis



Romain Rolland


4 comentários:

  1. Gostei tanto deste texto!

    Uma bela maneira de lembrar estas obras, das quais só li "Adeus Mr. Chips" e de falar de altruísmo e amizade.
    A Fada da Lumière é mesmo...Uma Fada especial!

    Um beijinho grande:)

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  2. Isabel, esses três escritores tocaram-me muito, estão presentes na minha escolha de vida. Fico muito contente por ter gostado. Sabe, altruísmo, amizade, em suma, espírito, tudo iso tem sido destruído por um sistema desumano. Mas nunca é tarde para reconquistar alma!

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  3. Estimado Manuel, apenas tento proporcionar aos outros um pouco do prazer que os livros me proporcionam a mim!
    No que estiver ao meu alcance...
    E, pelos amigos, movo montanhas, se assim for necessário!
    Imperdoável, mas ainda não li a obra em questão!
    Um beijinho grato.:))

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