Norberto Rodrigues
publicou, agora, dois livros que traduzem a sensibilidade, a ironia e o talento
de fixar, num golpe, as grandes e as pequenas belezas, as doridas pobrezas.
As fotografias de
“Trajectos”, um álbum admirável, confirmam o singular artista que ele é,
oscilando entre o poético e a crua realidade. Fala da solidão dos homens; do
desencontro; da indiferença forçada e da busca de um sentido para o dia-a-dia -esse
acumular de instantes cuja verdade se perde no túnel dos movimentos e esbarra
na escuridão do infinito que não se revela nem se deixa agarrar. E as legendas
que acompanham cada imagem ajudam a que nos aproximemos do quase etéreo.
O tocante livrinho de
contos/memórias -“E dos fracos rezam as histórias”- reafirma o dom de captar o
essencial, já patente em “Trajectos”, agora com fortes tintas de nostalgia
ferida pela crua realidade. Os seus contarelos –e recorro a Irene Lisboa que
elegeu esse termo como título de um belo conjunto de historietas-, quase sempre
tocam a dura denúncia dos gestos improfícuos; dos gestos e “aventuras” inconsequentes
que, no entanto, vencem a inconsequência e o insensato e nunca se transformam
em falhanços porque é do humano rebolar na vida vestido de histrião
involuntário –e porque é sincera a procura obstinada do modo se soltar cada um da roupa de histrião e
abraçar os sonhos. Há, também, a pureza: a ingenuidade dos que acreditam no
maravilhoso escondido nas coisas mais simples e senhoras de um tesouro
qualquer.
Eis duas obras que não
deveis perder. Impressionaram-me. Aqui te deixo este breve e incompleto apontamento.
Norberto Rodrigues



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