Através de José Luís Profírio
Eis o texto de Paula Lourenço (advogada de Carlos Santos Silva) na revista
da Ordem dos Advogados
JE NE SUIS PAS CHARLIE. JE SUIS AVOCAT!
Vamos a um supor:
O direito de defesa é sagrado num país que se diz um Estado de Direito.
O segredo de justiça é excepcional, pois como regra, o processo penal é
público. Existirá se o MP entender que os interesses da investigação o
justificam, e o Juiz de instrução validar esse entendimento.
Estão vinculados ao segredo de justiça todos os sujeitos e participantes processuais,
bem como as pessoas que, a qualquer titulo, tenham tomado contacto com o
processo ou tido conhecimento dos seus elementos.
Nesta medida, num processo sujeito a segredo de justiça, os investigadores
sabem de todas as diligências que foram feitas, de todos os documentos
reunidos, de todos os depoimentos ou interrogatórios realizados e de todas as
escutas efectuadas. Já os arguidos e seus advogados têm apenas acesso aqueles
elementos que a investigação e o Juiz de instrução lhes facultarem, nomeadamente
no 1º interrogatório e para efeito de aplicação de medidas de coacção.
Esta é a tensão que importa registar: se, por um lado, o arguido tem o
direito de se defender - direito garantido constitucionalmente - por outro,
terá de o fazer nos termos definidos no CPP e atentas as circunstâncias algo
limitadoras do segredo de justiça a que está sujeito, pois é óbvio que o
direito de defesa não é completo sem se saber o que consta do processo.
Registadas as balizas do equilíbrio legislativo que se pretende entre o
direito de defesa do arguido e a necessidade do segredo de justiça na fase de
investigação, façamos um exercício do "vamos a um supor".
− Suponhamos que existia um processo em segredo de justiça iniciado em
Julho de 2013 de que falavam os jornais, em particular a partir do verão de
2014; − Suponhamos que para essa investigação e na sequência, com certeza, de
promoção do MP, emitiu o Juiz de instrução 3 mandados de detenção fora de
flagrante delito para serem usados pelos OPC nos dias seguintes à sua emissão;
− Suponhamos mais um pouco: que os OPC, em vez de fazerem uso dos mandados que
deveriam entregar aos visados, no momento em que os privaram da sua liberdade
não o fizeram, pois nessa altura teriam também de os constituir arguidos,
ficando então evidente o direito a assistência de um defensor em todos os actos
do processo e comunicado aos mesmos o direito a fazer a regulamentar chamada
para um advogado; − Suponhamos agora que os cidadãos chegam ao aeroporto num
voo proveniente de Paris pelas 18h, que são presos sem mais, sem que lhe seja
entregue um mandado de detenção, que lhe são r
etirados os telemóveis das mãos para que não possam fazer qualquer
contacto, que são levados sob forte escolta (com mais de 15 elementos) para a
Alfândega de Lisboa, onde são revistados, e apreendidos todos os documentos que
transportavam consigo, sem que igualmente houvesse um mandado para o efeito.
Que de seguida são conduzidos às viaturas que tinham no parque do aeroporto, as
quais são revistadas, e apreendidos todos os documentos, telemóveis, e
computadores que aí se encontravam, sem que houvesse qualquer mandado;
− Suponhamos que posteriormente, sempre sob forte escolta policial, são os
arguidos levados para o local do seu trabalho onde já decorriam buscas com
cerca de 30 OPC; − Suponhamos ainda que, nesse local onde chegaram os arguidos
se encontrava já o "Juiz das Liberdades e Garantias" e o MP,
representando ele mesmo a legalidade e a sua execução; − Suponhamos agora, que
por não ter sido entregue o mandado de detenção nem feita a constituição de
arguido, nem garantida a presença do advogado, as buscas que continuaram na
casa de um dos putativos detidos são complementadas com um
"interrogatório" de várias horas ao seu cônjuge; − Suponhamos ainda
que uma das vítimas do sequestro ocorrido no dia 20 de Novembro de 2014 (no
âmbito deste exercício do "vamos a um supor") era advogado, e que a
busca autorizada era igualmente para o seu gabinete de advogado; −
Suponhamos
que o mesmo, em vez de assistir à busca que decorria no seu gabinete foi
mantido preso na sala de
reuniões das instalações buscadas; − Suponhamos agora que, movidos pelo
poder desmedido e adrenalina circulante (galvanizada pelo número de OPC
intervenientes - mais de 30 - pela presença de um Juiz de instrução e de um
alto Procurador da República), pelos 22h30 "agarram", literalmente,
no advogado, o levam para a sua própria casa e aí fazem busca não autorizada,
apreendem documentação vária na presença da mulher, do filho de 5 anos e do
bebé com 2 meses, que assistem horrorizados à violência com que despejam
gavetas e circulam em passo militar pela casa; − Suponhamos agora que os autos
de busca, nomeadamente ao escritório do advogado, mas não só, são falsos. Que
em vez de os mesmos atestarem com verdade onde e quando foram apreendidos os
documentos, telefones, dinheiro e computadores, referem falsamente que foram
apreendidos, apenas e só, no sítio onde as buscas estavam autorizadas;
- Suponhamos ainda, malevolamente, porque tal situação, claro, não seria
possível num país como Portugal, os arguidos - presos, interrogados sem apoio
de um advogado, sujeitos a revista ilegal, a buscas ilegais nas suas casas e
nos seus carros - são afinal notificados dos mandados de detenção e
constituídos arguidos pelas 3h da manhã, quando tudo termina, buscas incluídas;
- Suponhamos que os arguidos só têm acesso ao advogado no dia seguinte,
pelas 11h da manhã, sendo de seguida encaminhados para os calabouços do TCIC, e
que só voltam a ter acesso ao advogado (apesar deste também se encontrar no
mesmo edifício, mas num piso menos subterrâneo...) pelas 18h do dia 21 de
Novembro de 2014, altura em que lhes é fornecida a imputação de factos nos
termos do art.143º do CPP; − Suponhamos que, para discutir a mesma, foi dada ao
advogado 1h30, a distribuir pelos dois clientes que patrocinava; − Suponhamos
agora coisas descabidas: suponhamos que os arguidos, durante os 5 dias que
duraram as diligências de 1º interrogatório para aplicação de medidas de
coacção, não tiveram sequer direito a tomar banho, a mudar de roupa, a
apresentar-se condignamente perante o Juiz que os vai interrogar; − Suponhamos
que é o advogado quem, diariamente, e torpedeando a ordem expressa dada à PSP e
ao estabelecimento prisional junto da PJ, leva aos seus
clientes roupa interior e camisas lavadas que os arguidos trocam à pressa e
quando autorizados pelos elementos policiais na casa de banho do TCIC; − -
-Suponhamos ainda que, no próprio dia em que é entregue aos arguidos a imputação
de factos, urna súmula perfeita da mesma aparece no "Sol on-line"; −
Suponhamos mais: que interessava a uma particular investigação instrumentalizar
a comunicação social, usando como guardas avançados o jornal Sol e o Correio da
Manhã no sentido de conferir um mandato directo do povo aos juízes, garantindo
uma "legitimidade" de actuação e uma garantia de bastarem as
suspeições onde falham os factos:
− Suponhamos então que, dia após dia, os arguidos assistem, estarrecidos, à
mais pérfida violação do segredo de justiça. E que tomam conhecimento através
dos jornais de novos factos, com os quais não foram confrontados nos seus
interrogatórios, castrando-se assim o seu direito a defesa; Suponhamos ainda
que um dos arguidos acabou por ficar em prisão preventiva sob pretexto de
existir perigo de fuga, porquanto aquele era detentor de meios financeiros que
lhe permitiriam refazer a vida em qualquer parte do mundo, e perigo de
perturbação do inquérito, porquanto ainda decorriam as diligências de
cooperação com instituições bancárias na Suíça, podendo a liberdade plena fazer
perigar as mesmas:
− Suponhamos no entanto que logo a seguir o próprio Juiz de instrução faz
cessar o primeiro fundamento "congelando" todas as contas do arguido,
e que as ditas relações com a Banca Suíça já existem desde 1 de Novembro de 2013,
não havendo possibilidade do arguido as fazer "perigar"; − Suponhamos
finalmente que, agora por decisão e práctica da investigação, os principais
factos e suposições do processo se discutem na praça pública, dia após dia,
jornal após jornal, apenas com a versão da Acusação; − Suponhamos que o
arguido, que não descansou e não descansa de fazer a sua defesa, sabe agora que
foram utilizados meios de prova proibidos e dadas informações falsas no âmbito
de cartas rogatórias. E ainda que, logo no início do processo, foram
apresentadas as mesmas conclusões que viriam a ser repetidas, nos seus precisos
termos, para efeito de aplicação das medidas de coacção aos arguidos, 1 ano e 2
meses mais tarde.
− Neste exercício quase terminado do "vamos a um supor", caso estivéssemos
no terreno e não num jogo intelectual, como se deveria comportar o advogado que
garante a defesa destes hipotéticos arguidos?
− Se a investigação - ela mesma - humilhou, ridicularizou e espezinhou o
sigilo de que diz necessitar para prosseguir o seu trabalho, deve ainda assim o
advogado ficar refém de uma qualquer ressonância criminal do segredo de
justiça? Pode-se ainda argumentar que este segredo de justiça aniquilado é
necessário à eficácia da investigação?
Como se compagina neste jogo do “vamos a um supor”, o direito de defesa?
A lealdade processual impõe que, mesmo estando o processo em segredo de
justiça, os factos relevantes sejam primária e directamente comunicados aos
arguidos. É absolutamente inadmissível, por desleal e criminoso, que factos em
segredo de justiça venham a público através da comunicação social ainda antes
de os arguidos serem com eles confrontados. É frequente ler-se e ouvir-se na
comunicação social a revelação de factos atinentes ao processo em segredo de
justiça sem que o arguido tenha deles conhecimento, precisamente por estarem em
segredo. E o mais grave é que também com demasiada frequência os meios de
comunicação indicam como fontes da notícia "fontes próximas do
processo". A experiência mostra que efectivamente muitos jornalistas têm
acesso privilegiado a informações sobre factos do processo em segredo de
justiça, donde que comece a ser necessário que os advogados penalistas tenham
também eles um jornalista de serviço e naturalmente de preferênci
a que tenha acesso fácil "a fontes próximas dos processos"! Chega
a parecer que a violação do segredo de justiça mediante a divulgação de
indícios ou meras presunções através dos meios de comunicação social é um meio
de que se servem as autoridades para criarem um clima populista de condenação
dos suspeitos na praça pública para justificar medidas menos ponderadas ou
ilegais ou injustas. Que pelo menos parece ser assim, parece, e por isso a
inevitável suspeita face à frequência do fenómeno.
Estes procedimentos implicam novas estratégias de defesa. O arguido já não
tem só de defender-se no processo judiciário, mas também no processo mediático.
Naquele, por imposição da lei, deve usar uma estratégia de conivência; no
mediático, uma estratégia de ruptura. Perante as acusações indirectas feitas
pelos media o arguido tem direito a defender-se por todos os meios ao seu
alcance, mesmo com violação do segredo de justiça se for necessário à sua
defesa, porque a defesa é direito sagrado.
Há muitos segredos que raramente são violados. Também se podem apontar
exemplos de processos criminais em que o segredo de justiça foi respeitado, não
obstante a apetência pela notícia. Estou convencida que a violação do segredo
de justiça através dos meios de comunicação só acontece porque convém às autoridades
arregimentar apoios populares, ou então porque a quem o faz lhes falta educação
democrática.
É tempo de nos insurgirmos todos contra o estado a que a justiça chegou.
Não sou "Charlie". Sou advogada e também luto por uma justiça e
sociedade melhores.

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