sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Os amores de Júlio Dinis

A boa companhia...

Ainda às voltas com Júlio Dinis, e encantado, consulto, agora, um livrinho de Mestre António Sérgio, As Pupilas do Senhor Reitor, Trechos escolhidos e apresentados em inserção num resumo da novela, editado pela saudosa Livraria Sá da Costa, em 1940.

A livraria do Chiado, à esquina, onde se juntavam personalidades de outros tempos, quando a Brasileira era o que já não é hoje e a Bertrand idem.

Não que o tempo então fosse mais aberto; bem pelo contrário: era bem apertadinho: sofríamos o regime do sinistro e medíocre ex-seminarista de Santa Comba.

A alma portuguesa continuava pasmada, tal qual a denunciou Antero, mas havia quem fizera e fazia coisas a fim de que se curasse.

E a verdade é que Abel Manta, revoltado, farto, indignado, me confiou, um dia:

“-Sabe que mais? Isto é um país do caraças! Um país onde o peido é maior do que o cu!”

Trato, porém, agora, de Júlio Dinis: descobri, na obrinha de Mestre António Sérgio, este desabafo, colhido na sua correspondência, já muito doente, como desde cedo esteve, e a dois anos da morte:

“Há poucos momentos de mais felicidade para mim, hoje, do que aqueles em que me absorve a atenção a composição de um romance. Consigo às vezes ver tam distintas as personagens que criei, que parece-me chegar quási a convencer-me de que elas existem. E com essa gente dou-me tam bem!”*

E veio-me à cabeça a solidão de Proust e o mundo maravilhoso, as figuras que ia criando e recriando e o acarinhavam.

*seguindo António Sérgio, respeito a ortografia de Júlio Dinis

Júlio Dinis: o homem que amava o bem e conhecia o mal


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