sábado, 4 de janeiro de 2014

Uma página magistral de Vicente Sanches, o grande escritor ignorado num país onde a Cultura estrebucha…


Obra de Claude Monet ou a frágil -e eterna- beleza da vida


“Uma pequena formiguinha andando às voltas no deserto imenso do pano claro sobre o tampo da mesa a que estou sentado.

A certa altura, não sei porquê, para, deita-se de costas, estrebucha uns escassos minutos, e morre.

Pobre formiguinha.

Terá morrido por se haver perdido relativamente há muito do seu formigueiro?

Ou, sentindo-se mal, sentindo-se doente, terá pressentido que iria morrer, e fugiu do formigueiro com vergonha de ser vista moribunda pelas companheiras; pelas amigas; pelas outras formiguinhas?
(É sabido: muitos animais, de muitas espécies, fogem, isolam-se, escondem-se para morrer.)

*

E vá-se lá conferir o mistério de todas as mortes, sejam elas quais forem.

Até um vegetal, uma simples flor que vai ficando murcha, (moribunda, morta) na pequena jarra onde a pusemos fresca e bonita, parece-me às vezes pedir-me desculpa pela sua cadavérica decadência. Pela sua inocente mas indecente: feia, como que suja, vergonhosa decadência!”

Vicente Sanches in Dezoito Aforismos ou: -Ordens Teatrais Religiosas -Ordens Religiosas Teatrais precedido de: 22 Aforismos precedido de : 50 Aforismos, Edição do Autor, 2012

2 comentários:

  1. Perguntas pertinentes...
    Deve ser um livro muito interessante.
    Vou tentar encontrar.

    Um beijinho.:))

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  2. Não tente -eu já o tenho aqui para si. Um beijo.

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