Os vulcões da alma
4 de Dezembro de 2012
Leio Recordações da casa dos mortos. Foi, em
1951, o encontro com Dostoievski, comprado o livro na saudosa Papelaria do Sr.
Casimiro, na Guarda.
Era uma daquelas edições abreviadas e traduzidas do
francês, ao tempo, a segunda língua, entre nós.
Nunca mais voltei a Recordações da casa dos mortos,
que muito impressionou e abriu o universo do grande russo a um adolescente perdido numa cidadezinha parada, conservadora e clericalista, num "alto monte da sagrada Beira", expressão de Augusto Gil.
Agora resolvi
relê-lo e outra vez a obra me deslumbrou e perturbou.
Tanto de Camilo, na
compreensão do sofrimento, do sagrado presente em todo o homem, a cada hora humilhado,
ofendido, assaltado, espezinhado, jogado como se fosse um títere, nas mãos de
um destino inexplicável!
Quanta delicadeza e amor, ao apresentar e descrever as personagens.
Ao modo de Camilo, o
tabelião -o único que poderia sê-lo- o apontador da alma portuguesa, evangelista da tragédia humana.
Dostoievski, Camilo…
Raul Brandão.
A estranhíssima
afinidade da alma russa e da alma portuguesa.
O respeito dos russos
pelos desgraçados: “Matou? Caiu-lhe a desgraça, em cima! Pobre desditoso!”.
E a
compreensão instintiva, irracional; a caridade.
Como se o criminoso -o
desgraçado- fosse vítima de um fado mau, de uma força incontrolável… do
diabo!
Como se dentro do homem
se soltassem poderes ingovernáveis e ele actuasse irresponsavelmente.
Há, em Dostoievski, a
obsessão do perdão: ama de mais para condenar.
Todos somos criaturas de
Deus, bons e maus.
E bons e maus, à luz de
quê? Diante de quem? Segundo que ordem que nos escapa e se transmuta,
constantemente, em desordem –em sem sentido, em absurdo, o absurdo de Possessos, romance do niilismo, quase a sua bíblia?
Russo até ao osso,
eslavista, como Camilo foi português, agarrado à alma russa, com Camilo à portuguesa, e a sofrerem com
elas, vítimas delas.
Mas…
quem é vítima da paixão ou pode evitá-la, se a paixão é a vida e o
desapaixonado, um órfão de espírito?

Manuel Poppe, acredita que nunca li esta obra? Já li outros títulos de Dostoievski. É um escritor admirável.
ResponderEliminarBeijinhos e votos de bom fim de semana.
Cláudia, é um livro impressionante e de uma maravilhosa e dolorosa humanidade. Um beijo e os desejos de um bom fim de semana, querida amiga!
ResponderEliminarJá há dias quando falou dele fiquei com vontade de ler este livro de que fala de forma tão apaixonada.
ResponderEliminarE preciso ser superior para não condenar e saber perdoar. Nem todos têm a capacidade para o fazer.
Vem-me à lembrança aquele caso de que agora muito se fala, daquele jovem que está preso nos Estados Unidos, por ter morto de forma violenta o amigo (amante). O que levará alguém a ser tão violento? É difícil não condenar um acto destes.
Bons e maus, se calhar também depende das circunstâncias da vida...mas há coisas que é muito difícil aceitar ou compreender.
É um assunto que nunca se esgota.
Um beijinho
Isabel, bom dia e bom fim de semana! Leia esse livro do Dostoievski!
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