sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Páginas dum Diário público: nós e os russos


Os vulcões da alma

4 de Dezembro de 2012

Leio Recordações da casa dos mortos. Foi, em 1951, o encontro com Dostoievski, comprado o livro na saudosa Papelaria do Sr. Casimiro, na Guarda. 

Era uma daquelas edições abreviadas e traduzidas do francês, ao tempo, a segunda língua, entre nós.

Nunca mais voltei a Recordações da casa dos mortos, que muito impressionou e abriu o universo do grande russo a um adolescente perdido numa cidadezinha parada, conservadora e clericalista, num "alto monte da sagrada Beira", expressão de Augusto Gil.   

Agora resolvi relê-lo e outra vez a obra me deslumbrou e perturbou.

Tanto de Camilo, na compreensão do sofrimento, do sagrado presente em todo o homem, a cada hora humilhado, ofendido, assaltado, espezinhado, jogado como se fosse um títere, nas mãos de um destino inexplicável!

Quanta delicadeza e amor, ao apresentar e descrever as personagens.

Ao modo de Camilo, o tabelião -o único que poderia sê-lo- o apontador da alma portuguesa, evangelista da tragédia humana.

Dostoievski, Camilo… Raul Brandão.

A estranhíssima afinidade da alma russa e da alma portuguesa.

O respeito dos russos pelos desgraçados: “Matou? Caiu-lhe a desgraça, em cima! Pobre desditoso!”. 

E a compreensão instintiva, irracional; a caridade. 

Como se o criminoso -o desgraçado- fosse vítima de um fado mau, de uma força incontrolável… do diabo!

Como se dentro do homem se soltassem poderes ingovernáveis e ele actuasse irresponsavelmente.

Há, em Dostoievski, a obsessão do perdão: ama de mais para condenar.

Todos somos criaturas de Deus, bons e maus.

E bons e maus, à luz de quê? Diante de quem? Segundo que ordem que nos escapa e se transmuta, constantemente, em desordem –em sem sentido, em absurdo, o absurdo de Possessos, romance do niilismo, quase a sua bíblia?

Russo até ao osso, eslavista, como Camilo foi português, agarrado à alma russa, com Camilo à portuguesa, e a sofrerem com elas, vítimas delas.

Mas… quem é vítima da paixão ou pode evitá-la, se a paixão é a vida e o desapaixonado, um órfão de espírito?      

4 comentários:

  1. Manuel Poppe, acredita que nunca li esta obra? Já li outros títulos de Dostoievski. É um escritor admirável.
    Beijinhos e votos de bom fim de semana.

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  2. Cláudia, é um livro impressionante e de uma maravilhosa e dolorosa humanidade. Um beijo e os desejos de um bom fim de semana, querida amiga!

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  3. Já há dias quando falou dele fiquei com vontade de ler este livro de que fala de forma tão apaixonada.
    E preciso ser superior para não condenar e saber perdoar. Nem todos têm a capacidade para o fazer.
    Vem-me à lembrança aquele caso de que agora muito se fala, daquele jovem que está preso nos Estados Unidos, por ter morto de forma violenta o amigo (amante). O que levará alguém a ser tão violento? É difícil não condenar um acto destes.
    Bons e maus, se calhar também depende das circunstâncias da vida...mas há coisas que é muito difícil aceitar ou compreender.
    É um assunto que nunca se esgota.
    Um beijinho

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  4. Isabel, bom dia e bom fim de semana! Leia esse livro do Dostoievski!

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